Em áudio que viralizou, médico de Bolsonaro erra ao dizer que vacina contra Covid matou brasileiro

Na mensagem circulando no WhatsApp, Macedo afirma também que doença não mata e pessoas não devem ser cobaias

São Paulo

O cirurgião Antonio Luiz Macedo, médico do presidente Jair Bolsonaro, divulgou uma mensagem de áudio em que fala, erradamente, que a vacina contra Covid-19 matou um voluntário brasileiro e que as pessoas não devem ser cobaias. O áudio está circulando em grupos de WhatsApp.

Na gravação de cinco minutos, em que Macedo se identifica como “cirurgião do aparelho digestivo, e conhecido no Brasil inteiro”, o médico responsável por cirurgias de Bolsonaro e que atua no hospital paulistano Vila Nova Star, da Rede D'Or, pede “respeito aos brasileiros, nós não somos cobaias para sermos testadas com vacinas que não têm aprovação de ninguém”.

O presidente Jair Bolsonaro divulgou em sua conta no Twitter foto ao lado do cirurgião Antonio Luiz Macedo (à direita) e do médico  Luiz Henrique Borsato, em 12 de setembro de 2019.
O presidente Jair Bolsonaro divulgou em sua conta no Twitter foto ao lado do cirurgião Antonio Luiz Macedo (à direita) e do médico Luiz Henrique Borsato, em 12 de setembro de 2019. - divulgação

Ele afirma que os testes precisam ser feitos com “mais seriedade, com menos oba-oba, de modo que não se admita que um médico de 28 anos de idade morra testando uma vacina” e aponta para o perigo do imunizante, lamentando “esse coitado desse médico de 28 anos que morreu tomando vacina.”

“Pare de se testar vacina, vacina não é para se testar, vacina é para se aprovar se os dados da vacina fornecerem segurança para o médico autorizar”, diz Macedo, que confirmou à Folha ser autor do áudio.

A afirmação de Macedo sobre a vacina não procede. O médico brasileiro que participava como voluntário dos estudos da vacina contra o coronavírus em desenvolvimento pela Universidade de Oxford (Reino Unido) morreu por complicações da Covid-19 e não recebeu a imunização em teste.

Ele fazia parte do chamado grupo controle, que recebe outro medicamento, imunização ou substância placebo, sem efeito nenhum, para comparação de eficácia e efeitos colaterais.

No áudio, Macedo também alfineta o governador de São Paulo, João Doria. Doria afirmou que a vacinação contra o novo coronavírus em São Paulo será obrigatória, exceto para pessoas que apresentem alguma restrição avalizada por um médico.

A Coronavac, imunizante contra a Covid-19 criado pela chinesa Sinovac e que será produzida no Brasil em conjunto com o Instituto Butantan, mostrou-se segura em seu teste da chamada fase 3 (a última antes da aprovação) em 50 mil voluntários na China.​​

“Quem autoriza vacinação não são leigos governadores ou prefeitos ou quem quiser da rede pública...quem autoriza a vacinação é o médico do paciente, que é o responsável”, diz Macedo. “Se nós escutarmos o que os nossos governadores de cima, o nosso presidente e toda sua equipe falando, e o presidente da Anvisa falando, nós saberemos o momento certo de usar a vacina e qual vacina a ser usada.”

O diretor-geral do Instituto Butantan, Dimas Covas, chegou a afirmar que a Anvisa estava retardando a autorização para a importação da matéria-prima da farmacêutica Sinovac que possibilitará a fabricação da vacina chinesa no Brasil. O insumo já foi liberado.

Indagado pela Folha se iria recomendar a seus pacientes a vacina Coronavac se ela for aprovada pela Anvisa, Macedo afirmou: “Sim, se for autorizada pela Anvisa, nós temos o direito de usar a vacina. Se não for autorizada pela Anvisa, eu não vou prescrever de jeito nenhum e não vou deixar ninguém tomar.”

O cirurgião afirma também, no áudio, que a Covid-19, “se for bem tratada, não mata ninguém". Até a noite deste sábado (31), 159,9 mil pessoas haviam morrido em decorrência da Covid no Brasil.

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