O plano de combate à Covid-19 divulgado por Joe Biden, presidente eleito dos EUA, acerta ao buscar ações coordenadas em nível nacional e internacional para enfrentar a pandemia e por levar em conta as evidências científicas já disponíveis sobre o novo coronavírus, afirmaram pesquisadores à Folha.
Biden, que colocou a luta contra a doença entre as prioridades de seu mandato, propõe sete passos em sua estratégia anticoronavírus. Entre eles estão o aumento da testagem de pessoas com suspeita de ter a doença e do rastreamento de seus contatos, acabar com a falta de equipamentos de proteção nos EUA e criar um conjunto claro de recomendações nacionais sobre como lidar com a pandemia.
O presidente eleito também propõe implementar a distribuição equitativa de tratamentos e vacinas (essas últimas, de graça), proteger idosos e outros grupos de alto risco, fortalecer as defesas do país contra novas pandemias vindas de outros países e fazer com que todos os americanos usem máscaras quando estiverem fora de casa.
As medidas apontadas por Biden, mesmo que relativamente básicas e seguindo o conhecimento acumulado durante a pandemia, são consideradas urgentes porque os EUA são a nação com maior número de mortes causadas por Covid-19 no planeta —241 mil até agora.
“Houve muito ruído e diversionismo na abordagem de Trump no combate a pandemia, com desinformação, confusão e pressão política em agências como a FDA [agência reguladora de alimentos e medicamentos, com papel similar à Anvisa] e o CDC [Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA]", afirma Vitor Mori, pós-doutorando na Universidade de Vermont e membro do Observatório Covid-19.
Uma das preocupações atuais, segundo o pesquisador, é o feriado de Ação de Graças que se aproxima, um dos principais do país e no qual as famílias começam a se reunir. Soma-se a isso a chegada do inverno no Hemisfério Norte e a tendência de que as pessoas permaneçam mais tempo em espaços com pouca ventilação.
Um dos pontos que chama a atenção no plano é o uso de máscaras, objeto de politização durante a pandemia pelo presidente americano Donald Trump. "Sua recusa em usá-la em público foi muito prejudicial e causou um ruído enorme na comunicação com a população. Hoje, combater os movimentos antimáscara é ainda mais difícil já que eles se sentiram empoderados pelo presidente e esse vai ser um grande desafio da gestão de Biden", afirma Mori.
“Ele poderá movimentar a economia do país —por exemplo, no ‘rust belt’ [estados americanos que passaram por declínio industrial]—, com fábricas de equipamentos de proteção, máscaras e mesmo de kits de testagem”, diz o epidemiologista Paulo Andrade Lotufo, da Faculdade de Medicina da USP.
Lotufo também vê com bons olhos a ideia de mobilizar pelo menos 100 mil pessoas, em todo o território americano, para ajudar no rastreamento de casos e de seus contatos. “Ele está criando os agentes comunitários de saúde que nós temos e não utilizamos como deveríamos”, afirma.
“É difícil saber como esses planos serão implementados na prática, mas já é o melhor cenário vindo dos EUA desde que eles começaram o manejo da pandemia”, diz o virologista Rômulo Leão Silva Néris. Doutorando da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ele passou os primeiros meses da crise mundial de saúde pública como pesquisador visitante da Universidade da Califórnia em Davis.
“O ponto mais importante é que as propostas são concentradas em tomar decisões em conjunto com outros representantes governamentais, como governadores estaduais e prefeitos, e em conjunto com diferentes áreas”, afirma o pesquisador. Ele destaca, por exemplo, a combinação entre privilegiar orientações científicas e pensar em formas de financiar a produção de insumos e a manutenção de serviços essenciais.
Boa parte das discussões populares sobre a pandemia nos EUA, a exemplo do que tem ocorrido no Brasil, foi influenciada por críticas à China e à atuação da OMS (Organização Mundial da Saúde), em especial entre os partidários do presidente Trump. O plano de Biden menciona essas questões, mas procura repaginá-las de forma mais construtiva.
O texto diz, por exemplo, que é preciso “reconstruir e expandir as defesas que Trump desmantelou (...) para mitigar ameaças pandêmicas, incluindo as que vêm da China (...) e reconstruir o escritório do CDC [Centros de Controle e Prevenção de Doenças, principal órgão epidemiológico do país] em Pequim, que encolheu dramaticamente no mandato de Trump”. O plano também propõe “restaurar imediatamente a nossa relação com a OMS, a qual – embora não seja perfeita – é essencial para coordenar a resposta global à pandemia”.
“O CDC é poderosíssimo e poderia ter liderado o combate à pandemia no mundo. Dar protagonismo a ele é fundamental, assim como fortalecer a OMS e retomar o relacionamento com a China”, diz Lotufo.
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