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Coronavírus Trincheira Covid

Gratidão por resistir até aqui

Dividir minha experiência no front me nutriu para seguir adiante, diz médica ao encerrar série de textos

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Fernanda Wendel

Médica com residência de Medicina de Família e Comunidade, atua como socorrista do Samu e em pronto-socorro de São Paulo

São Paulo

Numa noite de folga (os dias inteiros livres têm sido raridade), participei de um lindo experimento teatral do grupo Magiluth. Palco virtual, plateia individual e à distância. O telefone toca para iniciarmos a peça.

- Fernanda, há um ano você pensava que estaríamos nesta situação?

- Achava que nem chegaria até aqui. Achava que estaria morta.

Ator sentado em sua varanda encena peça pelo computador
Grupo Magiluth, do Recife, cria peça em confinamento - Wellingthon Gomes

Eu mesma me surpreendi com a resposta, quase bruta. Talvez até aquele momento eu não tivesse encarado medos monstruosos que me habitam. A necessidade de me manter forte para encarar a luta diária, acolher a dor do outro, suar a camisa na disputa constante com a morte acobertaram por todo este tempo o meu pavor de mudar de lado do balcão e estar no papel de paciente. O temor se expressou de formas mais inconscientes, num ano que foi uma verdadeira montanha-russa emocional.

Tive crises de ansiedade. Despertei várias noites com o coração acelerado, a respiração rápida e curta, como se nem todo ar do universo me fosse suficiente. Estava sufocada. Como meus pacientes. Sem saber, estava trazendo para o meu corpo a agonia dos corpos que cuidava.

Isso tem melhorado muito nas últimas semanas. Pedi ajuda a uma psicóloga, que tem sido essencial para me fazer seguir em frente. E, desde que esta série de textos começou a ser publicada, tenho recebido tanta força e carinho que nem imaginava ser possível. A sensação de estar acolhida por uma rede alimentou minha alma como nunca havia experimentado. Leitores com uma generosidade infinita, que me presenteiam com palavras de tanta gentileza. Estou cheia de esperanças.

Concretamente porque, aos poucos, tenho a percepção de que os casos vão diminuindo. Já vemos menos idosos nos hospitais sendo tratados da Covid. Não consigo comprovar isso cientificamente aqui, mas suspeito fortemente da hipótese de que a vacina está começando a trazer resultados e protegendo as populações que já a receberam. Seguimos com muitos adultos e jovens internados em estado grave. Mas me agarro à expectativa de que eles também estejam amparados pela vacina em breve.

No aspecto mais abstrato, acho (ou pelo menos espero) que o negacionismo relativo à doença também começa lenta e tardiamente a perder espaço. Turbas barulhentas descoladas da realidade estão encontrando obstáculos em vozes mais unificadas, que trazem foco para a luz da ciência. Individualmente é muito intimidante ter de enfrentar as massas fanáticas, que berram uma mistura de achismos com delírios mágicos. Porém, em sincronia e união, o combate às trevas é possível de ser vencido. No trabalho de formiguinha, passo a passo, avançando o terreno, informando e conscientizando quem ainda se respalda em factoides fantasiosos.

Dividir minha experiência no front com vocês me nutriu muito para seguir adiante. O peso se torna mais leve quando sabemos que tem mais gente ao nosso lado. Fica registrada minha gratidão imensa pela companhia neste caminho duro (que ainda tem muito a ser percorrido). Obrigada!

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