Equipe turca de marido e mulher está por trás de vacina que lidera a corrida contra a Covid-19

Ugur Sahin e Ozlem Turec fundaram a empresa alemã BioNTech, que desenvolve a vacina com a Pfizer

David Gelles
Nova York | The New York Times

O doutor Ugur Sahin subiu ao pódio em uma conferência em Berlim, dois anos atrás, e traçou uma previsão ousada. Falando para uma plateia cheia de especialistas em doenças infectocontagiosas, disse que sua empresa poderia utilizar sua tecnologia de RNA mensageiro para desenvolver uma vacina em pouco tempo no caso de uma pandemia global.

Na época, Sahin e sua empresa, a BioNTech, eram pouco conhecidos fora do universo restrito das startups europeias de biotecnologia. A BioNTech, que Sahim fundou com sua esposa, a doutora Ozlem Tureci, trabalhava principalmente com tratamentos contra o câncer. Ela ainda não havia levado nenhum produto ao mercado. A Covid-19 ainda não existia. Mas suas palavras mostraram ser proféticas.

Na segunda-feira (9) a BioNTech e a Pfizer anunciaram que uma vacina contra o coronavírus desenvolvida por Sahin e sua equipe teve mais de 90% de eficácia na prevenção da doença entre voluntários que participaram de ensaios e que não tinham evidências de infecção anterior. Os resultados excelentes projetaram a BioNTech e a Pfizer para o primeiro lugar na corrida para encontrar uma cura da doença que já matou mais de 1,2 milhão de pessoas em todo o mundo.

“Isto pode ser o começo do fim da era da Covid”, disse Sahin em entrevista na terça-feira (10).

Montagem com as fotos de Ozlem Tureci e seu marido, Ugur Sahin, fundadores da BioNTech - BioNTech via The New York Times

A BioNTech começou a trabalhar na vacina em janeiro, depois de Sahin ter lido um artigo na revista médica inglesa The Lancet que o convenceu que o coronavírus, que na época estava se propagando rapidamente em partes da China, explodiria para se tornar uma pandemia em grande escala.

Cientistas da empresa, sediada em Mainz, na Alemanha, cancelaram suas férias e começaram a trabalhar no que batizaram de Projeto Velocidade da Luz.

“Não há muitas companhias no planeta com a capacidade e a competência de fazer isso em tão pouco tempo quanto nós podemos fazer”, disse Sahin em entrevista concedida em outubro. “Por isso me pareceu não uma oportunidade, mas um dever fazê-lo, porque percebi que nós poderíamos ser alguns dos primeiros a desenvolver uma vacina.”

Depois de identificar vários candidatos promissores a uma vacina, Sahin concluiu que a empresa precisaria de ajuda para testar todos eles rapidamente, conseguir a aprovação de reguladores e levar o melhor candidato ao mercado. A BioNTech e a Pfizer estavam trabalhando juntas desde 2018 em uma vacina contra a gripe, e em março deste ano decidiram colaborar para uma imunização contra o coronavírus.

Desde então, Sahin, que é turco, desenvolveu uma amizade com Albert Bourla, o grego executivo-chefe da Pfizer. Em entrevistas recentes, os dois disseram que o que os aproximou foram suas origens comuns como cientistas e imigrantes.

“Ele é da Grécia e eu, da Turquia”, falou Sahin, sem mencionar o antagonismo histórico entre seus países de origem. “Foi uma coisa muito pessoal desde o primeiro momento.”

Sahin, 55 anos, nasceu em Iskenderun, Turquia. Quando tinha quatro anos sua família se mudou para Colônia, na Alemanha, onde seus pais foram trabalhar numa fábrica da Ford. Desde criança Sahin queria ser médico, e ele se formou em medicina pela Universidade de Colônia. Em 1993 recebeu um doutorado da universidade por seu trabalho sobre imunoterapia em células tumorosas.

Ainda em início de carreira ele conheceu Ozlem Tureci. Ela pensou inicialmente em se tornar freira, mas acabou estudando medicina. Nascida na Alemanha, filha de um médico turco que emigrou de Istambul, Tureci hoje tem 53 anos e é diretora médica da BioNTech. No dia em que se casaram, Sahim e Tureci voltaram ao laboratório depois da cerimônia.

Em um primeiro momento os dois se dedicaram à pesquisa e ao ensino na Universidade de Zurique, onde Sahin trabalhou no laboratório de Rolf Zinkernagel, que recebeu o Nobel de Medicina em 1996.

Em 2001, Sahin e Tureci fundaram a Ganymed Pharmaceuticals, que desenvolveu medicamentos contra o câncer usando anticorpos monoclonais.

Depois de vários anos, fundaram também a BioNTech, buscando utilizar uma gama maior de tecnologias, incluindo o RNA mensageiro, para tratar o câncer. “Queremos formar uma grande empresa farmacêutica europeia”, disse Sahin em entrevista ao jornal local Wiesbaden Courier.

A BioNTech estava crescendo mesmo antes da pandemia. A empresa levantou centenas de milhões de dólares e agora emprega mais de 1.800 profissionais e tem escritórios em Berlim, outras cidades alemãs e Cambridge, Massachusetts (EUA). Sua parceria com a Pfizer nasceu em 2018. No ano passado a Fundação Bill & Melinda Gates investiu US$ 55 milhões no financiamento do trabalho da BioNTech para tratamentos de HIV e tuberculose. Em 2019, Sahin recebeu o prêmio iraniano Mustafa, dado a cada dois anos a muçulmanos nas áreas de ciência e tecnologia.

Sahin e Tureci venderam a Ganymed por US$ 1,4 bilhão em 2016. No ano passado, a BioNTech vendeu ações ao público. Nos últimos meses seu valor de mercado passou de US$ 21 bilhões, tornando o casal Sahan e Tureci um dos mais ricos da Alemanha.

Os dois bilionários vivem com sua filha adolescente em um apartamento modesto perto de seu escritório. Eles vão ao trabalho de bicicleta. Não possuem um carro.

“Ugur é uma pessoa singular, única”, disse Bourla, o executivo-chefe da Pfizer, entrevistado no mês passado. “Ele só se interessa por ciência. Questões de negócios não lhe interessam, ele realmente não gosta disso. Ele é um cientista e um homem de princípios. Confio 100% nele.”

Na Alemanha, onde a imigração ainda é um tópico contencioso, o sucesso de dois cientistas de origem turca foi festejado.

O site de negócios Focus, de viés conservador, escreveu: “Neste casal a Alemanha tem um exemplo iluminado de integração que deu certo”.

A BioNTech tem estado tão ocupada desenvolvendo a vacina que a empresa ainda não finalizou os detalhes financeiros de seu acordo de parceria com a Pfizer.

“A confiança e o relacionamento pessoal são importantíssimos em um negócio como este, porque tudo está avançando tão rapidamente”, comentou Sahin. “Ainda temos um acordo temporário. Não temos um contrato final relativo a muitas coisas.”

Sahin disse que ele e Tureci foram informados dos dados sobre a eficácia de sua vacina na noite do domingo (8) e que festejaram o momento preparando um chá turco em casa. “Festejamos, é claro”, ele disse. “Foi um alívio.”

Tradução de Clara Allain

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