Descrição de chapéu Coronavírus

Fiocruz desenvolve vacina própria contra a Covid-19

Estudo em animais apresenta resultados positivos; testes em humanos devem começar só no ano que vem

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Danilo Thomaz
República.org

Ao mesmo tempoque se prepara para produzir a vacina contra a Covid-19 criada pela Universidade de Oxford e pela AstraZeneca, a Fiocruz avança no desenvolvimento de duas vacinas próprias.

A pesquisa foi iniciada em janeiro, quando surgiram as primeiras notícias sobre o novo coronavírus, que então se concentrava na cidade de Wuhan, na China. Desde então, mais de 1,5 milhão de pessoas já morreram em todo mundo.

As duas vacinas são tocadas com financiamento nacional e, de acordo com o cronograma da instituição, têm prazo de conclusão para o final de 2021 ou o primeiro semestre de 2022. Na verdade, apenas uma delas sobreviverá —a que se sair melhor nos estudos pré-clínicos.

“Desenvolvemos ambas em paralelo, pelo menos nos estágios iniciais, para podermos ter maior garantia que conseguiremos levar um produto até o final”, afirma o vice-diretor de Desenvolvimento Tecnológico de Bio-Manguinhos (Fiocruz), Sotiris Missailidis.

As duas vacinas —chamadas pelos pesquisadores de “sintética” e de “subunidade”— estão na fase de desenvolvimento pré-clínico (estudos em animais), dividida em duas etapas: avaliação de segurança/imunogenicidade e proteção.

“A primeira etapa era pra ver se essas vacinas geravam anticorpos e uma resposta imunocelular e também se eram seguras. Essa etapa foi concluída com resultados positivos. Não tinha problemas de toxicidade, são imunogênicas.”

A segunda fase deve começar em breve. Nela, "você vacina o animal e o desafia com o vírus vivo de Sars-CoV-2 para ver se a vacina o protege." Se tudo der certo, começam os testes em humanos.

A vacina sintética é baseada em peptídeos —pequenas partes de proteínas do vírus— produzidos em laboratório por síntese química e que são reconhecidos pelo sistema imune.

O objetivo é induzir a produção de anticorpos específicos ao Sars-CoV-2 e ativar linfócitos T, que também têm a função de defender o corpo dos vírus.

“O sistema imune age de duas maneiras. Produzindo anticorpos para proteger e neutralizar o vírus, mas também ativando células protetoras (células T) que matam células infectadas do organismo, proibindo a proliferação do vírus. Os peptídeos ativam ambas as formas de proteção”, explica. Não há no mercado global nenhuma vacina que use essa plataforma.

A vacina de subunidade é baseada em proteínas virais, produzidas de forma biotecnológica e utilizadas para estimular o sistema imune. Nessa tecnologia —usada, por exemplo, na vacina da hepatite B—, a proteína ou proteínas do vírus são produzida em outro organismo (bactéria, célula de inseto ou de mamífero) e, purificadas, são injetadas no organismo para ativar o sistema imune.

Para o imunizante em teste, foram usadas a proteína S e a proteína M do Sars-CoV-2 na bactéria Escherichia coli. "A proteína S é mais específica para anticorpos neutralizantes [anticorpo que atua no ponto de interação com a célula e bloqueia essa interação, neutralizando o vírus]. A proteína M gera anticorpos mas também uma resposta celular.”

Segundo a Fiocruz, a produção da vacina da AstraZeneca e Oxford, que passa por uma nova fase de testes de eficácia, não prejudicará o desenvolvimento do imunizante próprio.

De acordo com a médica infectologista Lívia Vanessa Ribeiro Gomes Pansera, membro do Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública Covid-19 do Distrito Federal, a alta demanda global e as dificuldades de logística no país tornam mais importante o desenvolvimento de um imunizante próprio.

“Apesar de essas empresas terem uma capacidade de produção muito grande, não necessariamente a produção dessas vacinas que estão mais avançadas dará conta do mercado global.”

Ela lembra que é comum ter vários imunizantes para uma mesma doença. "Provavelmente vão sobreviver no mercado as vacinas que tenham bons resultados de segurança, mas também que sejam mais viáveis, mais fáceis de se fazer a distribuição, armazenamento e aplicação.”

Os desafios à frente das vacinas desenvolvidas por alguns dos principais laboratórios do mundo são enormes. Os testes realizados até agora indicaram a eficácia desses produtos, mas não sua efetividade. No primeiro caso, trata-se dos resultados de imunização obtidos em condições ideais de uso, ou seja, em ensaio clínico. No segundo, trata-se dos resultados de imunização em condições reais de vacinação.

“Vacina é certamente a nossa maior ferramenta para controlar a pandemia. Mas temos que entender que a vacina não vai ser como aquele botão de desligar ou reiniciar, com que voltaremos aos tempos pré-pandemia", afirma a epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin, organização sem fins lucrativos voltada à democratização das vacinas .

"E vai levar algum tempo para que haja uma distribuição em massa da vacina, com alta aderência da população [à vacinação] para se alcançar uma cobertura vacinal suficiente para proteger a população. As medidas de proteção que já conhecemos, e sabemos que funcionam, vão permanecer conosco por um bom tempo."

Ela explica que o percentual da população a ser vacinada para garantir a imunidade coletiva dependerá da eficácia do imunizante disponível e que é fundamental, para que haja alta aderência, que a população esteja bem informada "quanto à importância da vacina, para que entenda os processos que garantem a segurança e eficácia da vacina".

O Ministério da Saúde divulgou nesta quarta-feira (16) uma nova versão do plano nacional de imunização, lançado em meio a reiteradas falas antivacina do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O documento de 110 páginas eleva de 300 milhões para 350 milhões o total de doses em negociação, mas não marca data exata para início da campanha nem detalha o cronograma de aplicação das doses.

“Quem salva vida não é a vacina, é a vacinação. Se a gente não tiver um plano de vacinação bem estruturado, não adianta nada. A gente só vai conseguir erradicar o vírus quando as pessoas estiverem vacinadas. Um pouco depois. Existe uma espécie de ‘ressaca’ até que o vírus deixe de circular”, afirma Michelle Vieira Fernandez, cientista política, pesquisadora e professora na Universidade de Brasília, especialista em implementação e avaliação de políticas de saúde.

“Esse plano [de vacinação] é para anteontem. A gente não vai ter 210 milhões de vacinas ao mesmo tempo.”


Este texto é parte de uma série que mostra o envolvimento dos servidores públicos no combate à Covid-19. É uma parceria entre a Folha e a República.org, organização social, apartidária e não corporativa, dedicada a contribuir para a melhoria do serviço público no Brasil.

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