Descrição de chapéu Coronavírus

Droga Annita não reduz sintomas de Covid-19, mostra estudo do governo

Presidente e ministro Marcos Pontes (Ciência) afirmaram, em evento, que droga salvaria vidas

São Paulo

Segundo estudo financiado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, o uso do antiparasitário nitazoxanida (também conhecido pelo nome comercial Annita) contra a Covid-19 teve resultado similar ao do placebo. Mesmo assim, a pesquisa foi motivo de cerimônia com presença do presidente Jair Bolsonaro e do ministro Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) —no evento, um gráfico genérico dizia que a droga era eficaz e poderia ajudar no combate à pandemia.

"Em resumo, nós temos agora uma ferramenta que o Ministério da Saúde pode utilizar para ajudar a salvar vidas", disse Pontes, no evento no último dia 19. "Dá para ter uma noção do que estamos anunciando aqui hoje, né? Nós estamos anunciando algo que vai começar a mudar a história da pandemia."

O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado dos ministros Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia) e Braga Netto (Casa Civil), durante cerimônia de anúncio do estudo clínico de nitazoxanida contra a Covid-19 - Pedro Ladeira/Folhapress

Os resultados do estudo, disponibilizado em pré-print (ou seja, ainda não publicado e revisado por outros pesquisadores), são significativamente mais modestos do que os citados por Pontes.

Segundo médicos e pesquisadores ouvidos pela Folha, a conclusão da pesquisa não muda o cenário atual e não deve significar uma guinada no combate ao novo coronavírus.

Os próprios autores da pesquisa foram mais cuidadosos que o ministro ao apresentar o resultado observado. "Em pacientes com Covid-19 moderada, não houve diferença na resolução dos sintomas, após cinco dias, entre os grupos que usaram nitazoxanida e os que tomaram placebo", escreveram.

Mas, também segundo a pesquisa, a droga é segura para pacientes com Covid-19 e leva à redução da carga viral, o que era considerando um resultado secundário, de acordo com o desenho da pesquisa.

Essa diminuição foi um dos únicos detalhes destacados na cerimônia da qual participaram Pontes e Bolsonaro. O problema é que a redução da carga viral não significa muita coisa sozinha. Como o próprio estudo concluiu, isso não se traduziu em abreviação dos sintomas da doença.

A pesquisa, financiada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia via CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), foi feita com 475 pacientes adultos com Covid-19 e tinha como objetivo verificar se a nitazoxanida ajudava na diminuição de tosse, febre e fadiga. Não ajuda, diz a pesquisa.

Apesar de randomizado, multicêntrico e duplo-cego (ou seja, que divide os pacientes em grupos aleatórios, que não sabem se estão tomando o remédio ou placebo, todas características que aumentam a sua qualidade metodológica), o estudo apresenta uma série de limitações, reconhecidas pelos próprios autores.

Para começar, não foi feita uma análise mais ampla dos efeitos da droga, mas apenas de três sintomas da Covid-19. Os pacientes foram acompanhados por apenas cinco dias.

Além disso, somente os participantes que continuaram com sintomas (49 dos que tomavam nitazoxanida e 46 do grupo controle) foram acompanhados por mais tempo. Por último, não é possível saber se a medicação foi adequadamente tomada, seguindo as orientações passadas pelos autores da pesquisa.

"O resultado principal é que não teve diferença entre os dois grupos no desfecho primário", diz Natália Pasternak, doutora em microbiologia pela USP e presidente do Instituto Questão de Ciência, que aponta outros problemas metodológicos na pesquisa, como exclusões de participantes do estudo depois da randomização, o que poderia enviesar os resultados. Os autores da pesquisa excluíram pacientes que, por exemplo, apresentaram efeitos adversos e foram hospitalizados.

A pesquisadora critica a forma como foi feito o acompanhamento só de pacientes com sintomas após cinco dias. Segundo ela, isso pode enviesar o resultado. "O único desfecho positivo que eles tiveram foi carga viral, que não tem relevância clínica e epidemiológica", diz a pesquisadora.

"Nos casos mais leves, acho que todos nós gostaríamos de resultados mais expressivos e impactantes em termos de evolução, de evitar hospitalização. O que não aconteceu", diz Raquel Stucchi, pesquisadora da Unicamp e consultora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

A pesquisa, porém, chega a levantar algumas questões para pesquisas futuras, como a possibilidade de que a diminuição da carga viral vista a partir do sétimo dia talvez (destaque para o "talvez") possa reduzir o risco de transmissão de pessoas que moram junto na mesma casa, afirma Stucchi. Mas nada que mude as abordagens de prevenção, como distanciamento social e uso de máscara.

Outro ponto que poderia ser interessante de ser analisado é o efeito da medicação nos sintomas pós-Covid, o que necessitaria um acompanhamento mais longo, diz a pesquisadora da Unicamp.

Stucchi diz que as pessoas não devem tomar a droga imaginando que vão evitar a doença ou a piora dela, fato que pode inclusive levar a atrasos para procurar um médico.

"Os resultados do estudo não modificam a prática clínica", afirma Luciano Azevedo, professor de terapia intensiva da USP e pesquisador do Hospital Sírio-Libanês. "O impacto clínico de você identificar carga viral é discutível, é muito limitado se você não tem um efeito positivo em um desfecho clínico mais significativo, como tempo da piora clínica, ventilação mecânica, mortalidade."

O pesquisador afirma ainda que, pela carga viral se tratar de um dado laboratorial obtido através do exame PCR, há chances de falha e potencial para viéses derivados do modo de coleta, armazenamento e transporte para análise.

A menor carga viral impactar na possibilidade de redução da transmissão também fica no campo da especulação, considerando que isso não foi comprovado, afirma Azevedo.

Mesmo com o que foi apontado, Azevedo diz que o esforço científico dos autores do estudo merece elogios, considerando que se trata de uma pesquisa prospectiva, randomizado, cegada, com algumas centenas de pessoas em meio a uma pandemia. "É uma conquista considerável", afirma.

Segundo o pesquisador, pesquisas futuras sobre a droga poderiam olhar exatamente para desfechos clínicos significativos, como hospitalizações.

O anúncio feito por Bolsonaro e Pontes, além de inflar os resultados da pesquisa, tinha pelo menos outro erro. "Conversei com ele [Pontes] também e ele me disse que, dessas pessoas que usaram esse medicamento [nitazoxanida], nenhuma pessoa foi sequer hospitalizada", disse Bolsonaro.

A afirmação não é verdadeira. Segundo os dados do estudo, cinco pacientes que tomavam nitazoxanida foram hospitalizados pela piora clínica e dois foram internados em UTI.

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