Descrição de chapéu Coronavírus

Falta de máscaras em reunião da Anvisa foi um erro, diz infectologista

Infectologista diz que ausência da proteção em evento foi mau exemplo para a população

São Paulo

Pessoas em encontros em locais fechados devem usar máscara o tempo todo para se protegerem contra o coronavírus Sars-CoV-2, segundo especialistas.

Não foi o que ocorreu na reunião da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de domingo (17), que liberou duas vacinas contra a Covid-19 para uso emergencial. Os diretores da instituição participaram do evento sem a proteção facial, fazendo uso dela apenas por breves instantes, ao se movimentarem pelo auditório.

Durante o evento, transmitido ao vivo pela internet e canais de televisão, o diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, reafirmou a necessidade de uma mudança de comportamento para o combate ao coronavírus Sars-CoV-2, incluindo a adoção do uso de máscaras.

"O inimigo é um só. A nossa melhor chance nessa guerra passa, obrigatoriamente, por uma mudança de comportamento social, sem a qual, mesmo com vacinas, a vitória não será alcançada", afirmou Torres. "Gostaria de lembrar que a imunidade da vacinação leva algum tempo para se estabelecer. Mesmo vacinado, use máscara, mantenha o distanciamento social e higienize as mãos", disse o diretor.

Torres iniciou a sua fala usando a máscara, mas retirou a proteção ao dizer que, por estarem respeitando o distanciamento entre si e não conversarem uns com os outros, os diretores não iriam usar as máscaras.

As recomendações de especialistas falam em um mínimo de 1,5 metro de distanciamento entre as pessoas, associado ao uso de máscara. Uma maior permanência em locais fechados aumenta o risco de transmissão por ter menor circulação de ar.

Nas imagens da reunião não é possível verificar a distância exata entre os diretores na mesa. A Anvisa afirma que adotou todas as medidas recomendas para prevenção da Covid-19. "Durante toda a reunião os diretores guardaram a distância lateral de 1,5 metro entre eles. À frente da bancada não havia pessoas presentes a menos de 3 metros de distância. Para se levantar e se deslocar no auditório, os diretores utilizaram máscaras", diz a instituição em nota enviada à Folha.

"Apesar das justificativas, o não uso de máscaras foi um equívoco e um mau exemplo para todos. Estar em ambiente fechado por mais de 15 minutos aumenta muito o risco de transmissão do coronavírus, e o uso de máscaras é obrigatório", diz a infectologista Raquel Stucchi, pesquisadora da Unicamp e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

A reunião da Anvisa durou mais de cinco horas, o que faz com que os cuidados tenham de ser intensificados, segundo Stucchi. "Em uma reunião prolongada como aquela, com várias pessoas na sala, todos deveriam estar com a máscara e ainda trocá-la durante o evento", afirma a médica.

"Sabemos falar e ser entendidos usando a máscara, não há justificativa para não usá-la, principalmente com a pandemia fora de controle no nosso meio", completa.

De acordo com Stucchi, o uso de ar-condicionado em ambientes fechados pode favorecer a transmissão do coronavírus, potencializando os riscos. A Anvisa afirma em nota que o sistema de ventilação do auditório esteve em funcionamento durante todo o período e as portas do local foram mantidas abertas.

Na metade da reunião, Torres voltou a se defender, dizendo que o auditório era grande o suficiente para permitir o distanciamento entre as pessoas durante o encontro. Além disso, a Anvisa afirma que a entrada era limitada. No vídeo, poucas pessoas podem ser vistas na plateia, todas usando as máscaras.

Os técnicos que fizeram as apresentações sobre as vacinas retiravam a proteção ao falar, de um ponto mais distante dos diretores. "A estrutura montada foi semelhante à de um estúdio de TV, em que os apresentadores retiram as máscaras somente no momento em que estão na bancada", diz a nota da instituição.

As recomendações de uso de máscaras para prevenir a infecção pelo coronavírus foram crescendo ao longo da pandemia, enquanto as evidências científicas deixavam mais claro que a proteção pode ajudar a barrar a disseminação do patógeno.

Hoje, todas as principais autoridades de saúde do mundo como a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o CDC (Centros para o Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos) recomendam o uso da proteção por todos, assim como o Ministério da Saúde.

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