Na crise sanitária, tratamento oncológico tem que fazer parte do plano de emergência, diz especialista da OMS

Oncologista, Andre Ilbawi alerta sobre prejuízos de enfraquecer atenção a pacientes com câncer

São Paulo

Os progressos feitos no tratamento e na cura para o câncer têm sido impactados negativamente pela pandemia do novo coronavírus, mas existem estratégias possíveis para reverter esse quadro e elas precisam ser postas em prática, afirma o americano Andre Ilbawi, oficial técnico de controle do câncer da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Ele foi um dos participantes da abertura do sétimo Congresso Todos Juntos Contra o Câncer, realizada virtualmente nesta segunda (21).

“Estávamos em um momento onde a informação era escassa e não sabíamos o que a pandemia traria, mas isso mudou”, afirma Ilbawi, que é oncologista.

Levantamentos recentes mostram que, no Brasil, o medo da contaminação pelo novo coronavírus retardou a busca de pacientes por ajuda médica e adiou ou cancelou tratamentos de câncer.

A estimativa é de que 625 mil novos casos da doença ocorrerão em 2020 —assim como em 2021 e 2022—, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

No caso do câncer, aos impactos da pandemia se somam lacunas já existentes no tratamento da doença.

Diagnósticos tardios, falta de acesso ao tratamento adequado e baixo número de oncologistas são alguns dos problemas que afligem sobretudo os países menos desenvolvidos, diz Ilbawi. No contexto de crise sanitária, é preciso que o atendimento oncológico faça parte do plano de emergência dos governos.

Para isso, a OMS avalia que pensar na integralidade do cuidado na saúde​ oncológica é peça-chave. Isso passa pela definição e adaptação dos cursos de tratamento, comunicação pública robusta com a sociedade, uso da telemedicina, aprimoramento dos cuidados caseiros e amplo acesso a medicamentos.

Andre Ilbawi fala durante palestra
Andre Ilbawi, oficial técnico de controle do câncer da OMS (Organização Mundial da Saúde) - Divulgação

“Há um entendimento maior do que é preciso para responder à pandemia. Isso não é motivo para ser negligente, mas é uma segurança de que é possível continuar com o tratamento do câncer mesmo em situações nas quais a transmissão comunitária ainda esteja acontecendo”, afirma.

Ilbawi destaca também que a limitação de dados sobre a eficácia de diferentes estratégias de mitigação e a abundância da desinformação são grandes desafios.

No caso do Hospital do Amor —antigo Hospital de Câncer de Barretos —, especializado na prevenção e tratamento da doença, Henrique Prata, presidente da instituição e participante do congresso, afirma que a ocupação da capacidade total de atendimento para câncer caiu para 70% nos primeiros meses de chegada da pandemia, mas agora já está em 90%.

Em 2019, o hospital realizou mais de 1 milhão de atendimentos em 224 mil pacientes oncológicos.

São Paulo, SP, 30-03-2016. "Fórum O Futuro ao Combate do Câncer", no Teatro da Universidade PUC. Na foto, Henrique Prata, diretor-geral do Hospital do Câncer de Barretos. - Bruno Santos/ Folhapress

Uma estratégia que será adotada, afirma Prata, é o reforço da telemedicina. Em média, os pacientes que procuram o hospital estão a 1.500 quilômetros da sede, localizada em Barretos (SP).

O que também é positivo é a conscientização da sociedade, diz. “Muitas pessoas achavam que o câncer era um problema apenas do governo, quando na verdade é de todos. Acho que agora há uma nova consciência de que toda a sociedade deve se engajar na relação com a saúde.”

O trabalho em comunidade é outro aspecto a ser lembrado, acrescenta Phillip Scheinberg, chefe da área de hematologia do Centro de Oncologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

São Paulo (SP), 26-01-2012. Retrato do medico hematologista Phillip Scheinberg - Isadora Brant/Folhapress

“Uma vez que os dados eram escassos, pegamos todas as informações que tínhamos e, em comunidade, tomamos uma série de decisões. Isso trouxe conforto para os médicos, para a equipe multidisciplinar e para os pacientes”, relata sobre a experiência da equipe do hospital nos primeiros meses da pandemia.

Quando for desenvolvida a vacina para a Covid-19, lembra Scheinberg, serão precisos testes específicos para pacientes oncológicos que, por terem o sistema imunológico comprometido, podem ter efeitos colaterais específicos.

A apresentação do painel de abertura foi feita pelo jornalista Rodrigo Bocardi, da Rede Globo. O Congresso Todos Juntos Contra o Câncer segue até sexta-feira (25), e as inscrições ainda podem ser feitas por meio do site oficial.

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