Alguns sobreviventes da Covid têm anticorpos que atacam o corpo, e não o vírus

Nova pesquisa descobriu 'autoanticorpos' semelhantes aos de pacientes de lúpus e artrite reumatoide

Apoorva Mandavilli
Nova York | The New York Times

Alguns sobreviventes da Covid-19 apresentaram sinais preocupantes de que seu sistema imune se voltou contra o próprio corpo, o que lembra doenças autoimunes como lúpus e artrite reumatoide, segundo um novo estudo.

Em certo momento, o sistema de defesa do corpo desses pacientes passou a atacar si próprio, e não o vírus, sugere o estudo. Os pacientes produziram moléculas chamadas "autoanticorpos", que visam material genético das células humanas, em vez do vírus.

Essa reação imune desorientada pode exacerbar os efeitos da Covid-19. Também pode explicar por que os chamados "long haulers" (alguém que não se recuperou totalmente da doença depois de semanas ou até meses) têm problemas que persistem depois da cura da doença inicial e de o vírus ter desaparecido de seus organismos.

As conclusões encerram importantes implicações para o tratamento: usando os testes existentes para detectar autoanticorpos, os médicos identificaram pacientes que podem se beneficiar dos tratamentos usados contra lúpus e artrite reumatoide. Não há cura para essas doenças, mas alguns tratamentos diminuem a frequência e a gravidade das crises.

"É possível atingir os pacientes adequados mais fortemente com algumas dessas drogas mais agressivas, e esperar melhores resultados", disse Matthew Woodruff, imunologista na Universidade Emory em Atlanta e principal autor do trabalho.

Os resultados, divulgados na sexta-feira (23) no servidor MedRxiv, ainda não foram publicados em revistas científicas, mas outros especialistas dizem que os pesquisadores que realizaram o estudo são conhecidos por seu trabalho meticuloso e que as descobertas não são inesperadas porque outras doenças virais também desencadeiam autoanticorpos.

"Não estou surpresa, mas é interessante ver que realmente está acontecendo", disse Akiko Iwasaki, imunologista na Universidade Yale. "É possível que até uma doença de moderada a branda possa induzir esse tipo de reação dos anticorpos."

Há meses estava claro que o coronavírus pode causar um descontrole do sistema imune em certas pessoas, causando mais danos ao corpo que o próprio vírus. (A dexametasona, esteroide que o presidente dos EUA, Donald Trump, tomou depois de ser diagnosticado com Covid, mostrou-se eficaz em algumas pessoas com a doença severa para conter essa reação imune exagerada.)

As infecções virais fazem as células humanas morrerem. Às vezes as células morrem silenciosamente, mas às vezes, e especialmente nos acessos de infecção grave, podem explodir, espalhando suas entranhas. Quando isso acontece, o DNA, normalmente enclausurado em pacotes enrolados no interior do núcleo, é subitamente espalhado e visualizado.

Na reação típica a um vírus, células imunes conhecidas como células B fabricam anticorpos que reconhecem pedaços de RNA do vírus e se prendem a eles.

Mas, em condições como lúpus, algumas células B não aprendem a fazer isso e produzem autoanticorpos que se prendem a restos de DNA de células humanas mortas, confundindo-as com invasoras. Algo semelhante pode acontecer em pacientes com Covid-19, sugere a pesquisa.

"Sempre que existe essa combinação de inflamação e morte celular, existe potencial para que surjam doença autoimune e autoanticorpos", disse Marion Pepper, imunologista na Universidade de Washington em Seattle.

Woodruff e seus colegas relataram no início deste mês que algumas pessoas com Covid-19 grave têm essas células imunes B não refinadas. A descoberta os levou a explorar se essas células B formam autoanticorpos.

No novo estudo, os pesquisadores examinaram 52 pacientes com Covid-19 severa ou crítica, mas que não tinham histórico de doenças autoimunes.

Eles descobriram autoanticorpos que reconhecem DNA em quase metade dos pacientes. Também encontraram anticorpos contra uma proteína chamada fator reumatoide e outras que ajudam na coagulação do sangue. Entre a metade superior dos pacientes mais graves, mais de 70% tinham autoanticorpos contra um dos alvos testados, disse Woodruff.

"Esses pacientes não apenas têm uma reação imune semelhante à autoimune. As reações imunes são acopladas a autorreatividades clínicas verdadeiras e testáveis."

Alguns dos autoanticorpos que os pesquisadores identificaram estão associados a problemas de fluxo sanguíneo, afirma Ann Marshak-Rothstein, imunologista e especialista em lúpus na Universidade de Massachusetts em Worcester.

"É muito possível que algumas questões de coagulação vistas em pacientes de Covid-19 sejam conduzidas por esse tipo de complexos imunes", diz.

Se os autoanticorpos forem duradouros, disse ela, poderão resultar em problemas persistentes, e até vitalícios, para os sobreviventes da Covid.

"Você nunca cura realmente o lúpus. Os doentes têm crises, melhoram e têm novas crises. E isso pode ter algo a ver com a memória dos autoanticorpos."

Marshak-Rothstein e Iwasaki e dezenas de outras equipes estão estudando a reação imune ao coronavírus. Dada a facilidade dos testes para autoanticorpos, em breve poderá ficar claro se os anticorpos só foram identificados porque os pesquisadores foram procurá-los ou se eles representam uma alteração mais permanente do sistema imune.

"Não está claro para mim o que tudo isso significa nesta altura", disse Pepper. "Vai demorar um pouco para compreender se isto é algo que vai levar a uma patologia mais adiante."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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