Descrição de chapéu Coronavírus

O que se sabe sobre a vacina da Oxford contra Covid-19 e o que ainda é incerto

Uso do imunizante foi suspenso temporariamente na Europa; OMS, agência europeia e produtora reafirmaram segurança e eficácia

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São Paulo

A vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca foi uma das pioneiras na corrida por um imunizante contra a Covid-19.

Com os testes em humanos iniciados em abril de 2020, a vacina mostrou níveis satisfatórios de segurança e imunogenicidade em mais de mil pessoas já nas fases 1 e 2. Nos ensaios pré-clínicos (animais), ela conseguiu impedir a pneumonia em macacos rhesus infectados com o coronavírus.

Diante disso, já em julho de 2020, começaram os testes da terceira e última fase da vacina no Reino Unido, no Brasil e na África do Sul. Em agosto, o pedido para a realização de testes nos Estados Unidos foi protocolado e os voluntários começaram a ser recrutados.

Com a publicação dos primeiros resultados de segurança, a vacina de Oxford estava com uma boa vantagem sobre as demais candidatas ocidentais. Além disso, os acordos firmados com dezenas de países, incluindo aqueles de média e baixa renda, colocaram a Oxford/AstraZeneca como principal fornecedora de vacinas em todo o mundo, quando se tornassem disponíveis.

No entanto, erros de comunicação e a condução de diferentes ensaios, com análises distintas de eficácia do imunizante, suscitaram dúvidas, eficácia, assim como a interrupção temporária de seu uso em países europeus.

Veja o que se sabe até agora e o que os cientistas ainda estão buscando saber sobre a vacina da Oxford.

A vacina é segura?
Sim. Houve relatos de efeitos colaterais que poderiam estar ligados ao uso desse imunizante na população, mas a relação não foi comprovada.

No Brasil, a ocorrência de efeitos adversos graves nos vacinados corresponde a 0,007%, segundo dados do Ministério da Saúde, considerando ainda as duas vacinas aplicadas, a Coronavac e a Oxford/AstraZeneca. A vacina tem se mostrado segura e os efeitos mais comuns reportados são dores de cabeça e no corpo e fadiga.

Em comparação com outras vacinas com tecnologias mais modernas contra Covid-19, como as da Pfizer/BioNTech e da Moderna, a vacina da Oxford apresentou uma alta incidência de efeitos colaterais nos ensaios clínicos (mais de 70% no grupo vacinado), embora nenhum efeito adverso grave tenha sido notado.

O uso de um adenovírus modificado de chimpanzé como vetor viral para levar ao corpo a proteína S do Spike (a espícula usada pelo vírus para entrar nas células) do coronavírus pode estar associado a essa maior incidência de efeitos colaterais.

Em março, o comitê científico de monitoramento da vacina da União Europeia reportou casos de trombose venosa profunda em indivíduos vacinados com o imunizante da Oxford em diversos países europeus. O número de casos era muito pequeno para comprovar uma associação clara com a vacina, mas as autoridades de saúde de 21 países decidiram suspender temporariamente o uso até que esses dados fossem estudados, mesmo com a contraindicação da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da agência regulatória europeia (EMA) de suspender o uso.

A trombose é uma doença que leva à formação de coágulos geralmente nas veias das pernas ou da pelve. A incidência na população geral, de acordo com dados dos EUA, é de 1 a 2 pessoas em cada 1.000. Em cerca de 20 milhões de vacinados com a vacina da Oxford na Europa, foram notificados sete casos de coágulos em vasos sanguíneos e 18 casos de coágulos nos vasos do cérebro.

Assim, concluiu-se que o imunizante não está associado a um aumento do risco geral de coágulos sanguíneos nas pessoas vacinadas, e tampouco foi possível comprovar que a vacina tenha provocado os casos. A aplicação da vacina foi retomada em 19 dos 21 países europeus na última semana.

Na última terça-feira (30), a Alemanha suspendeu o uso da vacina da Oxford em pessoas com até 59 anos devido aos novos relatos de acidentes vasculares "raros, mas graves".

Quão eficaz é a vacina?
Em novembro de 2020, a AstraZeneca divulgou uma eficácia de até 90% de seu imunizante. No entanto, a análise esmiuçada dos dados da vacina mostrava que a taxa de 90% foi atingida em um esquema de uma dose inicial mais baixa (correspondendo à metade da dose total), seguida por uma segunda dose completa 30 dias depois.

Já nos participantes que receberam o esquema normal da vacina —ou seja, duas doses completas, com 30 dias de diferença—, a taxa verificada era de 62%. Assim, de acordo com a empresa, a eficácia correta seria uma “média” desses dois valores, de 70%.

Após questionamentos, a farmacêutica admitiu que houve um erro na dosagem de alguns participantes e que a eficácia verificada de 90% correspondia a um subgrupo de 1.300 participantes no Reino Unido.

Um artigo publicado em dezembro na revista científica The Lancet confirmou a eficácia de 70% da vacina, mas apenas em indivíduos com menos de 55 anos. Os dados para pessoas acima dessa idade não eram suficientes para calcular uma eficácia. Apesar disso, o imunizante apresentou uma boa resposta imune, inclusive celular, era seguro e induzia resposta imune em todas as faixas etárias.

Especialistas criticaram a divulgação de uma eficácia considerando estudos feitos em diferentes países, e a Oxford reconduziu os testes da vacina Covishield, desenvolvida em parceria com o Instituto Serum na Índia, confirmando não só a proteção de quase 70% da vacina contra a infecção mas também eficácia próxima a 82% quando o intervalo entre as duas doses era ampliado para 12 semanas, e não quatro como inicialmente proposto.

Na segunda-feira (22), a farmacêutica divulgou uma nova taxa de eficácia de 79% a partir de estudos feitos nos EUA, Peru e Chile. No dia seguinte ao anúncio, porém, um comitê externo de monitoramento de dados (DSMB, na sigla em inglês) norte-americano questionou o valor encontrado e se disse preocupado com o o fato de o laboratório escolher dados desatualizados de casos para apresentar o melhor resultado de eficácia. Em uma análise interna do comitê, a eficácia da vacina era de 76%.

A AstraZeneca admitiu ter usado dados só até o dia 17 de fevereiro e confirmou a eficácia menor dois dias depois, mas reforçou a proteção do imunizante de 100% para prevenir casos graves e internação.

O que se sabe sobre o uso da vacina em idosos?
Nos primeiros estudos de fase 3 conduzidos, o número de participantes com idade acima de 65 anos era muito baixo, o que não permitia aferir sua eficácia nessa faixa etária.

Com o início da vacinação no mundo e com poucas vacinas chegando ao final de seus ensaios clínicos, o imunizante da Oxford passou a ser usado amplamente na população, inclusive naquela acima de 65 anos. Mas, diante da falta de dados, alguns países europeus decidiram suspender o seu uso nessa faixa etária.

Cientistas e autoridades de saúde de todo o mundo disseram que os problemas de não aplicar a vacina, com o recrudescimento da Covid-19 e as novas variantes mais transmissíveis surgindo no Brasil e no mundo, seriam maiores do que eventuais faltas de dados da vacina nessa população e que os ensaios clínicos mostraram que a vacina é segura.

Nos novos estudos conduzidos nos EUA, Peru e Chile, os resultados preliminares indicaram uma proteção acima de 80% contra casos sintomáticos da Covid-19 em pessoas com mais de 65 anos.

Entre os países europeus que ainda não retomaram o uso da vacina em idosos estão a Bélgica e Portugal. A França voltou atrás e aprovou o uso em pessoas acima de 65 anos.

Quais países já autorizaram o uso da vacina?
A vacina da Oxford recebeu, em dezembro de 2020, autorização para uso emergencial no Reino Unido e, em janeiro, a Anvisa aprovou o uso do imunizante no Brasil. Alguns dias depois, a agência regulatória europeia também aprovou seu uso emergencial na União Europeia.

A Índia aprovou o uso da Covishield, vacina da AstraZeneca e do Instituto Serum indiano, no início do ano. África do Sul, Canadá, e a própria OMS também aprovaram a vacina da Oxford. A FDA, agência regulatória norte-americana, deve concluir a análise dos dados dos testes e aprovar o uso emergencial do imunizante no país nas próximas semanas.

E como a vacina se comporta contra as novas variantes?
Com os novos estudos reconduzidos pela Oxford/AstraZeneca no Reino Unido e na África do Sul, a vacina se mostrou eficaz contra a variante do Reino Unido (a B.1.1.7), mas, na África do Sul, um ensaio clínico com poucos participantes, a maioria infectado com a variante sul-africana B.1.351, mostrou que a vacina não teve eficácia contra a nova cepa.

Dados ainda preliminares de um estudo feito pela Fiocruz em laboratório com soros de indivíduos vacinados mostram que há potencial da vacina de proteção contra a variante P.1, mas ainda é preciso fazer testes na população.

Como esses episódios afetam a confiança na vacina?
Na Europa, os episódios de interrupções e retomadas da aplicação da vacina prejudicaram a confiança no imunizante. Segundo uma pesquisa conduzida pelo instituto YouGov, com 8.000 pessoas dos principais países do bloco europeu entre os dias 12 e 18 de março, 61% dos franceses e 55% dos alemães consideram a vacina não segura e 27% dos portugueses e italianos não confiam na vacina da Oxford.

Para a epidemiologista e vice-presidente do Instituto Sabin, Denise Garrett, as falhas na comunicação dos resultados podem ser atribuídas tanto a erros de condução de ensaios clínicos, em relação à análise combinada de estudos em diferentes países e à escolha de dados mais favoráveis, quanto ao amadorismo na comunicação por parte da empresa.

A médica ressalta, no entanto, o papel dos comitês de avaliação externos. “Temis a confiança em um comitê de especialistas externo, autônomo e sem conflitos de interesse com a companhia, para a supervisão dos dados e justamente apontar essas falhas.”

Ainda em relação aos eventos tromboembólicos, Garrett diz que o papel das agências regulatórias, que investigaram o problema, é fundamental para garantir a credibilidade das vacinas. Ela afirma que apesar de raros, os eventos podem ocorrer e que mesmo assim os riscos superam os benefícios.

“É importante fazer a análise profunda de qualquer caso e monitorar os eventos, mas os eventos continuam, como tem pessoas que vão sofrer ataques cardíacos, há aqueles que vão desenvolver trombose. ”, diz.

Qual a relevância da vacina da Oxford para a imunização em todo o mundo?
Apesar de todos os percalços, a vacina da Oxford/AstraZeneca continua sendo a melhor opção para países de baixa e média renda, por dois motivos principais: seu baixo custo (preço unitário da dose entre US$ 3 e US$ 4, cerca de R$ 17 a R$ 23, bem menos do que o preço de US$ 20 da Pfizer ou US$ 37 da Moderna, ou R$ 112 e R$ 214, respectivamente) e o seu armazenamento a temperaturas de 2˚ a 8˚C, de refrigerador comum.

Já foram aplicados pelo menos 20 milhões de doses da AstraZeneca no Reino Unido e União Europeia, e mais de 27 milhões na Índia da Covishield. No Brasil, o governo federal prevê a entrega de 100,4 milhões de doses da vacina até o final do primeiro semestre e mais 100 milhões até o final do ano.

A Oxford/AstraZeneca também é uma parte importante das vacinas oferecidas pelo consórcio Covax Facility, da OMS, e deve impulsionar a vacinação em países africanos, asiáticos e da América Latina dependentes das doses do consórcio.

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