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Coronavírus Trincheira Covid

Cada um com sua responsabilidade

Sacrifício faz parte do que idealizo como um pacto coletivo de cuidado, relata médica em diário

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Fernanda Wendel

Médica com residência de Medicina de Família e Comunidade, atua como socorrista do Samu e em pronto-socorro de São Paulo

São Paulo

Meu maior receio nesta pandemia sempre foi transmitir a doença aos outros. Mais até do que me contaminar. Tenho medo de morrer sem ar, com dor, mas a possibilidade de causar isso a outra pessoa me é intolerável. E uma coisa leva a outra: para eu não transmitir o vírus, não posso deixar que ele me pegue antes. Então sou muito rigorosa com os cuidados, inclusive de distanciamento social. Neste ano todo conto nos dedos das mãos as pessoas que vi fora do trabalho. Ainda assim, sem abraços e a proximidade que eu queria.

Minha mãe eu vi uma única vez, quando a pandemia havia dado uma esfriada e eu tinha acabado de receber o resultado do teste negativo. Perdi o aniversário dela de 60 anos, que merecia uma grande celebração. Perdi os cafunés, os bolos de fim de tarde, as gargalhadas de uma bobagem qualquer que fazem a gente entrar num uníssono que trazem até lágrimas de alegria. A Covid roubou o colo da minha mãe quando saio de um plantão ruim e só quero um cantinho de conforto. Privações temporárias para garantir que logo mais eu possa ter tudo isso de volta. Porque a simples ideia de levar o vírus para minha mãezinha me causa um pavor profundo.

Assim como a possibilidade de acabar contaminando outros pacientes. Cada vez que transporto um caso de Covid na ambulância, sou chatíssima com a limpeza da viatura. Seja debaixo de sol escaldante, seja no meio da madrugada, seja na hora do almoço com o estômago colado nas costas. Não pode passar um cantinho sem ser desinfectado para não colocar o próximo paciente em perigo por descuido. Imagine fazer um parto na ambulância e premiar a primeira respiração do bebê com vírus? Ou complicar ainda mais um infartado, uma pessoa com AVC ou alguém que acabou de sofrer um acidente com uma contaminação indesejada e prevenível? Inaceitável!

Essa percepção do risco e o consequente zelo na precaução podem ser exaustivos, mas considero totalmente necessários neste momento. Obviamente não estou feliz em abrir mão de encontros, festas, momentos de lazer. (Ah, o que não faria por uma boa sessão de cinema agora...) Mas o sacrifício faz parte do que idealizo como um pacto coletivo de cuidado. Além do plano individual, eu me cuidar significa cuidar de quem está ao meu redor. Se eu bloqueio a chegada do vírus até mim, impeço que eu o transporte para os outros. Parece simples, não? Mas exige comprometimento. E, idealmente, um comprometimento coletivo. Porque a impressão de que eu estou me sacrificando enquanto os outros estão festejando dá uma sensação de quase tolice.

Mas, garanto, a cada paciente que vejo tentando caçar ar, à beira da exaustão, tenho certeza de que o esforço vale a pena. Sigo até agora sem ter me contaminado, com alguma segurança de que não transmiti a ninguém. Já tomei as duas doses da vacina. E continuo me mantendo afastada do contato social. Porque não se trata apenas de mim, diz respeito à responsabilidade de lutar por um objetivo comum: interromper este pesadelo e poder fazer uma grande aglomeração festejando o fim do fantasma Covid.

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