Erro na fábrica causa perda de até 15 milhões de doses de vacinas da Johnson & Johnson

Por falha humana, foram misturados ingredientes da AstraZeneca com imunizante da Janssen; problema foi descoberto antes de doses deixarem a fábrica

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Sharon Lafraniere Noah Weiland
Washington | The New York Times

Trabalhadores em uma fábrica em Baltimore que fabricava duas vacinas contra o coronavírus acidentalmente misturaram os ingredientes várias semanas atrás, contaminando até 15 milhões de doses da vacina da Johnson & Johnson e forçando os reguladores a atrasar a autorização das linhas de produção da planta.

A planta é administrada pela Emergent BioSolutions, um parceiro de fabricação da Johnson & Johnson e da AstraZeneca, a empresa sueco-britânica cuja vacina ainda não foi autorizada para uso nos Estados Unidos, mas já tem autorização e está em uso no Brasil. A vacina da Janssen, que é o braço farmacêutico da Johnson & Johnson, também foi aprovada para uso emergencial no Brasil.

As autoridades federais americanas atribuíram o problema a um erro humano.

A confusão atrasou futuras entregas de doses da Johnson & Johnson nos Estados Unidos. A FDA (Food and Drug Administration) investiga o que ocorrido. A Johnson & Johnson decidiu fortalecer a supervisão sobre o trabalho da Emergent BioSolutions para evitar novos problemas.

Frascos e seringas de vacinas da Johnson & Johnson
Erro na produção foi descoberto antes que doses deixassem a fábrica - Justin Tallis/AFP

O erro é um grande constrangimento tanto para a Johnson & Johnson, cuja vacina de dose única foi creditada por acelerar o programa nacional de imunização, quanto para a Emergent, sua subcontratada, que enfrentou duras críticas por seu forte lobby por contratos federais, especialmente para o estoque de saúde de emergência do governo.

O erro, contudo, não afeta as doses da Johnson & Johnson que estão sendo entregues e usadas em todo o país, incluindo as remessas que os estados estão contando na próxima semana. Todas essas doses foram produzidas na Holanda, onde as operações foram totalmente aprovadas pelos reguladores federais.

Outras remessas da vacina da Johnson & Johnson —projetadas para um total de dezenas de milhões de doses no próximo mês— deveriam vir de uma fábrica gigante em Baltimore. Essas entregas agora são questionadas enquanto os problemas de controle de qualidade são resolvidos, de acordo com fontes próximas ao assunto.

As autoridades federais ainda esperam ter doses suficientes dos três fabricantes de vacinas contra a Covid aprovados no país para cumprir o compromisso do presidente democrata Joe Biden de fornecer imunizante suficiente para vacinar todos os adultos até o final de maio. Os outros dois fabricantes autorizados pelo governo federal, a Pfizer-BioNTech e a Moderna, continuam a entregar conforme o esperado.

A Pfizer está enviando suas doses antes do previsto e a Moderna está prestes a obter a aprovação para entregar frascos de vacina embalados com até 15 doses em vez de 10, reforçando ainda mais o estoque americano.

Os problemas surgiram em uma nova fábrica que o governo federal incluiu no ano passado para produzir vacinas da Johnson & Johnson e da AstraZeneca.

Em menos de um ano, a Emergent contratou e treinou centenas de novos trabalhadores para produzir milhões de doses das duas vacinas que deveriam estar prontas no momento em que os testes clínicos mostrassem se realmente funcionavam. No final de fevereiro, um ou mais trabalhadores de alguma forma confundiram um ingrediente-chave para a vacina da AstraZeneca com a da Johnson & Johnson, levantando questões sobre treinamento e supervisão.

A produção de vacinas é uma ciência notoriamente inconstante e muitas vezes se espera que ocorram erros e que lotes sejam perdidos. Mas o erro da Emergent não foi descoberto por dias, até que as verificações de controle de qualidade da Johnson & Johnson o encontraram, de acordo com pessoas próximas à situação. Até então, cerca de 15 milhões de doses haviam sido contaminadas.

Nenhuma das doses chegou a sair da planta e o lote foi colocado em quarentena. Não há indicação de que a produção da vacina da AstraZeneca tenha sido afetada.

A Johnson & Johnson relatou o acidente aos reguladores federais, que então iniciaram uma investigação que atrasou a autorização das linhas de produção daquela planta. A empresa aumentou o número de membros de sua própria equipe que monitoram o trabalho da Emergent e instituiu uma variedade de novas verificações destinadas a prevenir novos problemas.

Um outro atraso na fabricação de vacinas já fez com que a Johnson & Johnson não cumprisse seus compromissos com o governo federal, mas a empresa parecia no caminho certo para cumpri-los. Ela entregou 20 milhões de doses até o final de março e se comprometeu a entregar cerca de outras 75 milhões de doses até o final de maio.

Funcionários da Casa Branca limitaram suas projeções em telefonema com os governadores na terça-feira, considerando as entregas da Pfizer e da Moderna, mas avisando que as remessas da Johnson & Johnson poderiam ter flutuações.

Em um comunicado na quarta-feira, a empresa disse que espera que as medidas que está tomando agora com o Emergent permitam a entrega de 24 milhões de doses até o final de abril, aproximadamente o que o governo Biden esperava. Mas isso ainda dependerá dos reguladores da FDA.

A agência liberou na semana passada uma instalação de engarrafamento que a Johnson & Johnson usa em Indiana, permitindo a entrega de mais doses feitas na Holanda. Mas essa instalação não pode enviar doses produzidas na planta da Emergent até que a FDA dê autorização.

Quase 7 milhões de doses da vacina foram entregues até agora, e cerca de metade delas já foram usadas, de acordo com o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA).

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