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É só me intubar! (É o que você pensa...)

Segundo capítulo de diário na Folha explica procedimento derradeiro para muitos pacientes de Covid

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Fernanda Wendel

Médica com residência de Medicina de Família e Comunidade, atua como socorrista do Samu e em pronto-socorro de São Paulo

São Paulo

Enquanto achava forças para seguir trabalhando no caos das festas de fim de ano, triste de não estar perto da minha família (a noite de Natal passei literalmente sozinha, dormindo cedo para o plantão de 24 horas do dia seguinte), fui presenteada com vídeos estarrecedores de megabaladas espalhadas pelo país. Um específico me tirou o chão.

Do meio de uma multidão, ouve-se uma voz feminina berrando “É só me intubar”, com a mesma desenvoltura que ela usaria para pedir um pão de queijo.

Intubar um paciente e tratá-lo com ventilação mecânica não é só passar um canudinho pela garganta e soprar um arzinho para o pulmão. Principalmente em situações de emergência, em que o paciente está instável, perto de entrar em exaustão respiratória e evoluir para uma parada.

Vamos começar do princípio. No geral, quem tem prática com esse procedimento são anestesiologistas, emergencistas e intensivistas. Na altíssima demanda que vivemos por essas especialidades na pandemia, provavelmente estes colegas estavam lotados de plantões, e não no meio da festa. Basta perguntar a qualquer gestor a dificuldade que está sendo encontrar profissionais livres para assumir mais turnos.

Passar um tubo calibroso, nada macio, pelo meio das cordas vocais é doloroso. Pense no quanto incomoda uma migalha de comida, pequenininha, presa na garganta. Pronto, agora imagine o tubo atravessando cerca de um palmo da sua via aérea.

Pessoa de costas paramentada como enfermeiro mexe em uma bancada acima das quais estão pendurados em fila diversos tubos espessos
Profissional de saúde inspeciona equipamento de intubação no hospital Emilio Ribas, em São Paulo - Miguel Schincariol-20.abr.20/AFP

Para que a intubação não seja um ritual de tortura, usamos uma série de medicamentos para tirar a dor e sedar o paciente. Nem todos os serviços estão com esses medicamentos à disposição. E aí faz-se o que se pode. A sedação não fica das mais adequadas, mas torna-se uma questão de priorizar a vida em vez do conforto.

Aí chega a parte da ventilação propriamente dita. Não é apenas ligar um aparelho, como a gente liga a lavadora de roupas, escolher um programa e deixar ele funcionar. São vários ajustes, diferentes técnicas e especificidades de cada paciente. Leva tempo para treinar uma boa equipe para lidar com tudo isso. Então não adianta simplesmente comprar novos respiradores e colocar em hospitais.

É necessário conhecimento, experiência e um time multiprofissional para que o tratamento seja efetivo. Médicos não dão conta de tudo sozinhos! Precisamos muito da equipe de enfermagem e de fisioterapia para cuidar diretamente do paciente intubado, fora todo o batalhão que está nos bastidores (na farmácia, na radiologia, na nutrição, nas compras, no administrativo, na limpeza...).

Espero ansiosamente pelo dia em que a gente consiga retomar as festas em segurança. Em que a gente possa celebrar a vida, voltar a dançar e se abraçar sem medo. Mas não com o descaso de berrar “é só me intubar”. Porque é muito mais do que isso

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