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Coronavírus

No papel, país vacina 88% das vítimas potenciais de Covid-19 até maio, mas ainda é pouco

Quanto mais acelerada a epidemia, mais atrasado e insuficiente se torna o calendário de vacinação

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São Paulo

No calendário do governo, haveria vacinas o suficiente para dar ao menos uma dose para mais de 63 milhões de pessoas até o final de maio, cerca de 40% das pessoas vacináveis, as de 18 anos ou mais. Seria o bastante para cobrir os objetivos das três primeiras fases do plano federal de imunização. Isto é, profissionais de saúde, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pessoas com doenças que agravam a Covid-19 (“comorbidades”) e todos aqueles de 60 anos ou mais. Ainda haveria injeções para parte dos indivíduos na casa dos 50 anos, também muito afetados pela doença. Em uma perspectiva de otimismo aritmético, até o fim de maio uma primeira dose poderia chegar aos grupos em que morrem quase 88% das vítimas de Covid-19 no Brasil.

O otimismo terá de superar ao menos duas barreiras. Primeiro, o risco agora documentado de falhas no cronograma. Segundo, a aceleração da epidemia. Em um mês, o número diário de mortes notificadas passou da casa dos 1.000 para 1.500.

Quanto mais acelerada a epidemia, mais atrasado e insuficiente se torna o calendário de vacinação. Há o risco de que surja uma epidemia de variantes mais letais, do que temos escassa informação, pois não há um plano nacional coordenado de testes e investigação das novas infecções.

Os riscos de descumprimento dos calendários agora são evidentes e até mensuráveis. A matéria prima importada da vacina tem de chegar a tempo; países não podem barrar a venda de doses prontas. Há algum risco nas linhas de produção industrial, como o acidente que ocorreu na Fiocruz ou outro motivo de atraso. Ainda não está certo que Butantan e Fiocruz possam entregar as doses que o governo prevê para março e abril. Não se trata de dizer que não o farão, mas ainda não há confirmação oficial da tentativa de fazê-lo. Nesse caso, trata-se do risco de perder ao menos 5,9 milhões de doses, bastantes para vacinar 2,8 milhões de pessoas.

Há promessa de que cheguem as vacinas da aliança Covax, liderada pela Organização Mundial de Saúde: 2,9 milhões de doses em março, outros 6,1 milhões na soma de abril e maio. É uma entrega sob incerteza, pois nenhuma vacina Covax chegou ao país e esse consórcio (desprezado por Bolsonaro no ano passado) lida com crises no mundo inteiro, em países pobres em particular.

Essas são as esperanças mais realistas. No calendário oficial, aparecem 20 milhões de vacinas indianas Covaxin no primeiro semestre, das quais 2 milhões em abril e outro tanto em maio. Até a semana passada, eram esperados 4 milhões de doses destas vacinas em março, outros 4 milhões em abril. Não virão. De resto, tais vacinas não foram aprovadas pela Anvisa, assim como as 400 mil Sputnik russas esperadas para abril e 2 milhões esperados em maio. Nas contas feitas pelo jornalista da Folha, tais doses não foram consideradas nas projeções de vacinação possível até maio.

Como noticiou a Folha, o governo espera receber 9 milhões de doses de Pfizer até junho. Falta contrato formal; não se sabe se alguma vacina chegará até maio.

Depois de pressionado por governadores, prefeitos, decisões do Supremo e leis do Congresso, Bolsonaro se moveu tardiamente (barrando de resto a tentativa de estados e prefeituras de fechar contratos com laboratórios). Diz seu governo que haverá vacinas da Janssen e da Moderna, mas para julho e depois. O país precisará delas, até porque não sabe quantas ondas de morte e que tipo de variante ainda enfrentará.

Até agora, receberam uma dose de vacina cerca de 8,2 milhões de pessoas. Até o final de março mais de 77% das injeções terão sido Coronavac, que Bolsonaro desprezava como “vacina chinesa do Doria”, importadas ou fabricadas pelo Butantan.

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