Descrição de chapéu Coronavírus

Entenda como é feita a aplicação de uma vacina contra Covid-19

Vídeos circulam nas redes sociais com relatos de suposto uso incorreto da vacina; não há regra quanto à sensação de dor ou sangramento no local da injeção

São Paulo

Com o início da vacinação contra Covid-19 entre os primeiros grupos prioritários, surgiram relatos de emoção e alívio mas também denúncias de vacinas que não estariam sendo aplicadas corretamente, supostamente para que funcionários guardassem as vacinas para si mesmos diante da escassez de imunizantes no país.

Uma funcionária da prefeitura de Maceió chegou a ser afastada após ser flagrada aplicando a vacina sem apertar o êmbolo —o que, na prática, inviabiliza a aplicação.

Em outro vídeo que circula nas redes sociais, um funcionário é questionado pelo parente de uma idosa por supostamente não ter aplicado o líquido nela. Ele responde que a dosagem estava muito baixa na seringa e por isso não aplicou a vacina e realizou a troca da seringa.

Esses e outros vídeos têm trazido dúvidas sobre como é a correta aplicação da vacina, quantas doses podem ser aplicadas por frasco e até se há alguma recomendação de usar uma dose menor para “guardar para depois” a vacina.

A enfermeira e supervisora do Centro de Referência em Imunobiológicos do Instituto de Infectologia Emilio Ribas, Ana Paula dos Santos, explica que existe uma série de regras de conduta para aplicação de qualquer vacina, e que essas infrações relatadas, caso sejam verdadeiras, são gravíssimas e podem levar à perda do registro do profissional.

Como não há uma regra geral sobre o que a pessoa deve sentir após receber a vacina e como o procedimento todo é muito rápido, Santos recomenda que, caso alguma conduta ou infração ética seja verificada, a ouvidoria daquela instituição deve ser comunicada e a pessoa deve fazer uma denúncia ao Conselho Regional de Enfermagem (Corem).

Segundo documento do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde, publicado no último dia 18 de janeiro, as vacinas contra a Covid-19 são aplicadas via intramuscular.

A pasta recomenda o uso de agulhas com as especificações 20 por 5,5 dec/mm, 25 por 7 dec/mm ou 30 por 7 dec/mm, sendo que a primeira medida refere-se ao calibre da agulha (medido pela unidade inglesa “gauge”, equivalente a entre 0,55 mm e 0,8 mm de espessura), e a segunda é o comprimento. Já as seringas podem ser de três tamanhos, de acordo com seu volume: 1 ml, 3 ml ou 5 ml.

A Coronavac é apresentada em ampolas contendo uma única dose (0,5 mL) ou multidoses (com cerca de 6,2 mL). Já a Covishield, da Oxford/AstraZeneca, vem em frascos multidoses contendo 5 mL (dez doses).

Como cada dose das vacinas possui 0,5 ml, Santos explica que no caso das ampolas multidoses, é feita a retirada de uma dose do frasco por vez. “Os frascos já possuem em seu volume o chamado ‘espaço morto’, que é a porcentagem do líquido perdida com a retirada das ampolas. No caso do frasco unidose, essa quantidade não chega nem a 0,1 ml.”

Como os frascos multidoses contêm várias doses, é necessária a higienização do frasco antes de cada aplicação. Já nas ampolas unidose, é retirado o volume total para uma única aplicação.

Para retirar o líquido do frasco, uma agulha é inserida através do lacre de borracha da ampola e o êmbolo da seringa é puxado. O corpo oco da seringa vai ser preenchido com o líquido, e o pistão, uma espécie de anel de borracha dentro da seringa ligado ao êmbolo, vai deslizar pelo tubo até chegar à quantidade desejada —as seringas possuem uma gradação indicando o volume de zero a 1 ml, 3 ml ou 5 ml.

Para evitar a entrada de ar no corpo, antes de dar a injeção o êmbolo é empurrado para eliminar esse ar residual. “A perda com esse procedimento é muito pequena, quase não tem perda de conteúdo [da vacina]”, diz Santos.

No momento da injeção, primeiro é utilizado um algodão seco para limpar a área e, com a outra mão, é feita a inspeção da área muscular –a vacina é feita preferencialmente no músculo deltoide, que tem formato de triângulo invertido. Após a injeção, é preciso empurrar o êmbolo até o final para aplicar todo o líquido.

Em geral, algumas pessoas podem ter uma sensação gelada nessa hora, uma vez que o imunizante estava sob refrigeração de 2˚ a 8˚C antes de ser aplicado. Mas, se a pessoa não sentir o frio, não significa que não foi injetado o líquido.

“Tem pessoas que sentem mais, algumas relatam ardor, outras dizem não sentir nada. Isso varia de pessoa para pessoa, é assim com todas as vacinas”, diz.

Uma outra prática já não muito utilizada pode ser feita, que é puxar levemente o êmbolo para ver se não há mistura do líquido a ser injetado com sangue. A enfermeira explica que essa técnica era usada para garantir que a agulha tenha entrado de fato no músculo e não em algum vaso da região, No entanto, como os vasos ali são muito finos, essa ação deixou de ser padrão.

Ao final, o profissional pressiona a área da picada com algodão e pode aplicar um curativo caso haja sangramento. Contudo, não existe regra para comprovar que foi feita a injeção, como ter uma determinada sensação de dor ou sangrar.

O melhor a fazer é verificar com o profissional se a seringa ou frasco utilizados estão vazios. “Se a pessoa quiser ter certeza que foi injetada a vacina, ela pode pedir para olhar a seringa no final. Isso pode causar alguma estranheza, mas ela tem resguardado o direito de confirmar que a vacinação foi feita”, afirma.

Relatos de não aplicação do líquido na injeção ainda são escassos e não representam o que é preconizado por enfermeiros, que é “a vida cuidando da vida”.

“A enfermagem tem como principal objetivo garantir que aquela pessoa, além de se recuperar [no caso de um tratamento], não tenha nenhum dano associado a algum procedimento. Alguns dos casos podem até soar como maldade, mas imagino também que tenha muita manipulação de imagem. Tenho muita paixão pela minha profissão, como muitos colegas. A gente estranha quando vê alguma imagem como essa pois não representa nossos valores”, diz.

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