Descrição de chapéu Coronavírus

Zema iniciou acordo em MG para 2ª vacina chinesa no Brasil, mas tratativa não avançou

Mineiro firmou documento que marcava o início das negociações com a Sinopharm; companhia seguiu com testes na Argentina e no Peru

São Paulo

Logo após o Instituto Butantan anunciar a parceria com a Sinovac que resultou na Coronavac, em meados do ano passado, o governo de Minas Gerais também iniciou tratativas com outro laboratório chinês para a realização de testes clínicos e comercialização no Brasil de uma vacina contra o novo coronavírus.

A parceria, no entanto, não vingou, e a empresa seguiu com os testes em outros países da América do Sul.

Chamada CNBG (China National Biotec Group Company Limited), a companhia é subsidiária da estatal Sinopharm, o grupo farmacêutico nacional da China.

Desde dezembro, o imunizante da Sinopharm está aprovado pelas autoridades sanitárias chinesas. A eficácia anunciada pelo laboratório é de 79%.

Um documento obtido pela Folha aponta que o próprio governador Romeu Zema (Novo) assinou um "memorando de entendimento" elaborado em 1º de agosto de 2020 com a CNBG/Sinopharm.

Escrito em inglês, português e chinês, o documento apontava interesse das partes, “em vista de suas experiências complementares no campo de pesquisa, desenvolvimento e comercialização de produtos biológicos”.

A pretensão era estabelecer uma "ampla parceria na pesquisa clínica, registro e comercialização" no Brasil da vacina que estava sendo desenvolvida.

O produto seria feito com o vírus inativado, ou seja, incapaz de causar doenças, mas com a possibilidade de causar uma reação do sistema imunológico, que desenvolve formas de combatê-lo. É o mesmo tipo de vacina da Coronavac.

A CNBG, apontava o memorando, tem "atividades principais de fabricação, fornecimento, distribuição, pesquisa científica e desenvolvimento de produtos biológicos, incluindo vacinas, produtos sanguíneos, estética médica, produtos de saúde animal e outros produtos biológicos de prevenção, controle e tratamento de doenças na República Popular da China".

Os principais objetivos da parceria, segundo o documento, eram a cooperação nos testes clínicos da fase três e a comercialização da vacina, mas não se restringiria a isso.

Menos de dois meses antes, em junho, o governador paulista João Doria (PSDB) anunciava que havia fechado parceria com o laboratório chinês Sinovac para a produção de uma vacina com o Butantan.

Além de Zema, assinaram o documento com a Sinopharma representantes do governo de Minas Gerais, como o secretário de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, e o então presidente da Funed (Fundação Ezequiel Dias), Maurício Abreu Santos.

A Funed é o órgão vinculado ao estado que é referência em pesquisas e vacinas —o equivalente ao que é o Instituto Butantan para o estado de São Paulo.

Em novembro, três meses após a assinatura do memorando, o presidente da Funed foi substituído pelo infectologista Dario Brock Ramalho.

Procurado, o governo estadual de Minas Gerais informou por meio da Secretaria de Saúde que “as reuniões entre o governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Saúde, e a empresa Sinopharm não avançaram nas tratativas”.

Na sexta (22), segundo o jornal Estado de Minas, o secretário Carlos Eduardo Amaral sugeriu que o governo mineiro também havia feito tratativas com a americana Covaxx e com o laboratório indiano Serum, que produz o imunizante da Universidade de Oxford/AstraZeneca.

Também disse que descartava a obtenção de doses para os próximos 30 ou 40 dias e que a intenção do governo era que houvesse transferência de tecnologia para a Funed.

Questionado pela Folha sobre a situação dessas conversas, o governo de Minas disse que “não é possível detalhar devido ao acordo de confidencialidade”.

“Vale ressaltar que a SES-MG [Secretaria Estadual de Saúde] está disponível para conversar com todos os fornecedores que apresentem os requisitos técnicos necessários”, afirma a nota do governo.

Além do governo de Minas, representantes da Sinopharm também chegaram a se reunir em julho com o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), por videoconferência, mas não houve novidades nas negociações desde então.

A reportagem apurou que como as tratativas não avançaram nas análises técnicas em Minas Gerais, a Sinopharm decidiu seguir com os testes na Argentina e no Peru.

Nos últimos meses, Zema antagonizou politicamente com João Doria em relação às vacinas e tem adotado posturas próximas à do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Ele também afirma, por exemplo, ser contrário à obrigatoriedade da vacina.

Em 10 de dezembro, Zema criticou a atitude de colegas que estavam engajados em uma “corrida maluca” pela vacina, dizendo que isso podia gerar efeitos colaterais preocupantes.

Doria, à época, havia anunciado o início da vacinação para 25 de janeiro, data anterior à do calendário que o governo federal havia proposto. O comentário de Zema foi interpretado como uma indireta ao paulista.

“Em se tratando de uma imunização como essa, é necessário haver uma ação única, principalmente para evitar tumultos. Se algum município ou estado fizer antes ou depois, nós vamos estar ou privilegiando, ou prejudicando as pessoas. E a Constituição assegura direito à saúde para todos”, afirmou o governador mineiro, sem citar nominalmente Doria.

Mais tarde, Zema baixou o tom e passou a defender atitudes de Doria. Em Minas Gerais, parlamentares têm feito pressão política para que a Funed produza uma vacina, assim como o Instituto Butantan e a Fiocruz.

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