Descrição de chapéu Coronavírus

Cobrado, Ernesto Araújo anuncia insumo para produção de 32 milhões de doses de vacina de Oxford

Araújo criticou a imprensa e negou que o governo brasileiro tenha minimizado o impacto da pandemia no país

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Brasília

Criticado por empresários e cobrado por congressistas por omissão na negociação de vacinas, o chanceler Ernesto Araújo usou uma participação na comissão de relações exteriores da Câmara dos Deputados para anunciar a chegada de carregamento de insumo suficiente para produzir 32 milhões de doses do imunizante de Oxford/AstraZeneca pela Fiocruz.

O ministro das Relações Exteriores foi convidado nesta quarta-feira (24) para falar sobre as prioridades do Itamaraty para este ano.

Segundo Araújo, até sexta-feira serão realizados três voos para trazer ao país o IFA, insumo importado necessário para produzir o imunizante da Astrazeneca no Brasil.

“Nesses três voos serão recebidos 1.024 litros do IFA, que são suficientes para produção de cerca de 32 milhões de doses da vacina AstraZeneca pela Fiocruz”, afirmou.

O chanceler brasileiro defendeu o fluxo de vacinação do país. “Entrando na seara do Itamaraty, em nenhum momento há hoje um risco de paralisação da produção de vacinas ou do recebimento de vacinas e, portanto, de paralisação do processo de vacinação em função de dificuldades de importação, pelo contrário”, afirmou.

O cronograma explicitado por Araújo prevê que, a partir do segundo semestre, começará a produção integral de vacinas da AstraZeneca no Brasil pela Fiocruz, tornando o país autossuficiente para fabricar o imunizante.

“Tudo está em dia, o que temos por receber de insumos da China, por exemplo, está em dia”, disse. “É importante mencionar que a produção da Fiocruz não parou em nenhum momento por falta de insumos. A Fiocruz ainda não terminou a produção com os insumos que chegaram da China no mês passado.”

No entanto, a Fiocruz informou um dia antes que vai entregar em abril de 11 a 12 milhões de doses de vacina a menos do que estava previsto. A mais recente previsão da Fiocruz e do Ministério da Saúde indicava o recebimento de 30 milhões de doses no próximo mês.

Segundo afirmou a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, no Senado na terça (23), o cálculo que previa a entrega de 1 milhão de doses por dia não foi possível por causa de alguns obstáculos.

“Primeiro, há um processo para isso, esse início sempre requer alguns ajustes. Além disso, essa discrepância que o senhor [o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG)] sinalizou tem a ver com a chegada do IFA [Ingrediente Farmacêutico Ativo]. Além disso, cada lote de vacina fabricado fica 20 dias em teste para avaliar sua estabilidade ou verificar se há alguma possibilidade de contaminação. Então, essa variação está ligada a esses fatores”, justificou.

Segundo Araújo, o Brasil está na melhor posição entre os países que não produzem ou que ainda não são autossuficientes em produção de vacinas. “Quando tivermos essa produção autossuficiente, estaremos melhor ainda.”

O chanceler também minimizou o atraso na entrega de vacinas para o Brasil, argumentando que praticamente o mundo inteiro enfrenta as mesmas dificuldades. Araújo disse muitos países têm vacinas apenas na “planta” e não efetivamente as ampolas para aplicar na população.

“Uma coisa é comprar vacinas na planta, digamos, comprar um prédio na planta, mas outra é ter a ampola disponível para ser injetada. Então muitos países que se noticia que têm milhões e milhões de vacinas sobrando, isso não existe praticamente em lugar nenhum do mundo. Os Estados Unidos estão começando a atingir um pequeno excedente de vacina real”, afirmou.

Após sua pasta ter publicado em redes sociais que está negociando desde o dia 13 deste mês a aquisição de vacinas excedentes dos EUA, Araújo afirmou que será difícil adquirir vacinas dos americanos.

"Os Estados Unidos introduziram uma legislação, estão utilizando uma legislação que é uma legislação de defesa para casos de guerra, digamos assim, para proibir a exportação de vacinas produzidas nos Estados Unidos. As vacinas Pfizer que outros lugares do mundo estão usando não são produzidas nos Estados Unidos, mas na Bélgica e em outros lugares", afirmou o chanceler mais tarde, em participação de sessão no Senado.

"Os Estados Unidos, portanto, não exportam vacina. Mas eles estão começando a construir um excedente de vacinas. A ideia deles é de que, enquanto não estiver toda a população vacinada, eles não exportarão", completou.

Os EUA anunciaram que vão enviar 2,5 milhões de doses da vacina AstraZeneca para o México e outras 1,5 milhão de doses para o Canadá. A vacina ainda não obteve autorização pela agência sanitária americana.

Araújo também fez questão de ressaltar o trabalho do ex-ministro Eduardo Pazuello, apesar das críticas e dos recordes de mortes por causa da Covid-19.

"E aqui gostaria de fazer uma referência especial ao trabalho do então ministro Eduardo Pazuello, com quem trabalhei muito junto nessa área. Acho que foi um trabalho magnífico na montagem dessa estratégia, que agora começou a ser implementada pelo ministro Queiroga, claro, com toda a competência e entusiasmo, e da qual o Itamaraty participa, digamos, na implementação da estratégia", afirmou.

Araújo negou ainda que o governo brasileiro tenha minimizado o impacto da pandemia no país. “Nada do que eu tenha dito aqui, que ninguém do governo brasileiro tenha dito desmerece a gravidade da pandemia neste momento no Brasil, o número de óbitos, dos quais nos compadecemos.”

O presidente Bolsonaro pessoalmente minimizou a pandemia em diferentes ocasiões. Em março de 2020, por exemplo, afirmou que “está superdimensionado o poder destruidor desse vírus”, “não é isso tudo que a grande mídia propaga” e que “não podemos entrar numa neurose, como se fosse o fim do mundo.” Ademais, ele próprio provocou aglomerações e recusou usar máscaras.

Na noite de segunda, o chanceler foi criticado por empresários em reunião com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), em São Paulo. Nos encontros, o titular do Itamaraty foi chamado de omisso pela postura que tem tido durante a pandemia do coronavírus.

Os críticos afirmaram que a pasta deveria ter ficado à frente de questões importantes, como da vacina, de insumos e medicamentos, mas se manteve ao lado do negacionismo.

O chanceler tratou com ironia as críticas feitas a ele por ex-ministros das Relações Exteriores e por jornalistas. “O opróbrio dos ímpios enaltece o homem tanto quanto o louvor dos justos”, afirmou o ministro, que em seguida acrescentou que a melhor forma de se informar é não acompanhar as notícias da imprensa.

Em resposta a essa última afirmação, o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) afirmou que o chanceler estava “fora da casinha” e que era inaceitável tal comportamento de um chanceler.

O ministro afirmou ainda que não existe qualquer atrito com a China. “Sei que está todo dia na imprensa essa tese equivocada de que nós temos uma má relação com a China, de que o Brasil tem algum tipo de atrito com a China por causa de nossa política externa. Isso não é absolutamente o caso.”

“A relação hoje do Brasil com a China acho que é melhor do que a de qualquer outro ator internacional com a China, isso dentro da nossa perspectiva da importância desse nosso relacionamento”, disse.

Além disso, negou qualquer interferência americana para bloquear a compra de vacina russa pelo Brasil. "Nunca recebemos nenhuma gestão do governo dos EUA para introduzir a presença da Sputnik", disse.​

No entanto, relatório publicado pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos americano em 17 de janeiro, três dias antes da posse do democrata Joe Biden, mostra que o governo dos EUA pressionou o Brasil a rejeitar a compra da Sputnik V, vacina russa contra a Covid-19.

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