Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Rio de Janeiro vê aumento de casos e mortes de Covid-19

Entre os motivos podem estar fim do isolamento e mudança na contagem de casos e óbitos

Rio de Janeiro

A tranquilidade de quem sai às ruas e praias do Rio de Janeiro amparado pela ideia de que a pandemia está em queda pode estar ameaçada. Diferentes indicadores mostram que a tendência de declínio da Covid-19 pode não ser mais realidade para os fluminenses.

A média móvel de infectados pelo vírus —indicador que leva em conta a média de casos a cada bloco de sete dias— vem sofrendo um aumento há nove dias seguidos no estado e há 12 dias na capital. Passou, por exemplo, de 374 para 808 entre 9 e 23 de agosto na cidade, uma alta de 116%.

A comparação é feita sempre com o dado de duas semanas atrás por causa do período de incubação do vírus. Também considera a alta ou a queda apenas quando a variação é superior a 15% —abaixo disso, o número é visto como estável.

Já o crescimento dos óbitos é mais recente. Eles estão subindo há cinco dias na capital e há quatro no estado, onde saltaram 64% entre os dias 10 e 24 de agosto, o maior percentual desde 28 de maio. Em geral, esses índices vinham caindo nas semanas anteriores.

Segundo o físico Marcelo Gomes, pesquisador da Fiocruz e coordenador da plataforma InfoGripe, o fim da tendência de queda já vinha sendo prevista desde meados de junho pelos dados de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

“Há sinais muito fortes de que não estamos mais em queda, estamos em estabilização desde junho, com um leve aumento em julho”, afirma. O sistema usa modelos estatísticos para prever a quantidade de doentes em tempo real, compensando o atraso nas notificações.

Médicos de clínicas da família em favelas cariocas como Rocinha e Manguinhos afirmam que veem uma estabilização de atendimentos da Covid. Na primeira, um profissional observou um leve aumento mais recentemente, de três para cinco pacientes por turno.

Para Gomes, a alta observada nos boletins divulgados agora pode ser um reflexo dessa estabilização que vem ocorrendo e se acumulando há dois meses. Ou seja, as pessoas que sentiram os sintomas lá atrás só tiveram seus casos confirmados e reportados agora.

Junho foi o mês em que o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) e o governador Wilson Witzel (PSC) começaram a flexibilizar as regras de isolamento social. Na semana passada, o prefeito adiou a fase seis do plano de retomada, que liberaria cinemas, teatros e casas de eventos.

Nos últimos meses, a cidade maravilhosa se habituou a ver suas praias, ruas, lojas, restaurantes e bares cheios novamente. Os turistas começam a voltar e ocupar os hotéis e pontos turísticos, que reabriram no último dia 15.

“Está se fazendo a liberação da quarentena sem isolar as pessoas que estão transmitindo a doença e seus contatos. Estão usando a testagem rápida, que só mostra um retrato do que já aconteceu e não serve para interromper a cadeia de transmissão do vírus”, critica o epidemiologista Diego Xavier, da Fiocruz.

Cariocas ignoram isolamento social e vão à praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em junho - Pilar Olivares - 13.jun.2020/Reuters

Ele avalia que não há um protocolo claro em nível federal para testagem e rastreio na atenção básica e que seria preciso fazer testes rotineiros em profissionais essenciais como de saúde e segurança, porque eles têm um contato muito intenso com a população.

Até hoje o estado já registrou mais de 214 mil casos e 15 mil mortes pela doença ao todo. Após ter passado por um colapso no fim de abril, a ocupação de leitos de UTI está agora em 53% na rede estadual e em 71% na rede pública da capital.

Além da flexibilização do isolamento, outro fator que pode ter contribuído para o fim da tendência de queda no Rio foi uma mudança nacional na metodologia de contagem dos casos e mortes da Covid-19, segundo as secretarias municipal e estadual de Saúde.

Desde 1º de agosto, o Ministério da Saúde determinou que, agora, são contabilizados todos os doentes que apresentam os critérios clínicos e radiológicos, mesmo sem a confirmação laboratorial do vírus.

“A mudança na classificação do ministério fez com que mais de 700 óbitos que estavam em investigação se tornassem óbitos confirmados por Covid. Os critérios causaram essa inclusão maciça de óbitos, que não aconteceram hoje, aconteceram em maio, junho e julho”, declarou a secretária municipal Beatriz Busch.

Questionada, a prefeitura disse que suas equipes técnicas estão fazendo a avaliação dos números dos últimos dias, que dados diários isolados não refletem a realidade do período e que óbitos de hoje refletem um cenário de contaminação de dias anteriores.

Já o governo do estado, que atualmente classifica sete de suas nove regiões como de baixo risco, diz não utilizar a média móvel para contabilizar a doença porque ela provoca distorções nas informações —casos antigos que demoraram a ser informados acabam sendo contados depois.

A pasta afirma que tem intensificado a testagem e alega que, de acordo com o seu acompanhamento, os indicadores de óbitos no estado estão em queda sustentada desde a semana de 3 a 9 de maio, ao se analisar a data de ocorrência do evento. Para fazer a comparação, porém, usa números do pico da pandemia.

“Enquanto em maio ocorreram em média 171 mortes por dia decorrentes da Covid, em agosto foram 58 óbitos por dia. Em relação às internações, não foi constatada tendência de aumento no sistema de informação da rede estadual”, informa em nota.

Sobre os dados de SRAG, a secretaria diz que é importante verificar se as internações são causadas pelo coronavírus ou outros vírus comuns no inverno. “No pico da pandemia, de 26 de abril a 9 de maio, 72% das internações por SRAG foram confirmados para coronavírus, enquanto na semana de 2 a 8 de agosto, foram apenas 35%”, afirma.

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