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Coronavírus Trincheira Covid

Então agora só se morre de Covid?

Não compreendo a naturalização de uma doença que mata em média 3.000 pessoas por dia

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Fernanda Wendel

Médica com residência de Medicina de Família e Comunidade, atua como socorrista do Samu e em pronto-socorro de São Paulo

São Paulo

Meu coração se contorce a cada vez que ouço essa pergunta imersa em desprezo. E não são poucas as ocasiões. A cada óbito fora do hospital que vou constatar, preciso aplicar um questionário aos familiares para afastar a possibilidade de Covid-19. Se a suspeita for levantada, a equipe coleta amostras que são enviadas para análise. Antes que os adeptos da teoria da conspiração gritem que estamos insuflando dados, já aviso: só depois da confirmação laboratorial é que a doença é incluída na declaração de óbito.

Na minha vivência pessoal, nos casos que suspeitei de Covid-19, o exame confirmou meu raciocínio. Não digo que me orgulho dessa situação: gostaria muito que essas pessoas tivessem tido acesso ao serviço de saúde antes e pudessem contar com suporte que viabilizasse a continuidade de suas vidas.

Não se morre só de Covid. Mas tem muita gente morrendo de Covid. Os dados mostram que atualmente cerca de metade dos óbitos de causa natural no país são decorrentes da doença, falando apenas como causa direta. Porque há também o efeito colateral da pandemia na mortalidade geral.

Se atendo um acidente grave e não tenho mais sedativos para intubar a vítima por causa do desabastecimento gerado pela demanda da Covid, é inegável que o acidentado também foi afetado pela pandemia. A mesma coisa para infartos, AVCs, quadros graves de convulsão e qualquer outro que concorra pelo uso dos mesmos sedativos, dos mesmos ventiladores, dos mesmos profissionais de saúde que estão alocados na linha de frente da Covid.

Estamos além da nossa capacidade de atendimento, seja em estrutura física ou em recursos humanos. Os pacientes graves não param de chegar. Estamos sendo palco de cenas surreais, como profissionais do hospital levando galões de oxigênio para suprir as ambulâncias no estacionamento, porque realmente não há espaço para acomodar os pacientes do lado de dentro (enquanto isso, eles esperam na maca da ambulância, muitos em ventilação mecânica). Toda equipe de saúde está sobrecarregada, seja nos hospitais, nos postos de saúde, no serviço pré-hospitalar. Precisaríamos de muito mais gente trabalhando tanto à beira do leito, como nos bastidores.

No meio desse cenário caótico, realmente não compreendo o tom de chacota da pergunta do título. Não compreendo a naturalização de uma média de 3 mil mortes diárias diretas da doença no país. Por mais que tente ser empática, não consigo achar justificativa para que alguém se recuse a enxergar que todo mundo que precise do sistema de saúde está sendo afetado neste momento. Seja para tratar Covid ou qualquer outra situação.

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