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Coronavírus

Variantes do coronavírus não são o fim das vacinas

Se a queda da eficácia da vacina da AstraZeneca se confirmar, devemos ter atualização da fórmula para cobrir novas variantes e calibragem de expectativa

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Atila Iamarino

Doutor em ciências pela USP, fez pesquisa na Universidade de Yale. É divulgador científico no YouTube em seu canal pessoal e no Nerdologia

Estudos já haviam mostrado que quem se curou de Covid-19 na África do Sul poderia ser infectado novamente pela nova variante que circula por lá e já aparece em outros países. A variante preocupante é a B.1.351, que tem mutações na superfície do vírus que parecem diminuir a afinidade da resposta imune e também são encontradas na variante P.1, que circula aqui no Brasil.

Se a imunidade natural não é suficiente para proteger contra esse vírus, resta saber o quanto a imunidade produzida por vacinas pode fazer isso. E, nos últimos dias, resultados preocupantes levaram a África do Sul a suspender a vacinação com doses da vacina de Oxford/AstraZeneca. Essa vacina, que foi desenvolvida pensando na acessibilidade de preço e transporte, é a mesma que começamos a aplicar no Brasil por meio da Fiocruz.

O que o teste clínico da AstraZeneca viu na África do Sul foi uma queda na proteção contra doença leve e moderada que deixou a eficácia da vacina bem abaixo dos 50% colocados como meta da OMS. Dos 748 vacinados no teste, 19 tiveram Covid-19, assim como 20 dos 714 não vacinados. Uma diferença pequena demais para se ter confiança estatística na proteção da vacina contra casos leves. Um susto que levou o país a segurar a distribuição da vacina até ter uma noção mais clara da situação, já que o resultado vem de um teste feito com poucas pessoas, todas jovens, e onde nenhum caso de Covid severa foi registrado mesmo entre os não vacinados. Ou seja, o resultado não permite concluir se ainda há proteção dessa vacina contra casos graves.

Voluntário toma vacina de Oxford na África do Sul em junho de 2020 - AFP

As vacinas da Johnson & Johnson e da Novavax também se mostraram menos eficazes na África do Sul, e ainda precisam descobrir o quanto dessa diferença se deve à variante. Em comum, todas essas vacinas apresentam a proteína S do coronavírus para o nosso sistema imune —diretamente, no caso da Novavax, ou levada por um outro vírus (o adenovírus) no caso da J&J e da AstraZeneca. São vacinas que focam a resposta imune na parte mais exposta do vírus, que por ser a parte que mais interage com nosso sistema imune naturalmente também é a que ele mais mudou.

A suspensão da distribuição da vacina da AstraZeneca é temporária, até que os sul-africanos tenham mais tempo para acompanhar hospitalizações e casos graves entre os mais de 100 mil que já foram vacinados. Eles ainda cogitam combinar doses de mais de um tipo de vacina para ver como fica a proteção. A vacina da Sinopharm, que apresenta o vírus todo inativado (destruído), o mesmo princípio da Coronavac distribuída por aqui, ainda despertou anticorpos que atacam o vírus, assim como os anticorpos produzidos pela vacina de RNA da Pfizer, embora ambos resultados ainda não sejam de eficácia em pessoas.

Conforme descobrimos a efetividade das vacinas, como a sua eficácia se comporta no mundo real, é natural esperar algumas surpresas. Se a queda se confirmar, a AstraZeneca vai ter que adiantar a atualização da sua fórmula para cobrir novas variantes. Pode ser o caso de precisarmos calibrar a expectativa também. E esperar mais proteção contra casos graves do que vacinas capazes de impedir o vírus de circular.

Vacinas são um braço da campanha de combate e o único tratamento que temos para prevenir a Covid. Mas essa é uma corrida contra o vírus onde ganhamos mais tempo se controlarmos a circulação do vírus, justamente para impedir novos mutantes. Precisamos conter a sua circulação em todos os lugares, independentemente de vacinas. E precisamos ser mais rápidos na vacinação.

O Brasil tem décadas de experiência com campanhas massivas de vacinação, com direito a mascote, infraestrutura para distribuir milhões de doses por dia e toda capacidade de se mobilizar para controlar os casos. Precisamos disso para ontem.

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