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Coronavírus

Uma luz no túnel contra a Covid-19

Resultados do estudo de uma nova vacina podem ser mais uma solução para controlar pandemia

Esper Kallás

Médico infectologista, professor titular da Faculdade de Medicina da USP e colunista da Folha

Um novo marco para obter a vacina contra Covid-19 foi anunciado nesta segunda (16). Depois de tanta dificuldade, a saída da pandemia começa a se delinear no horizonte.

Foram divulgados os resultados preliminares de um estudo que avalia a vacina desenvolvida pelo laboratório Moderna e pelo Centro de Estudos em Vacinas, do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, parte dos Institutos Nacionais de Saúde nos Estados Unidos.

Neste estudo, a proteção contra a Covid-19 atingiu a impressionante proporção de 94,5%. Até agora, com o acompanhamento dos cerca de 30 mil voluntários em cem centros de pesquisa clínica, ocorreram apenas cinco casos de infecção entre aqueles que receberam duas doses da vacina, contra 90 indivíduos infectados que receberam placebo. Mais do que isso, os 11 casos de forma grave de Covid-19 só ocorreram entre os participantes que receberam placebo; nenhum entre aqueles que receberam a vacina.

Ao lado da proteção de 90% anunciada pelo estudo de fase 3 da vacina da Pfizer, feita em parceria com a empresa alemã BioNTech, está comprovado o sucesso da inédita estratégia destas vacinas, as quais utilizam um material genético que codifica o vírus e, assim, protegem contra a Covid-19.

Não há como dizer que uma das duas vacinas é superior à outra, pois suas diferenças são muito pequenas. Até agora, pode-se afirmar que são equivalentes. Confirmados os resultados, já temos duas boas armas para prevenir a Covid-19.

A estratégia

Pessoas que tiveram Covid-19 desenvolvem anticorpos que neutralizam o vírus grudando em sua "espícula", uma parte importante da superfície viral e fundamental para sua multiplicação.

Para mimetizar esta ação, ambas as vacinas fazem uso de ácido ribonucléico mensageiro — quem se lembra das aulas do colegial, identificaria neste nome a sigla "RNAm", responsável por carregar a informação do código genético para ser traduzida e, assim, induzir à formação de proteínas pelas células.

A nova tecnologia empregada nas duas vacinas coloca o RNAm dentro de partículas microscópicas de gordura. Por sua vez, este RNAm codifica a formação da própria espícula, estimulando, assim, o sistema imune a se preparar para identificar tais espículas no novo coronavírus, combatendo-o sempre que a pessoa vacinada for infectada.

O que ainda não se sabe

Embora os resultados até agora sejam animadores, faltam mais informações. Não sabemos ainda se a proteção apresentada nestes estudos se mantém em pessoas com mais idade e com outros problemas de saúde — por exemplo, diabetes, insuficiência cardíaca ou obesidade, condições que são mais comuns em formas graves de Covid-19.

Também não sabemos se a proteção decairá com o tempo. Afinal, não tivemos tempo suficiente para observar os vacinados atuais. Esta informação só virá com o acompanhamento a longo prazo dos participantes do estudo, bem como com a farmacovigilância destes produtos, isto é, as informações sobre as pessoas vacinadas coletadas em programas de acesso.

Os desafios

Os dados até agora são preliminares. Precisamos ainda de algumas semanas para consolidar todos os resultados e para que todas as agências regulatórias façam sua checagem. São salvaguardas fundamentais para assegurar que tudo foi feito com o devido rigor científico e segurança para os participantes.

Não há doses suficientes sequer para vacinar toda a população americana, considerando que as duas companhias farmacêuticas estão sediadas nos Estados Unidos. A Moderna anunciou que terá 20 milhões de doses disponíveis em dezembro, enquanto a Pfizer prevê 50 milhões de doses em prazo semelhante. Considerando a população de todo o planeta, os desafios são ainda maiores.

Além disso, há um grande obstáculo prático para o uso destas duas vacinas, que está na chamada "cadeia de frio": ambas as vacinas precisam ser mantidas em baixíssima temperatura, de -70ºC, até o exato momento de sua aplicação. Trata-se, portanto, de uma logística extremamente complexa, a qual depende de locais com equipamentos suficientes para mantê-las congeladas abaixo desta temperatura. No Brasil, as redes de vacinação pública e privada não contam com tal infraestrutura.

Tudo isso tem um custo. A vacina Moderna/NIH tem custo projetado em US$ 50 a US$ 60 pelas duas doses necessárias, enquanto o preço da vacina da Pfizer/BioNTech é estimado em US$ 39, também por duas doses. São vacinas caras, comparadas àquelas utilizadas contra outras doenças pelo Programa Nacional de Imunizações, coordenado pelo Ministério da Saúde brasileiro. Soma-se a isso o custo da campanha de vacinação e, ainda, da instalação de toda a "cadeia de frio".

E as outras vacinas?

Há várias vacinas em estágio final de desenvolvimento. Duas delas são especialmente importantes para o Brasil, pois já possuem acordo de venda e transferência de tecnologia de produção: a Coronavac, desenvolvida pela Sinovac e com acordo com o Instituto Butantan, e a ChAdOx-1 ou AZD1222, desenvolvida pela Universidade de Oxford e AstraZeneca, com acordo com Fiocruz/Biomanguinhos.

Os resultados dos estudos de fase 3 destes dois produtos são esperados para breve. A esperança é de que tenham desempenho semelhante às duas vacinas de RNAm. Se confirmadas tais expectativas, o Brasil teria independência na vacinação contra o novo coronavírus, oferecendo acesso e enfrentando a pandemia de Covid-19 com investimentos locais.

Portanto, é uma questão de estratégia nacional, que requer entendimento, cooperação e investimento racional. A torcida é para que isso ocorra.

A vitória do investimento científico

Nunca antes vimos o desenvolvimento de uma nova vacina contra um agente totalmente desconhecido 11 meses atrás. Isso quer dizer que o modelo aplicado nesta pandemia funcionou, e pode servir de base para enfrentar novas desafios no futuro.

Ficou claro que o caminho mais curto para enfrentar crises é através de investimento em ciência, inovação e desenvolvimento. Os Estados Unidos, mesmo em meio a uma contenciosa eleição e grande polarização política, foi capaz de desenvolver a vacina, com resultado que veio a galope!

Não há dúvidas de que o país que investe em ciência estará melhor posicionado no futuro. Esta é a nova arma de preservação das nações e dos povos.

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