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Com recorde mundial de casos de Covid, Índia identifica nova variante do coronavírus

Linhagem, chamada de B.1.617, está se espalhando rapidamente pelo país asiático e por outras 16 nações

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São Paulo

A falta de leitos de enfermaria e UTI, de insumos para atendimento hospitalar dos doentes e as cremações em massa ilustram a situação de horror vivida pela Índia na segunda e mais devastadora onda da pandemia.

Em meio ao caos, o país identificou ainda uma nova variante que tem circulado cada vez mais e causa preocupação.

A nova linhagem, batizada de B.1.617, está sendo investigada para descobrir se é mais perigosa do que a forma original do vírus, mas sua rápida disseminação por toda a Índia e em outros 16 países já mostra que é preciso criar um sinal de alerta.

A Índia detém hoje o recorde m undial de casos de Covid por dia, com média móvel semanal de 340 mil casos por dia. Desde o dia 1˚ de abril até esta quarta-feira (28), o número de casos reportados em 24 horas sextuplicou.

 Parentes de vítimas de Covid aguardam do lado de fora do serviço de emergência do hospital Memorial Jawahar Lal Nehru, em Nova Déli, na Índia. Há duas mulheres sentadas na calçada e um homem sentado na sarjeta
Parentes de vítimas de Covid aguardam do lado de fora do serviço de emergência do hospital Memorial Jawahar Lal Nehru, em Nova Déli, na Índia - Tauseef Mustafa - 28.abr.21/AFP

A B.1.617 surgiu em outubro de 2020, mas, até o início de abril, ela correspondia a cerca de 24% das amostras sequenciadas do vírus no país. Já no dia 24 de abril, ela era dominante e representava mais de 80% das amostras analisadas.

Embora sua presença crescente coincida com o aumento exponencial do número de casos e óbitos no último mês, ainda não foi demonstrada uma associação direta da variante indiana com essa alta. “É uma situação complicada. Sem medidas de distanciamento, falta acesso a sistemas de saúde, desigualdade social, tudo isso somado à presença de uma variante, e não só por ela, leva a uma crise sanitária muito grande”, explica o virologista Fernando Spilki, coordenador da Rede Corona-ômica e professor da Universidade Feevale.

Para ele, é a mesma situação já observada em outros lugares do mundo, como Manaus e África do Sul, onde foram implementadas medidas paliativas de controle do vírus que acabaram sendo palco para a origem de novas variantes.

Até o momento, a variante ainda não é classificada como uma variante de preocupação (ou VOC, na sigla em inglês), ou seja, formas do vírus com mutações que podem causar estrago do ponto de vista de saúde pública.

De acordo com o boletim epidemiológico semanal da OMS (Organização Mundial da Saúde) publicado na última terça (27), a B.1.617 é uma variante de interesse (ou VOI), isto é, possui mutações em regiões-chave do coronavírus, mas ainda não há dados suficientes sobre maior transmissibilidade ou letalidade da linhagem.

Pesquisadores e autoridades de saúde, no entanto, seguem monitorando a presença da B.1.617 em diversos países e na própria Índia, onde foram encontradas três sub-linhagens dela.

“Ela é uma variante com potencial para se tornar uma VOC e as medidas que puderem ser tomadas para evitar seu espalhamento, como testar indivíduos com viagem recente à Índia ou monitorar os passageiros em trânsito entre o país e os outros do entorno devem ser feitas”, afirma Spilki.

Por enquanto, o que se sabe é que ela possui 23 mutações que resultaram em trocas de aminoácidos (mudando, assim, as proteínas que formam o vírus), das quais quatro ocorreram na proteína S do Spike (espícula usada pelo vírus para invadir e infectar as células).

Duas dessas mutações, a D614G e a L425R, já são conhecidas de outras formas do vírus por conferirem uma capacidade maior de transmissão ao invasor. Outra mutação, a E484Q, é muito semelhante a uma mutação encontrada nas variantes P.1 e B.1.351 (sul-africana), e permite ao vírus fugir da proteção conferida por anticorpos neutralizantes.

A mesma mutação foi também encontrada em uma possível nova variante (batizada de “P.4”) na região metropolitana de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais.

Por conter duas mutações presentes em outras VOCs (a variante californiana possui também a mutação L425R), a B.1.617 tem sido chamada de “mutante duplo”. Spilki frisa, no entanto, que não é o número de mutações que uma variante carrega que importa, mas, sim, o local onde elas estão.

“O que interessa é que desde janeiro temos visto essa e outras variantes com mutações ocorrendo quase sempre nas mesmas regiões do vírus, em geral naquelas associadas ou à entrada do vírus nas células humanas —conferindo vantagem de ser mais transmissível, permitindo assim replicação melhor no organismo— ou nas chamadas regiões de neutralização do vírus [onde os anticorpos do nosso sistema imune vão se ligar ao Sars-CoV-2 e bloquear sua entrada]. A mutação E484Q pode se comportar da mesma forma que a mutação na variante sul-africana, diminuindo a ação dos anticorpos e até mesmo afetando as vacinas em uso contra a Covid”, diz.

Um estudo recente publicado na forma de pré-print testou o soro convalescente de indivíduos que tiveram Covid no passado contra a nova variante e também o soro de vacinados com a vacina Covaxin para saber se há perda de imunidade, e viram que não houve bloqueio da ação de neutralização dos anticorpos.

Porém, o número de pessoas analisadas foi baixo (menos de 40) e a pesquisa foi feita em laboratório, quando o ideal é avaliar a eficácia da vacina na vida real contra a nova variante. Para isso, argumentam os autores, é preciso acelerar a vacinação no país para tentar reduzir drasticamente o número de novos casos e óbitos.

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