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Sociedades médicas pedem que novo ministro se paute na ética e na ciência para enfrentar pandemia

Entre os colegas cardiologistas, Marcelo Queiroga é visto como negociador e conciliador; para outros, apenas mais um nome que acatará ordens de Bolsonaro

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São Paulo

Após a nomeação do novo ministro da Saúde, o médico cardiologista Marcelo Queiroga, sociedades médicas pedem para que ele se ampare na ética, na técnica e na ciência e que seja blindado de interferências negacionistas para enfrentar esse momento de colapso da saúde brasileira.

César Eduardo Fernandes, presidente da AMB (Associação Médica Brasileira), que reúne 54 sociedades de especialidade, diz que, embora não conheça a capacidade de gestão do novo ministro nem as linhas de pensamento e convicções, tem muito claro o que espera de um bom dirigente da saúde: que se paute nos bons ditames da ciência e dos conhecimentos vigentes.

Segundo ele, um ministro, qualquer que seja, jamais deveria defender algo indefensável, como o tratamento precoce para a Covid-19, por não haver evidência científica que o sustente.

"Um ministro competente tem de construir uma equipe de técnicos de alto nível, para que monitore e faça a leitura correta do cenário, independentemente de qualquer influência política ou ideológica. A prioridade, repito, é o bem-estar da população."

Também afirma que o país precisa de um ministro que empreenda todos os esforços para vacinar a população, em tempo mais rápido possível, uma vez que o país está muito atrasado na meta. E que também reconheça a importância das medidas preventivas defendidas por todas as entidades médicas nacionais e internacionais.

"Tem de orientar com todas as letras, sem qualquer subterfúgio: ‘pratiquem o isolamento social. Usem máscaras. Evitem aglomerações. Faça a higiene das mãos constantemente com água, sabão e álcool em gel. Vamos rastrear todos os contatantes’", diz.

O presidente da APM (Associação Paulista de Medicina), José Luiz Gomes do Amaral, diz que os médicos paulistas apoiam o novo ministro no enfrentamento desse trágico desastre sanitário, a Covid-19.

"Que a ciência, a ética e a compaixão nos conduzam ao longo do difícil caminho que juntos trilharemos. Nós o conhecemos e o sabemos capaz. O senhor ministro nos conhece e sabe que poderá contar conosco", disse.

Presidente da Academia Brasileira de Neurologia, Carlos Rieder afirma esperar que Queiroga consiga conduzir a pasta com sabedoria e amparado na ciência.

"Para enfrentamento da pandemia será fundamental que receba todo o apoio e que seja blindado das interferências negacionistas que tanto prejudicam este país".

"Como medida de extrema urgência, para amenizar o tempo já perdido, está transmitir de forma clara para a população a necessidade da obediência às regras de proteção, como o distanciamento social e o uso correto de máscara, assim como da importância da vacinação em massa."

A médica intensivista Suzana Lobo, presidente da AMIB (Associação de Medicina Intensiva Brasileira), espera que o novo ministro seja técnico, que priorize a vida e use todos os recursos de saúde em prol da população.

"Que ele trabalhe em consonância com as sociedades de especialidades e compreenda a importância de leitos de UTI suficientes e com equipamentos e profissionais qualificados."

Bruno Naves, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, também diz esperar que o novo ministro da Saúde tome suas decisões de maneira técnico-científica.

Entre os colegas cardiologistas, as opiniões se dividem. Para alguns, é um bom nome, com perfil de negociador e conciliador. Para outros, porém, o fato de ser próximo à família Bolsonaro já é um indicativo de ele seguirá as ordens do presidente.

O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga - Marcos Oliveira - 12.ago.15/Senado/France Presse

Para Roberto Kalil, diretor do centro de cardiologia do Hospital Sírio-Libanês e presidente do conselho diretor do InCor (Instituto do Coração), Queiroga é uma pessoa discreta, coerente e bem articulado. "É um bom nome. Tem tudo para dar certo. Aliás, tem que dar certo”, diz.

Kalil diz que o novo ministro terá “apoio total” nas duas instituições onde ele atua, InCor e Sírio.

O cardiologista Fabio Jatene, professor titular da USP e diretor do serviço de cirurgia torácica do InCor, tem avaliação parecida. Diz que ele e Queiroga já atuaram próximos, na direção de sociedades médicas na área da cardiologia (Jatene, na de cirurgia torácica e Queiroga, na de hemodinâmica).

“Tenho boa impressão do Queiroga, da forma como ele conduz as coisas, tem uma boa capacidade de administrar, de resolver, de discutir os problemas, de tentar achar solução para os problemas, um bom negociador. Estou vendo com boas expectativas [a indicação].”

Tanto Kalil quanto Jatene não quiserem comentar ao questionamento da Folha sobre se Queiroga terá alguma autonomia no Ministério da Saúde. “Não vou entrar nesse campo” diz Jatene.

A Folha conversou com outros quatro cardiologistas que têm opiniões diferentes. Consideram Queiroga despreparado para a função e que apenas obedecerá ordens do presidente Bolsonaro, mas preferem não se manifestar por temer represálias.

Um cardiologista de São Paulo afirma que o novo ministro "sempre foi bolsonarista, defensor da hidroxicloroquina e vai fazer tudo o que Bolsonaro mandar”.

Para outro, ele sempre foi próximo dos filhos de Bolsonaro. Acrescentou que "só Deus sabe" se vai conseguir convencer o presidente a ser mais aderente ao bom senso e à ciência.

Um terceiro especialista declarou que nada mudará, porque Queiroga, assim como Pazuello, não tem preparo para a função e vai seguir a cartilha de Bolsonaro.

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