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Coronavírus

Sem testagem e rastreamento, Brasil vive apagão sanitário

O chamado 'test and trace' de pessoas com Covid-19 é a ação mais efetiva contra a disseminação do vírus, mas foi negligenciada no país

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Gustavo Gusso

É professor de propedêutica e clínica geral da Faculdade de Medicina da USP

Não é tarefa fácil analisar a história enquanto ela está ocorrendo. Mas é possível inferir como ela será contada, ao menos a partir de alguns marcos importantes. O combate à pandemia de Covid-19 será marcado por dois períodos, pré e pós-vacina. Estamos na transição. Destacam-se, no período pré vacina, desconhecimento, pânico e medidas emergenciais cuja eficácia era assimilada durante a implementação —rasgando, assim, a cartilha científica e da intervenção baseada em evidências.

Neste primeiro momento, além da educação em saúde —alertas para usar álcool em gel e lavar as mãos—, as medidas mais comuns foram: medição da temperatura, uso de máscara, distanciamento social, teste-monitoramento-rastreamento de pessoas sintomáticas e contactantes (o chamado “test and trace”), restrição de circulação e criação de leitos de UTI. Entre todas estas medidas, a que as experiências e os estudos comparativos em diferentes países demonstraram ter maior efetividade para evitar a disseminação da doença foi a do “test and trace”. Mas essa foi justamente a medida negligenciada no Brasil. Quais os motivos?

“Test and trace”, ou teste-monitoramento, não é propriamente algo novo na saúde. É a essência da vigilância. No âmbito da Covid, significa identificar e notificar os casos o mais rapidamente possível, entrevistar os que receberam testes positivos, localizar e monitorar contactantes. Desde o primeiro momento da pandemia, há um teste efetivo e acessível para rastreamento, o PCR. Em março de 2020 já havia 600 drive-thrus de PCR na Coreia do Sul e um mapa com os positivos (https://coronamap.site/).

No Brasil, temos mais de um ano de pandemia e, pasmem!, mesmo no setor privado o PCR ainda é realizado quando a pessoa já disseminou a doença e serve, via de regra, apenas para contabilizar casos e óbitos, e não para rastreamento e monitoramento.

O país sofreu um apagão de vigilância no setor. Esta é uma área crucial da saúde pública e gozava de alguma reputação. Além da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), tanto o Ministério da Saúde quanto secretarias estaduais e municipais de Saúde, mesmo de pequenas cidades, têm uma área dedicada à vigilância.

Mas é uma área que não se modernizou nem foi digitalizada. É burocratizada, tendo se dedicado, nas últimas décadas, a preencher papéis e formulários. Nunca me esqueço de meu espanto, quando fui gerente de uma unidade de saúde do SUS com a quantidade de burocracia a que as enfermeiras precisavam se dedicar apenas para vigilância da raiva —doença letal, porém rara. Dependendo da quantidade de mordidas de cachorros, uma ou mais enfermeiras precisavam se dedicar exclusivamente à burocracia desta atividade, a ponto de eu ter sido obrigado a parar de notificar pequenas mordidas para que a enfermeira pudesse se dedicar a outros problemas e pacientes. Era melhor não seguir o protocolo.

Quando a vigilância questionou a queda nas notificações, respondi que havia feito um "acordo com os cachorros”. O conceito de custo de oportunidade (“se faço uma ação, deixo de fazer outra”) passa ao largo da estratégia da vigilância.

É preciso reconhecer que, mesmo com processos burocratizados, houve avanço na coleta de dados —que são acurados, se comparados com os de outros países de mesmo nível socioeconômico que o Brasil. É uma vitória, ainda mais levando-se em consideração que poderiam ser manipulados por este governo, se não houvesse certa maturidade. Mas não houve um preparo para os que os dados fossem traduzidos em ações efetivas.

O que têm feito os especialistas em vigilância Brasil afora? Como têm atuado nos comitês? De repente, os comitês e especialistas em vigilância sugerem apenas um comando, sem sequer medir as consequências, inclusive de mortes, da intervenção que propõem: fecha tudo, fique em casa, espere a vacina e xingue o Bolsonaro. Está claro que o presidente chamou, literalmente, a responsabilidade para si. É um inepto e negligente, que, além de defender tratamentos sem base científica, desprezou a vacina e não coordenou as ações de combate à Covid-19. Mas isso não dá às vigilâncias estaduais e municipais o direito de não terem um plano que vá além do “fique em casa” e “use máscara”.

De todas as medidas, “test and trace” é provavelmente a mais difícil: não se faz por decreto e exige planejamento e execução, o que foi feito apenas no inicio da pandemia, pela equipe do então ministro Luiz Henrique Mandetta, mas em nenhum momento pelo estado de São Paulo. Fechamento do comércio e escolas significa a falência de todas as outras ações.

Vivemos as consequências da excessiva burocratização de uma área crucial para a saúde, e agora sabemos, para a economia. E uma área que não pode ser delegada ao setor mercantil da economia mas que precisa despertar de um sono profundo. O ápice da bizarrice é que muitas unidades de saúde continuam sendo cobradas mesmo no ápice da pandemia pela “meta de Papanicolaou”. Ou seja, temos de descobrir urgentemente em que momento a vigilância em saúde virou “cavalo de charrete” incapaz de traçar novos planos que sejam efetivos para a sociedade —e não para cumprir uma burocracia imposta com o argumento “é o protocolo”.

As equipes de vigilância e assistenciais deveriam ter sido preparadas para o “test and trace” com digitalização do processo. Ainda é tempo. Não há indicio de que o “test and trace” digitalizado deixará de ser relevante no desenrolar da(s) pandemia(s), mesmo na segunda fase, com o advento da vacina, ou para lidar com novas fases e variantes do coronavírus.

Temos que cobrar do novo ministro da Saúde e dos especialistas em vigilância nos comitês de combate à Covid-19 dos estados e municípios quais são os planos para além do “fique em casa, feche tudo, aguarde a vacina”. Esse não é o único papel da vigilância, nunca foi nem nunca será. O propósito dessa área deveria ser o inverso: trabalhar para que as pessoas sejam livres e realizadas. Em que momento nos perdemos e a vigilância, que deveria focar as doenças, passou a ser sobre os seres humanos?

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