Descrição de chapéu pets

Veterinários já adotam óleo de cânabis para tratar pets

Utilização em animais, nem permitida nem vetada, auxilia em tratamentos variados

Americana (SP)

O gato Loki sempre foi arredio, mas quando começou a ficar mais agressivo, se esconder em locais escuros, se isolar e lamber compulsivamente o rabo, sua tutora ficou preocupada.

O diagnóstico foi de hiperestesia felina, distúrbio que envolve uma reação de hipersensibilidade da pele e que pode levar, em casos extremos, à automutilação. O estresse é um dos fatores desencadeantes.

Com a dificuldade de usar comprimidos devido à agressividade do animal, a terapêutica eleita foi óleo de cânabis associado ao corticoide Predsim (prednisolona) em gotas.

“Em dois dias ele já voltou a comer sozinho”, conta sua tutora, Camila Roque Alves, 30, de São Paulo. “No começo fiquei na dúvida, será o Predsim ou será o óleo? Mas fomos reduzindo até ficar só com o óleo. E hoje ele está melhor do que antes da hiperestesia.”

“Ele dorme na cama com a gente, coisa que nunca tinha feito antes. Vai lá fora tomar o solzinho dele, não fica mais escondido. Conseguimos pegar ele no colo, o que nem antes da hiperestesia ele deixava”, afirma ela, após um mês e meio de tratamento.

Gato malhado come petisco na mão de tutora
O gato Loki, com o petisco onde seus tutores pingam meia gota de óleo de cânabis para tratar hiperestesia felina - Bruno Santos/Folhapress

O cão Braddock, 11 meses, teve a primeira crise de epilepsia aos 60 dias. O tratamento começou com fenobarbital pediátrico, mas, aos seis meses, o medicamento se somava a doses maciças de clonazepam, brometo de potássio e diazepam retal. Ainda assim, as crises não passavam.

Sua tutora, Joyce Armelin, 28, de Limeira (SP), diz que ele vivia dormindo, sem força nas pernas, cheio de machucados de batidas, porque quando andava caía e batia nas coisas. Não passeava nem corria.

Na época em que começou o tratamento com cânabis, Braddock tinha de 10 a 15 convulsões diárias fortes e longas.

“Hoje, depois de só um mês de tratamento e acompanhamento, ele parece outro. Acorda cedo, come bem, brinca, adora ‘dar um rolê’. Ainda tem algumas crises, temos um longo tratamento pela frente. Mas a diferença é visível”, diz.

O cão Braddock, 11 meses, de Limeira (SP), tem epilepsia e faz tratamento com cânabis medicinal - Joyce Armelin/Arquivo pessoal

Apesar do sucesso, o tratamento com cânabis medicinal recebido por Loki, Braddock e centenas de outros animais não é regulamentado no Brasil. Em março, resolução da Anvisa (RDC 327, de 2019), vetou a prescrição de cânabis por veterinários e dentistas ao restringi-la a profissionais “habilitados pelo Conselho Federal de Medicina”.

Quem regula a profissão é o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e quem a fiscaliza é o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV). Já o estatuto dos médicos veterinários permite que eles adotem quaisquer tratamentos que julguem eficazes.

É nesse vácuo legal que os veterinários têm operado ao prescrever cânabis a animais.

“A cânabis tem uma utilização não regulamentada, o que não a permite mas também não a proíbe. É um limbo”, afirma o veterinário Rafael Traldi.

“Na falta de proibição, o veterinário não tem previsão legal para ser penalizado pela prescrição”, diz o professor Erik Amazonas, que criou a primeira disciplina de endocanabiologia em um curso de graduação de veterinária, que ele ministra na UFSC.

Apesar disso, há complicações legais. “Se eu pegar o óleo e der para o tutor, a lei considera que é tráfico”, afirmou ele ao portal Cannabis & Saúde.

Conhecido como “Dr. Pet Cannabis”, Fabio Mercante de San Juan é pioneiro no estudo e na prescrição da cânabis a animais e ministra o único curso no Brasil sobre canabinologia na veterinária.

Em um ano, formou 430 alunos, dos quais cerca de 300 prescrevem ativamente.

“A ideia surgiu porque eu não conseguia mais atender todos os pacientes que chegavam. Pensei: tenho que ensinar mais veterinários porque, em vez de o Brasil ter 500 pacientes animais fazendo terapia com cânabis, vão ser milhares, e assim que mais veterinários começarem a prescrever nós conseguiremos uma regulamentação”, afirmou. “Como em tudo, primeiro vem a demanda; depois, as leis.”

“Estamos em contato com diversas pessoas, políticos, membros do Mapa, dos CRMV de diversos estados, e o que a gente espera é que em 2021 venha uma regulamentação”, afirma. “Os resultados são incontestáveis, e temos tudo documentado. A terapia canábica nos animais veio para ficar.”

Procurado, o ministério afirmou que, ao longo do ano, realizou reuniões com a Anvisa e participou de uma audiência pública na Câmara dos Deputados e de um evento sobre o uso terapêutico da cânabis em animais. “O próximo passo será a construção do ato normativo específico”, diz em nota.

Para o CFMV, o uso da cânabis em humanos passou por etapas "que ainda não estão consolidadas na medicina veterinária".

"Para tanto, o envolvimento dos pesquisadores e da indústria, no sentido de comprovar de forma robusta a segurança e eficácia do tratamento em pets, é fundamental para que se obtenha a autorização dos órgãos competentes, o que é natural para qualquer tipo de substância e com exigências específicas quando possuem princípios psicoativos", afirmou em nota Fernando Zacchi, médico veterinário e assessor técnico do CFMV.

"O CFMV, na sua função de servir como órgão de consulta dos governos em todos os assuntos relativos à profissão de médico-veterinário, está à disposição para auxiliar o Ministério da Saúde/Anvisa e o Mapa na discussão e na normatização. Quanto à fiscalização, atuamos em casos concretos, sendo o CFMV tribunal de ética em grau de recurso (segunda e última instância)", acrescentou.

A planta cânabis possui compostos conhecidos como fitocanabinoides —os mais conhecidos são o CBD e o THC—, além de terpenos, flavonoides e outros. O espectro ou concentração dos diferentes canabinoides determina se o produto é “full spectrum” (espectro total), “broad spectrum” (espectro amplo) ou CBD isolado, e a finalidade ou patologia define qual desses deve ser escolhido.

Além disso, os óleos podem ser mais ou menos diluídos, dependendo da patologia a ser tratada e das características do animal.

Parece ser consenso entre os veterinários que o uso de um extrato que possua vários componentes da planta é mais eficaz que o uso isolado deles.

mão feminina segura conta-gotas
Tutora pinga meia gota de óleo de cânabis para tratar hiperestesia felina me petisco do gato Loki - Bruno Santos/Folhapress

“Um componente favorece a ação do outro, é o que se chama efeito comitiva ou ‘entourage’. O CBD inibe o efeito psicoativo do THC, que por sua vez inibe o efeito hepatotóxico do CBD no longo prazo, enquanto os terpenos e flavonoides potencializam os efeitos benéficos dos dois”, afirma a veterinária Lia Nasi. A comparação é entre um violinista sozinho e um violinista em uma orquestra.

As contraindicações são hipersensibilidade a componentes e miocardiopatia dilatada. “Estou prescrevendo para praticamente todos os pacientes com patologias”, diz Nasi.

Mary Matsumura, 44, de São Paulo, usa o óleo na gata Pudim, que tem uma broncopatia. “A gente tratava com um corticoide, mas um mês depois da dose a tosse voltava. Ela tossia por minutos. Agora não é que tenha eliminado já, mas está bem mais leve.”

Já para o gato Minduim ela combina cânabis, nutracêuticos e alopáticos para tratar gastrite. “Entendo que é tratamento mais de longo prazo.”

“A pessoa tem que saber o que está prescrevendo, e você não pode sair comprando óleo a rodo. É um medicamento como outro. Você tem que saber a procedência do óleo, a porcentagem que vai usar de acordo com a patologia. Administrar da forma errada, ou a concentração errada, pode dar problema”, afirma Nasi.

Traldi concorda. “As associações [de produtores] nos dão segurança porque além de terem um banco de sementes com qualidade e métodos de extração que são replicáveis, têm laudos de perícia técnica que validam isso.”

Ele lembra que há também interações medicamentosas a serem acompanhadas.

“A discussão hoje já não é se a maconha faz efeito. A questão principal é qual é a maconha que estou utilizando, qual tipo de planta e de extração, e onde conseguir isso”, afirma.

“Precisa ser um uso próximo do veterinário para ser positivo. A maconha é muito segura em termos de farmacologia. Mas não é livre de riscos."


TERAPIA CANNÁBICA PARA PETS

Como funciona? A planta de Cannabis sativa L. produz diversos compostos lipídicos conhecidos como fitocannabinoides, como o CBD (cannabinol) e o THC (tetrahidrocannabinol), terpenos e flavonoides, que se encontram principalmente na flor.

Essas substâncias interagem com um um grupo de diversos receptores localizados na membrana celular de diversos tecidos (CB1, CB2) e que são estimulados por cannabinoides endógenos (Anandamida, 2AG), favorecendo a homeostase do organismo.-O chamado de Sistema Endocannabinoide (SEC), foi descoberto pelo médico Raphael Menchoulam, em Israel, nos anos 1990.

Qual a diferença entre THC e CBD São os cannabinoides mais conhecidos dentre os mais de 130 já identificados.

  • THC: efeito psicotrópico, analgésico, antiemético, anticonvulsivante, neuroprotetor e anticancerígeno
  • CBD: ação oxidante, neuroprotetora, antiinflamatória, ansiolítica, anticonvulsivante, antidepressiva, antitumoral e anticancerígena

Que doenças trata?

  • Doenças neurológicas

  • Alguns tipos de epilepsia

  • Alguns tipos de câncer

  • Dor crônica e dor aguda

  • Inflamações

Entre outros

Há contraindicações?

  • Miocardiopatia dilatada e hipersensibilidade

Como se prescreve:

-A dosagem depende de cada espécie e/ou raça, segundo a quantidade de receptores do sistema endocannabinoide, idade, peso e comorbidades.

Fatores como variedade, concentração, rastreabilidade e método de extração também influenciam na prescrição.

-Metodologia: abordagem individualizada do paciente, com o mínimo de medicamento possível e mediante o controle de sinais e sintomas para ajustes de dosagem

Fontes: Sociedade Brasileira de Estudos de Cannabis, VetCann, Rede de Cannabis Medicinal Veterinária, Lia Nasi, Rafael Traldi

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