Descrição de chapéu
Trincheira Covid

Como chegamos a este ponto?

Médica relata na Folha, por duas semanas, o dia a dia da Covid entre resgates e pronto-socorros

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Fernanda Wendel

Médica com residência de Medicina de Família e Comunidade, atua como socorrista do Samu e em pronto-socorro de São Paulo

São Paulo

- Você só pode estar de brincadeira! Então vou ter que vestir um escafandro toda vez que for atender um paciente com sintoma gripal?

- Exato.

Este foi um dos primeiros diálogos que tive com meu pai, também médico, sobre Covid-19, em janeiro do ano passado. A gente sabia pouco sobre a doença, que nem nome tinha ainda, e parecia completamente surreal que um vírus causador de gripe pudesse fazer tanto estrago. Mas fez.

Nas semanas seguintes fui soterrada por artigos que tentavam desvendar a praga que estava tomando conta do mundo. Começaram os treinamentos para garantir a proteção da equipe –inclusive vestindo o macacão parecido com um escafandro. O que eu tinha tratado como piada virou objeto de desejo, junto com máscara, luvas e protetor facial. Sim, a gente parece astronauta andando de ambulância. Cada vez mais o roteiro foi se aproximando de um filme daqueles bem absurdos de uma pandemia que extermina a população.

Equipe do Samu atende paciente com suspeita de Covid-19, em São Bernardo do Campo (SP) - Amanda Perobelli - 24.mar/Reuters

Só que era de verdade. Estava começando uma guerra, e logo na largada vi parceiros caírem. Professores intubados, colegas de front que não resistiram. Amigos que eu orientava por telefone, doentes e isolados em casa.

Tinha certeza que chegaria a minha vez, e me tornei a chata da prevenção. O rosto machucado pela máscara já nem me incomodava tanto, desde que eu não me contaminasse. Hoje o contorno da máscara virou uma mancha escura na minha face, que provavelmente vai permanecer como uma marca destes tempos de luta.

O calor dentro do macacão impermeável (que vai por cima do uniforme do Samu, que por sua vez vai por cima de uma muda de roupa) rendeu assaduras das mais incômodas.

Subir ladeiras e escadarias carregando torpedos de oxigênio para resgatar meus pacientes se tornou ainda mais penoso com a máscara aquecendo o ar que entra e sai dos meus pulmões. Ainda assim, sei que nenhuma sensação de sufocamento se compara à de quem está prestes a ser intubado.

No final do ano, quando parecia que teríamos uma trégua nesta guerra, os bombardeios recomeçaram. Mais intensos, mais assustadores. Muitos pacientes jovens, muitos pacientes chegando em estado cada vez mais grave. Níveis tão baixos de oxigênio que nunca vi nem nos quadros mais severos de pneumonia ou tuberculose.

O filme estava passando dos limites. No cinema, ninguém acreditaria que isso seria possível. Mesmo nos meus dias mais pessimistas, não pensei que chegaríamos ao ponto em que estamos.

Se eu já não conseguia dormir direito desde o começo da pandemia, a partir desta segunda onda os pesadelos ficaram ainda mais constantes e tenebrosos.

Há poucos dias acordei suada, com palpitações e falta de ar, depois de sonhar que tinha uma pilha de 3.000 atestados de óbito na minha frente para eu preencher. Espero que hoje eu não sonhe que esta pilha cresceu para 4.000.

O que queria muito era acordar e perceber que todas essas perdas não passaram de um terrível pesadelo (ou de um roteiro de filme ruim).

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