Descrição de chapéu Coronavírus

Ultracongeladores de universidades poderão ser usados para vacina de Covid e já atraem prefeitos

Cientistas pedem que governo mapeie quantidade e distribuição dos equipamentos pelo país

São Paulo

​Inexistentes na estrutura do Programa Nacional de Imunização, os ultracongeladores necessários para armazenamento das vacinas da Pfizer e da Moderna contra Covid-19 são figuras comuns em laboratórios de pesquisa de universidades brasileiras.

Nas universidades, cientistas guardam nesses espaços tecidos de animais, material genético, cultura celular e outros elementos que só se mantêm estáveis a baixíssimas temperaturas, como radicais livres produzidos pelo nosso organismo.

A tecnologia, no entanto, não é exclusividade das ciências biológicas e da saúde. Também há ultrafreezers nos laboratórios de criogenia, que costumam ficar nos institutos de física das universidades brasileiras. Os cientistas dessa área se dedicam a estudar, por exemplo, o comportamento de materiais em temperaturas ainda mais baixas: aproximadamente −200°C.

A questão é que não há, hoje, informações compiladas sobre quantos equipamentos supercongelantes há no país, sua distribuição e ocupação. O Ministério da Saúde informou que só tem informações sobre estrutura do SUS. O MEC, até a publicação deste texto, não respondeu a demanda da Folha. Nem as universidades, individualmente, têm essa informação exata.

"Estamos tentando fazer esse levantamento", diz Marcia Barbosa, física e diretora da ABC (Academia Brasileira de Ciências). Ela tem encabeçado um grupo de cientistas que defendem que o MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) organize oficialmente esse mapeamento. "A logística da vacina contra Covid-19 certamente passa pelo apoio das universidades."

Funcionário passa por freezer que guarda vacina da Pfizer na Bélgica - Reuters

Segundo Barbosa, os cursos de física de universidades de estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco possuem instalações com temperaturas abaixo dos -70ºC. "Mas são instalações grandes e fixas. Teríamos de adaptar a tecnologia para torná-la portátil e, a partir desses centro de pesquisa, poderiamos ampliar e distribuir a tecnologia", afirma.

A possibilidade de que a estrutura de pesquisa das universidades seja usada na implementação de uma vacinação em massa a -70°C já foi levantada pelo prefeito Alexandre Kalil (PSD), de Belo Horizonte. Ele bateu na porta da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) em busca de apoio e se reuniu com a reitora da universidade, Sandra Goulart Almeida, na última quarta (9).

Em nota, a universidade afirmou que "está se organizando para disponibilizar o maior número possível desses equipamentos, de modo a apoiar ações emergenciais de vacinação contra o coronavírus." A universidade, no entanto, ainda está levantando internamente a quantidade exata desses equipamentos utilizados hoje no campus. Por enquanto, a expectativa é fornecer três ultrafreezers à Prefeitura de Belo Horizonte.

Hoje, as vacinas do calendário do SUS são dispostas em refrigeradores com temperaturas entre 2°C e 8°C e em freezers científicos, que chegam a -25ºC. A vacina da Pfizer desenvolvida com a alemã BioNTech, no entanto, exige armazenamento inédito a -70°C.

De acordo com o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra Covid-19, entregue ao STF no sábado (12), a estratégia para utilização da vacina da Pfizer ainda está em andamento justamente porque "requer condições de armazenamento e transporte à ultrabaixa temperatura".

Para Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin, a estratégia de usar ultrafreezers das universidades é factível especialmente no início da campanha de vacinação. "Nessa fase, a quantidade de doses ainda é pequena", diz.

Assim como outros equipamentos de pesquisa das universidades, esses congeladores são comprados por cientistas com recursos de agências estaduais e federais de fomento à ciência. Isso é feito após submissão e aprovação de um projeto de pesquisa, um processo que pode levar anos.

Muitos ficam em laboratórios específicos com grupos de pesquisadores. Órgãos de fomento como a Fapesp, que financia a ciência no estado de São Paulo, têm incentivado compras de equipamentos multiusuários, que devem fixar disponíveis ao maior número possível de pesquisadores (inclusive de fora de São Paulo) "mediante critérios rigorosos de seleção".

Há, hoje, um freezer multiusuário de ultra baixa temperatura comprado em 2006 com recursos da Fapesp. Ele fica na Faculdade de Saúde Pública da USP. A Folha também encontrou 24 registros de consertos, com recursos da Fapesp, de ultrafreezers usados em pesquisa nas instituições paulistas. Os reparos foram feitos desde 2004 —os últimos três no ano passado.

No dia em que anunciou o avanço da negociação de 70 milhões de doses com a Pfizer, 7 de dezembro, o governo federal publicou uma portaria prevendo cerca de R$59,5 milhões para aquisição de equipamentos "tradicionais" de vacinação no país, como os refrigeradores de temperaturas entre 2°C e 8°C.

Para se ter uma ideia, se esse valor fosse usado na compra ultrafreezers, que têm valor sugerido pelo Fundo Nacional de Saúde a R$82.380 cada, seria possível adquirir cerca de 720 equipamentos.

Com a aprovação para uso emergencial da vacina da americana Pfizer em parceria com a alemã BioNTech nos EUA, na última sexta-feira, a expectativa de cientistas ouvidos pela Folha é que essa liberação possa intensificar as negociações da imunização no Brasil.

A Pfizer afirmou em comunicado que desenvolveu um plano logístico detalhado e ferramentas para apoiar o transporte, o armazenamento e o monitoramento contínuo da temperatura da vacina que desenvolve no Brasil.

"Entendendo os desafios que alguns programas de vacinação poderiam enfrentar, a Pfizer desenvolveu uma embalagem inovadora em caixas nas quais o armazenamento da vacina a -75ºC pode se dar por 15 dias, em gelo seco", diz o texto. A empresa acrescenta ainda que o imunizante pode ser mantido em refrigeradores comuns (2ºC a 8ºC) por até cinco dias.

"Outros países da América Latina como Chile, Peru, México, Panamá e Costa Rica, que chegam a ter similaridades com o território brasileiro em algumas regiões, já assinaram acordos de compra e terão condições de operacionalizar a vacinação sem restrições, iniciando no começo de 2021 tão logo ocorram as aprovações regulatórias", diz o comunicado.

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