Descrição de chapéu Coronavírus

Envio de oxigênio por Maduro causa espanto entre venezuelanos que vivem em Manaus

Ditador acertou embarques do insumo para socorrer unidades de saúde da capital do Amazonas

Manaus

Venezuelanos que vivem em Manaus ficaram chocados quando souberam que o seu país, liderado pelo ditador Nicolás Maduro, enviará remessas de gás hospitalar para socorrer a capital do estado do Amazonas.

Ao menos dois caminhões-tanque com o insumo já estão a caminho de Manaus. Novas remessas estão previstas, segundo acordo firmado com o governo do Amazonas.

Manaus vive uma crise sem precedentes em seu sistema de saúde devido à falta de oxigênio hospitalar, um insumo fundamental na manutenção de pacientes internados com ou sem Covid-19 em leitos de UTI.

Claritza Magdalena Suarez, 39, em abrigo para venezuelanos em Manaus
Claritza Magdalena Suarez, 39, em abrigo para venezuelanos em Manaus - Dhiego Maia/Folhapress

Sem o oxigênio disponível, dispararam as hospitalizações e as mortes em unidades públicas e privadas da cidade. Nesta sexta-feira (15), Manaus registrou o maior número de enterros en um único dia desde o início da pandemia, com 213 ocorrências.

Entre as causas das mortes, 102 foram provocadas pela Covid-19, outros 7 ainda são suspeitos de terem ocorrido por complicações da doença, segundo dados da prefeitura.

A Folha conversou com um grupo de venezuelanos que vivem num acampamento da “Operação Acolhida”, montado pela prefeitura em parceria com a ONU (Organização das Nações Unidas) sob um viaduto ao lado do terminal rodoviário da cidade.

Todos ali integram o grupo de 6 milhões de pessoas que deixaram a Venezuela quando o país entrou em colapso. Muitos deles caminharam até a fronteira com o Brasil, na cidade de Pacaraima, em Roraima, em busca de ajuda humanitária.

No acampamento, composto por imensas barracas de lona branca, as famílias venezuelanas conseguem dormir à noite em segurança. Durante o dia, saem pelas ruas para fazer bicos ou pedir dinheiro nos semáforos da capital.

Se antes da pandemia a luta pela inserção social na cidade já era grande, agora, a situação piorou, diz Claritza Magdalena Suarez, 39.

Suarez organizava suas roupas espalhadas sobre um colchão quando a reportagem da Folha visitou o espaço nesta sexta.

Crianças venezuelanas em abrigo público na cidade de Manaus
Crianças venezuelanas em abrigo público na cidade de Manaus - Dhiego Maia/Folhapress

Ali, a maioria dos venezuelanos abrigados é composta por indígenas. Poucos foram vistos usando máscara de proteção no rosto, apesar de o item estar visível entre os seus pertences.

Suarez ainda não sabia da parceria entre o seu país e o Brasil. Informada pela Folha, ficou espantada. “Estou em choque porque o meu país está quebrado e, por isso, eu estou aqui nestas condições."

O marido dela, que não quis se identificar, também esboçou a mesma surpresa. “Não acredito nisso."

Mesmo tendo sido quase que obrigados a deixar a sua terra natal quando não tinham nem o que comer no auge da crise venezuelana, o casal ainda foi capaz de soltar uma pista. “Será que o Nicolás mandou essa ajuda porque sabe que muitos venezuelanos estão aqui?”, disse Suarez.

Com um currículo que inclui serviços prestados no setor petrolífero e funções que vão de camareira a auxiliar administrativa, Suarez sonha com um emprego. “Mas ficou difícil de arrumar algo nesta pandemia”, diz.

Como seus compatriotas, ela também vai até o semáforo para pedir dinheiro. Cada centavo conquistado faz diferença. “Aqui eu ganho comida, banho e roupas. Esse dinheiro é para trazer os meus seis filhos que ficaram na Venezuela”, afirma.

CRÍTICAS

O envio de oxigênio venezuelano para Manaus gerou, porém, uma onda de críticas entre os opositores do regime de Nicolás Maduro.

A principal voz do movimento e que está ao lado de Juan Guaidó, autoproclamado presidente da Venezuela, é a do deputado Julio Borges.

Ele afirmou que há venezuelanos morrendo sem oxigênio, usado agora por Maduro para buscar apoio político e se portar como um líder generoso, não como o ditador e violador de direitos humanos que é, em suas palavras.

À Folha, Borges disse que "a situação sanitária é verdadeiramente trágica. As pessoas fogem para o Brasil, Colômbia, Panamá, porque não há nada, os hospitais estão em caos. Sem eletricidade, sem água, remédios mínimos. Por isso as pessoas fogem para o Amazonas", afirmou.

De acordo com a universidade americana Johns Hopkins, que monitora o avanço da doença pelo mundo, 1.095 pessoas morreram na Venezuela vítimas da Covid-19, e houve 118.856 casos confirmados.

Enviar oxigênio a um país com governo hostil a ele, como o do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), significa tentar reverter a imagem que tem por aqui e no mundo todo, disse Borges.

"Quer se mostrar como o líder dos pobres, dos necessitados, dos infectados com coronavírus, quando na verdade é um ditador, violador de direitos humanos, corrupto, e que conseguiu destroçar a Venezuela, um dos países mais prósperos da América, o transformou no país mais pobre da América pela corrupção e pelo crime organizado."

Abrigo público de venezuelanos em Manaus
Abrigo público de venezuelanos em Manaus - Dhiego Maia/Folhapress

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