Tuíte engana ao sugerir que vacina contra a Covid-19 é desnecessária

Perfil postou que maioria 'já terá contraído a doença' quando a imunização estiver disponível, mas, segundo especialistas, isso não invalida sua importância

São Paulo

É enganoso um tuíte do perfil intitulado Médicos pela Liberdade afirmando que quando a vacina contra a Covid-19 for desenvolvida “a maior parte das pessoas já terá contraído a doença” e, por isso, ela não será mais necessária, conforme verificou o Comprova. Embora ainda não seja possível apontar quando a imunização estará disponível e qual será sua eficácia, dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) indicam que, na maioria dos países, menos de 10% da população foi infectada pelo novo coronavírus até o momento. Isso significa que as pesquisas com a vacina são importantes pois, se tiverem resultado positivo, podem ajudar a imunizar grandes contingentes da população.

No Brasil, a mais recente fase da pesquisa Epicovid-19 BR, da UFPel (Universidade Federal de Pelotas), apontou prevalência de 1,4% de infectados na população, em um retrato de desaceleração da pandemia ao final de agosto. Mesmo em Manaus, onde uma pesquisa coordenada pelo IMTSP (Instituto de Medicina Tropical de São Paulo) e pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) indicou que 66% da população na cidade pode ter sido infectada desde o início da pandemia, a vacina continuará sendo importante, segundo a coordenadora da pesquisa, a imunologista e pesquisadora Ester Sabino. Isso porque a capital amazonense ainda teria 33% da população suscetível ao Sars-CoV-2, e também porque não se sabe quanto tempo dura a imunidade de pessoas que já contraíram a doença.

Pessoa com avental branco e estetoscópio no pescoço segura frasco com etiqueta com escrito "Covid-19 Vaccine"
Se tiverem sua eficácia comprovada, vacinas serão importantes para imunizar a população contra a Covid-19 - Getty Images

Outro trecho da postagem afirma que se a doença não conferir imunidade, a vacina provavelmente também não irá garantir. Flávio Guimarães da Fonseca, virologista do CT Vacinas (Centro de Tecnologia de Vacinas) e pesquisador do Departamento de Microbiologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), explica que a resposta imune induzida pela vacina é diferente da provocada pela infecção, principalmente em relação à eficácia e à longevidade. Ele ressaltou que a ciência ainda busca respostas sobre a atuação do novo coronavírus no sistema imunológico, mas que há uma “chance muito grande” de que o efeito da vacina seja melhor do que a imunização causada pela doença.

A reportagem fez contato com o perfil Médicos pela Liberdade por mensagem no Twitter. O canal respondeu questionando a legitimidade do trabalho de agências de checagem e se recusou a repassar quais seriam as fontes das informações sustentadas na postagem verificada.

Verificação

Nesta terceira fase, o Comprova verifica conteúdos relacionados a políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus. Conteúdos que questionam a necessidade de uma vacina e defendem o controle da Covid-19 apenas por meio de uma imunidade coletiva, adquirida via infecções causadas pelo vírus, podem incentivar um comportamento que descumpra as normas sanitárias como distanciamento social e uso de máscara, até agora as principais medidas para controlar a disseminação da doença, segundo os estudos científicos.

A postagem do Médicos pela Liberdade no Twitter teve 2,1 mil curtidas e 522 retuítes até as 16h do dia 19 de outubro de 2020.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos, que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

O Comprova fez esta verificação baseado em dados oficiais sobre o novo coronavírus disponíveis no dia 20 de outubro de 2020.

A investigação desse conteúdo foi feita por Estadão e NSC e publicada na quarta-feira (21) pelo Projeto Comprova, coalizão que reúne 28 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus e políticas públicas. Foi verificada por Folha, Correio, Piauí, GZH, A Gazeta, Marco Zero, Diário do Nordeste e BandNews.

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