Descrição de chapéu Coronavírus

Em discurso de despedida, Pazuello faz acusações e diz que 'todos queriam o pixulé do final do ano'

Demitido do cargo de ministro com saldo de 300 mil mortos na pandemia e investigado pela PF, general cita lobby e operadores no ministério

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Brasília

Demitido do Ministério da Saúde no auge da pandemia, com recordes sucessivos de mortes diárias, e investigado pela PF (Polícia Federal) por supostos crimes ao se omitir na crise do oxigênio em Manaus, o general da ativa Eduardo Pazuello fez acusações de que havia interesse nos recursos da pasta em um discurso de despedida de sua equipe.

Segundo Pazuello, “todos queriam o ‘pixulé’ do final do ano”, numa referência à distribuição dos recursos da pasta. A frase foi dita numa espécie de jogral com seus dois principais auxiliares no ministério, os coronéis Luiz Otavio Franco Duarte, secretário de atenção especializada em saúde, e Élcio Franco Filho, secretário executivo.

“Você não vai falar, Franco Duarte? Estou ouvindo. O que fizemos no final do ano?”, questionou o ex-ministro. “Nós distribuímos os recursos”, respondeu Duarte. Irritado, o general quis saber com base em quais critérios houve a distribuição e repreendeu o ex-auxiliar. “Você não vai falar? Fala, Élcio. Acho que o Franco tá com problema mental.”

O secretário-executivo, então, disse que recursos para leitos e enfrentamento da pandemia atenderam às demandas dos estados conforme critérios epidemiológicos. Dirigindo-se ao ministro recém-empossado, Marcelo Queiroga, que estava ao seu lado, o ex-ministro afirmou: “Foi outra porrada. Porque todos queriam o ‘pixulé’ do final do ano.” No fim do ano, uma "carreata de gente" pediu dinheiro “politicamente”, acusou Pazuello.

O discurso de despedida do general, que teve quase 30 minutos, foi revelado pelo site da revista Veja na tarde desta quarta-feira (24). A Folha também obteve uma cópia dos vídeos.

O ex-ministro fez afirmações que apontam para a existência de direcionamento político, atuação de operadores e lobby dentro do Ministério da Saúde.

“‘Você não tem interesse?’ ‘Não.’ ‘Você não quer falar com a empresa tal?’ ‘Claro que não.’ ‘Você não recebe empresa?’ ‘De jeito nenhum.’ ‘Você não vai aceitar um cara aqui fazendo lobby?’ ‘Não.’ ‘Não vamos favorecer o partido A, B ou C?’ ‘Não.’ ‘E o operador do fulano, beltrano?’ ‘Não.’ Ih, vai dar merda. É assim que funciona”, afirmou o general.

Segundo o ex-ministro, a demissão de Nelson Teich do cargo acabou resultando em sua nomeação como ministro definitivo. “O Teich, por razões pessoais, precisou sair. E quem estava na manga era 'yo', e aqui fiquei. Iniciei como interino e depois o presidente nos colocou na missão definitivamente.”

O general acusou um grupo de médicos de tentar fraudar uma nota técnica para beneficiar a distribuição de um medicamento –Pazuello não deu nomes nem disse a que droga se referia.

“Você [Queiroga] vai ter tiro de fora e de dentro, o tempo todo. Em fevereiro, tivemos ação de um grupo interno nosso que tentou empurrar uma pseudo nota técnica que nos colocaria em extrema vulnerabilidade, querendo dizer que aquele medicamento A, B ou C a partir dali estava com critérios técnicos do ministério. E ele não tinha”, afirmou.

Segundo o ex-ministro, a nota técnica foi montada dentro da pasta, “por um grupo de médicos que nós trouxemos para dentro do ministério”. “Esses médicos fizeram uma fake news para o presidente.”

A presença de médicos no Ministério da Saúde é fundamental, segundo o ex-ministro. Mas, segundo ele, não se pode esquecer que o ministério “é alvo de pressões políticas”.

“Por causa do dinheiro que é destinado aqui de forma discricionária, a operação de grana com fins políticos acontece aqui.” Pazuello disse não ter conseguido acabar com “100%” dessa prática.

O ministério “tinha gente muito boa”, disse o general, mas faltavam “gestão, liderança, ética, probidade, honestidade e responsabilidade”.

Ele se disse vítima de “ações orquestradas” contra a pasta –oito, no total. Em fevereiro, segundo ele, sabia que não chegaria a 20 de março no cargo de ministro. “Não chegamos ao dia 15.”

No discurso, o general confirmou que não foi capaz de prever os rumos da pandemia no começo do ano, culpando as novas variantes do coronavírus pelo agravamento da crise —na verdade, as variantes surgem justamente por causa do descontrole da pandemia.

Pazuello deixou transparecer a preocupação com a investigação da PF sobre supostos crimes cometidos durante a crise de escassez de oxigênio no Amazonas. Ele foi alertado por diversas vezes sobre a escassez e sobre o risco de colapso, com pelo menos seis dias de antecedência.

“Se tiver essa consciência [de que foi feito o melhor], dorme tranquilo e responde em qualquer foro”, afirmou, duas vezes. “A história vai nos julgar.”

Queiroga falou por poucos minutos, basicamente para elogiar Pazuello: “Mesmo sem CRM [registro médico], você salvou muitas vidas. Quem vai te julgar é a história. Parabéns pelo que você fez pelo povo do Brasil. O tempo haverá de colocar você entre os grandes homens dessa nação. E você já o é.”

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