Após Butantan falar em exportar Coronavac, Doria diz que estados e municípios são prioridade

Pressão sobre Pazuello sobe com pedido de secretários e ação no STF por compra de 54 mi de doses

São Paulo

Após o Instituto Butantan ameaçar exportar vacinas, o governador João Doria (PSDB-SP) afirmou nesta quinta-feira (28) que os estados e municípios devem ser priorizados para a compra de 54 milhões de doses da Coronavac.

Observado por Dimas Covas, João Doria segura caixa com dose da vacina Coronavac
Observado por Dimas Covas, João Doria segura caixa com dose da vacina Coronavac - Amanda Perobelli - 19.nov.2020/AFP

Segundo a Folha ouviu de pessoas ligadas à negociação, ao menos 13 estados confirmaram a Doria que querem comprar diretamente a vacina caso o Ministério da Saúde não exerça a opção por essas 54 milhões de doses no contrato em que já adquiriu 46 milhões de unidades.

Nesta quinta, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o Fórum de Governadores e a Comissão Externa da Covid-19 da Câmara dos Deputados enviaram ofícios ao ministro Eduardo Pazuello (Saúde) pedindo a confirmação da compra total de 100 milhões de doses da Coronavac.

Além disso, o partido Rede entrou com um pedido para que o ministro Ricardo Lewandowski, que relata temas da pandemia no Supremo Tribunal Federal, determine que Pazuello confirme a compra, alegando risco à vacinação no país.

Se estados fizerem compras e depois o ministério decidir que quer as doses, teoricamente elas podem ser incorporadas ao Programa Nacional de Imunização e a conta, repassada para a União.

A dúvida que fica é como seria feita a distribuição entre entes federativos, já que nem todos terão condições de comprar vacinas. Isso tem levado à pressão sobre Pazuello.

​Na quarta, o diretor do fabricante nacional do imunizante chinês contra Covid-19, Dimas Covas, havia dito que precisava saber se o Ministério da Saúde iria comprar o lote. "So Brasil declinar desses 54 milhões, vamos priorizar os demais países com quem temos acordo", disse.

O Butantan negocia até 40 milhões de doses para países da América Latina, como a Argentina e o Uruguai. A frase de Covas visava pressionar a Saúde, que diz que pode tomar sua decisão somente em maio, mas saiu pela culatra do ponto de vista político.

"Caso o Ministério da Saúde não confirme a compra das 54 milhões de doses adicionais da vacina do Butantan, determinei ao instituto que forneça estas vacinas prioritariamente aos Estados e Municípios do Brasil. O País tem pressa em salvar vidas. E nós em vacinarmos os brasileiros", escreveu Doria no Twitter.

Segundo aliados de Doria, o tucano ficou preocupado com a reação em redes sociais à frase de Covas. Basicamente, internautas e também políticos se questionaram por que a vacina iria para exterior quando há escassez no Brasil.

Se por um lado isso evidencia a falta de planejamento do governo Jair Bolsonaro, por outro abriria questionamento sobre o Butantan. E a vacina é o maior ativo eleitoral construído por Doria, que pretende enfrentar o presidente na eleição de 2022.

O instituto depois consertou a fala do diretor, afirmando que os 40 milhões para exportação eram complementares aos 54 milhões, mas o estrago estava feito.

Segundo os ofícios de governadores e deputados, o Brasil precisa melhorar seu planejamento justamente para garantir que os insumos para a fabricação dessas doses, que vêm da China até que o Butantan tenha capacidade no segundo semestres de produção própria, cheguem ao país.

Como já se viu no próprio caso paulista, os chineses atrasaram a entrega de insumos —até aqui, o Butantan havia recebido 6 milhões de doses prontas e de insumos para formular a vacina. O próximo carregamento chegará no dia 3, para mais 8,6 milhões de doses que ficam prontas em 15 ou 20 dias.

A situação é ainda mais grave para o Fiocruz, órgão federal que fará envase e depois produção da vacina da AstraZeneca/Universidade de Oxford, que assim como a Coronavac já tem seu uso emergencial autorizado. Os insumos chineses para 50 milhões de dose até abril nem começaram a chegar ao Rio.

Até aqui, os 2 milhões de doses da vacina de Oxford no Brasil foram importados diretamente do sócio indiano na produção do imunizante, numa operação que causou grande embaraço diplomático.

Segundo o Butantan, foi enviado o ofício à Saúde "para que possa planejar logisticamente a sua produção com a devida antecedência. Durante a urgência de uma pandemia, não é possível se limitar à frieza da burocracia enquanto as ações de combate ao coronavírus podem ser mais ágeis".

"O instituto espera que o ministério se manifeste o quanto antes mantendo o seu compromisso de aquisição de 100 milhões de doses. A prioridade do Butantan é e sempre foi atender à demanda brasileira pela vacina contra o novo coronavírus", diz a nota.

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