Por que você não deve se preocupar com estudos que indicam que anticorpos contra Covid diminuem

Declínio de anticorpos após infecção é normal, e células do sistema imune carregam memória do vírus

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The New York Times

A parcela de pessoas no Reino Unido com anticorpos detectáveis para o coronavírus caiu em cerca de 27% ao longo de três meses no verão deste ano no hemisfério norte, divulgaram pesquisadores na segunda-feira (26), levando a receios de que a imunidade ao vírus tenha duração curta.

Mas vários especialistas disseram que os temores são exagerados. É normal que o nível de anticorpos caia depois de o organismo de uma pessoa superar uma infecção, mas as células do sistema imune carregam uma memória do vírus e são capazes de produzir novos anticorpos quando for preciso.

“Algumas das manchetes que lemos são tolas”, diz o imunologista Scott Hensley, da Universidade da Pensilvânia.

Segundo ele, o declínio nos níveis de anticorpos depois de ser superada uma infecção agura “é sinal de uma resposta imunológica saudável e normal. Não significa que as pessoas não tenham mais anticorpos. Não significa que elas tenham deixado de estar protegidas.”

A pesquisa também suscitou alguns temores quanto à capacidade de vacinas ajudarem populações a alcançar a imunidade de rebanho, o ponto em que um número suficiente de pessoas estará imune ao coronavírus para conseguir barrar sua propagação.

Ainda é cedo para sabermos quanto tempo dura a imunidade ao novo coronavírus e se as pessoas podem ser reinfectadas mesesdepois de adoecerem pela primeira vez com o vírus. Mesmo assim, especialistas disseram que os receios em relação a vacinas tampouco se justificam.

“A vacina não precisa emular ou espelhar a infecção natural”, explica Shane Crotty, especialista em vírus no Instituto La Jolla de Imunologia. “Eu com certeza não acho que devemos ser alarmistas em relação a esses dados.”

Os novos resultados indicam a prevalência de anticorpos ao coronavírus na população mais ampla, mas não em indivíduos específicos. Vários estudos que examinaram os níveis de anticorpos em indivíduos mostraram que, depois de algum declínio inicial, os níveis se conservam estáveis de ao menos quatro a sete meses.

O estudo britânico é baseado em três rodadas de exames de sangue para checar anticorpos feitos com 350 mil pessoas selecionadas aleatoriamente entre 20 de junho e 28 de setembro. Os participantes fizeram testes em casa para verificar a presença de anticorpos, usando exames de picada no dedo que dão resultado positivo ou negativo.

Ao longo do período de três meses, a parcela de pessoas com anticorpos detectáveis no sangue caiu de 6% para 4,8%, segundo os pesquisadores. O declínio menor se deu entre pessoas na faixa dos 18 aos 24 anos, e o maior, entre pessoas com mais de 75.

Analisando os dados de outra maneira, 73% das pessoas que tinham anticorpos no início ainda estavam produzindo um resultado positivo meses mais tarde, diz Antonio Bertoletti, virologista da Escola Médica Duke NUS, em Singapura. “Não é um declínio muito acentuado.”

Os anticorpos representam apenas uma parte da resposta imunológica, se bem que seja uma das partes mais fáceis de medir. Existem pelo menos três outros ramos do sistema imune capazes de afastar doenças.

“Os anticorpos não representam a totalidade da resposta imunológica”, explica Paul Elliott, pesquisador em saúde pública no Imperial College London e diretor do projeto.

Quando o corpo se depara com um patógeno, rapidamente produz anticorpos que reconhecem o invasor. Uma vez resolvida a infecção aguda, os níveis de anticorpos caem, algo que precisam fazer por razões puramente práticas.

“O espaço em nosso sistema linfático, onde se situam as células imunes, é limitado”, afirma Hensley.
Dependendo do teste empregado, a pequena quantidade de anticorpos ainda circulando no sangue pode não ser suficiente para ser detectada positivamente. O teste utilizado no estudo possui sensibilidade de 84,4%, bem abaixo dos testes de laboratório, cuja sensibilidade gira em torno de 99%. Isso significa que o teste usado no estudo pode não detectar qualquer pessoa que possua níveis baixos de anticorpos.

Por exemplo, pessoas com sintomas leves ou assintomáticas podem ter produzido menos anticorpos do que as que adoeceram gravemente. A maioria das pessoas com resultados positivos esteve doente em março ou abril, no pico da epidemia no Reino Unido, mas 30% não se recordam de ter apresentado sintomas de Covid-19. Mesmo um declínio pequeno no número de anticorpos pode fazer os níveis de anticorpos nessas pessoas cair para abaixo do limite de detecção.

“Estamos dizendo que a resposta de anticorpos caiu para abaixo do limiar” de detecção, diz Elliott. “Isso não surpreende ninguém que trabalha nessa área.”

Dados de estudos em macacos sugerem que mesmo níveis baixos de anticorpos podem prevenir casos graves de doença, mesmo que não impeçam uma reinfecção. Mesmo que os níveis de anticorpos circulando no corpo sejam indetectáveis, o corpo conserva a memória do patógeno. Se ele voltar a ter contato com o vírus, as células em forma de balão que vivem na medula óssea são capazes de produzir anticorpos em massa em questão de horas.

Algumas poucas pessoas podem não produzir anticorpos, mas mesmo essas pessoas podem ter células imunes chamadas células T, que podem identificar e destruir o vírus. A maioria das pessoas infectadas com o coronavírus desenvolve respostas celulares duradouras, segundo estudos recentes.

É pouco provável que as células T previnam a infecção pelo vírus, mas, segundo Crotty, elas podem pelo menos impedir que a pessoa adoeça gravemente por amortecerem o ataque do vírus. Em vista de tudo isso, ele opinou, interpretar baixos níveis de anticorpos como sinal de que a imunidade desaparece ou de que vacinas contra o coronavírus não serão eficazes é um equívoco.

Por exemplo, o HV (papilomavírus humano) “suscita uma resposta imune terrível e anticorpos péssimos”, ele disse. “Mas a vacina, com uma única imunização, gera anticorpos fantásticos que garantem 99% de proteção por dez anos ou mais –uma diferença da noite para o dia.” As vacinas podem ser projetadas para provocar respostas muito mais fortes que a infecção natural, ele acrescenta.

Apesar de terem criticado muitas das interpretações feitas do novo estudo, especialistas disseram que seus resultados proporcionam um vislumbre interessante da prevalência de anticorpos ao nível da população.

A mesma equipe de pesquisadores está testando centenas de milhares de pessoas para detectar a presença do vírus. Vistos em conjunto, diz Elliott, os estudos oferecem “uma ferramenta realmente poderosa” para os responsáveis por traçar políticas públicas avaliarem a dimensão da epidemia de um país.

Tradução de Clara Allain

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