Descrição de chapéu Coronavírus

Recusa e falta de informação são desafios na vacinação da Covid-19 em sem-teto idosos de SP

Quase 330 pessoas em situação de rua ainda não quiseram se imunizar contra o coronavírus na cidade

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São Paulo

Sentada numa cadeira sobre a calçada da rua Padre Raposo, na Mooca, bairro da zona leste da capital paulista, Rosângela Binati recusou receber a primeira dose da vacina contra o coronavírus.

Prestes a completar 60 anos, ela não quer saber da vacina por enquanto e, para mudar de assunto, mostrou os dois braços repletos de feridas. “Olha essa alergia aqui”.

Com toda atenção, a técnica de enfermagem Ana Paula Resende, 40, disse que ajudaria a tratar o problema de pele da idosa.

Resende integra uma das 25 equipes do Consultório na Rua, programa da prefeitura que presta atendimentos preventivos de saúde aos sem-teto. Na pandemia, o serviço tem sido o responsável por garantir a imunização dessa população contra a Covid-19.

Ali, na calçada onde vive, Binati foi atendida na tarde desta última quarta-feira (3) por Resende e teve sua pressão arterial medida pela profissional de saúde, que aproveitou o momento para perguntar: você tem certeza que não quer tomar a vacina?

A pergunta foi repetida várias vezes pela profissional de saúde, e a resposta de Binati foi sempre um não. “Essa doença está quase terminando e eu não peguei. E olha que eu estou em situação de rua”, contou.

Binati vive há anos pelas ruas da capital paulista e, durante a abordagem da equipe de saúde, também não usava máscara. “Eu só uso quando entro nos comércios”, afirmou a sem-teto aos profissionais de saúde.

Desde o dia 12 de fevereiro, pessoas em situação de rua acima de 60 anos passaram a fazer parte do calendário de vacinação contra o coronavírus na capital paulista.

Dados oficiais mostram que ao menos 398 pessoas em situação de rua contraíram a Covid-19 na cidade de São Paulo. Destas, 32 morreram.

O objetivo da vacinação é alcançar ao menos 2.025 sem-teto, afirmou Marta Regina Marques Akiyama, 50, coordenadora do Consultório na Rua. “Estamos fazendo muita sensibilização entre as pessoas de rua para atingirmos esta meta”.

O número, segundo Akiyama, corresponde aos idosos assistidos e já cadastrados pelo programa. "Mas sabemos que o número real é muito maior", disse. E os desafios também.

A recusa e a desinformação sobre a vacina contra a Covid-19, além do nomadismo característico de quem vive perambulando pela metrópole têm dificultado a distribuição do imunizante.

Balanço mais atualizado da Smads (pasta da assistência social da gestão Bruno Covas) mostra que 328 idosos sem-teto recusaram se vacinar contra o coronavírus.

São pessoas que, no momento da abordagem, estavam com humor alterado. "A gente não desiste na primeira recusa. Essas pessoas seguem sendo monitoradas pelos nossos 595 profissionais", disse a coordenadora.

No momento, a vacina ofertada é a Coronavac, a desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan.

Por outro lado, ao menos 1.600 pessoas em situação de rua já receberam a primeira dose. A segunda dose da Coronavac começou a ser distribuída nesta última sexta (5). E, entre os vacinados, padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo, completou a sua imunização.

EQUIPE VASCULHA CEMITÉRIO PARA ENCONTRAR IDOSOS

A Folha acompanhou uma equipe do Consultório na Rua da Mooca, região onde foram vacinadas as primeiras pessoas em situação de rua da cidade.

Apesar de já ter ultrapassado a meta de aplicar a primeira dose em 106 sem-teto de seu território —até esta última quarta, 137 pessoas tinham tomado a vacina na região —, a equipe do Consultório na Rua da Mooca seguia na correria para não deixar ninguém de fora da imunização.

O trabalho dos agentes sociais, enfermeiras e técnicas de enfermagem começou no Centro de Convivência São Martinho, espaço onde a população de rua faz a primeira refeição do dia, recebe atendimento médico, toma banho e consegue uma peça de roupa limpa.

Padre Júlio Lancellotti recebe segunda dose da Coronavac em SP
Padre Júlio Lancellotti recebe a segunda dose da Coronavac em SP - Divulgação

O posto de vacinação montado no local alcançou 14 idosos naquela quarta. Um deles foi Brás Sebastião, 68. O sem-teto, que nasceu no Espírito Santo e vive há poucos meses na capital paulista, nem sabia que poderia se vacinar.

Acolhido numa fila por Lancellotti, que desenvolve um trabalho assistencial no local, Brás não se conteve de alegria. “Eu estou me sentindo tão superior agora”, disse ele após receber a dose da vacina.

O caso de Brás, disse o padre, exemplifica outro problema na gestão da pandemia. “A prefeitura acha que o povo de rua está informado, mas não é isso que tenho visto. É preciso reforçar a informação para mais gente ser alcançada pela vacina”.

Duas horas depois, a mesma equipe do Consultório na Rua seguiu para o prédio da Missão Eucarística Voz dos Pobres, instituição onde estão acolhidos 17 homens —a maioria idosos.

No trajeto, a temperatura da pequena caixa de esopor que continha dois frascos de Coronavac, sendo um deles já aberto, era monitorada constantemente pela técnica de enfermagem Michele Maiara Leão, 31. “Não podemos perder nenhuma dose dessa vacina”, disse.

Para garantir a eficácia, a temperatura da Coronavac precisa ficar entre 2ºC e 8ºC.

No prédio da “Voz dos Pobres”, três idosos receberam a dose da Coronavac. Eles foram resgatados da rua em péssimas condições de saúde e apresentam muitas sequelas. Uma delas é a falta de mobilidade.

Agendar a vacinação tem sido o grande trunfo do Consultório na Rua para alcançar a população sem-teto. “Isso evita qualquer perda da vacina e nos protege também”, disse a enfermeira Lidiane Damares, 34.

Mas é o trabalho de rua, na abordagem corpo a corpo, que fez do programa uma referência. Assim que a equipe deixou o asilo, partiu para o cemitério da Quarta Parada, espaço muito usado por grupos de sem-teto para lavagem de roupas e utensílios e até pernoite.

Sem encontrar nenhum idoso na necrópole, a equipe se deslocou para a praça Presidente Kennedy, onde outro idoso cadastrado é procurado desde o início da vacinação. Sem encontrá-lo, a equipe acabou marcando uma coleta de papanicolau (exame ginecológico) para uma vizinha de barraca do homem.

“Vou aproveitar o pedido de exame dessa mulher para levar a pomada de Rosângela. Nós nunca desistimos diante de uma recusa porque é preciso, primeiro, criar vínculo. É essa confiança que a deixará segura para tomar a vacina”, disse Ana Paula Resende, a técnica de enfermagem que abordou a idosa sem-teto que não quis se vacinar.

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