Descrição de chapéu Coronavírus

Profissionais de saúde de Chapecó discordam de prefeito que gravou vídeo otimista sobre Covid

Médicos e enfermeiros da linha de frente avaliam cenário como crítico e alertam para possível novo pico

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Katna Baran Hygino Vasconcellos
Curitiba e Chapecó

A situação "positiva" de Chapecó (SC) no combate ao coronavírus, divulgada em vídeo no domingo (8) pelo prefeito João Rodrigues (PSD), não é a mesma compartilhada por profissionais de saúde que atuam na linha de frente da Covid-19. Para eles, o cenário ainda é crítico e pode voltar a piorar.

Na metade de fevereiro, o sistema de saúde local entrou em colapso e mais de 170 pessoas chegaram a aguardar na lista de espera de UTIs, já que os hospitais estavam superlotados. A situação fez com que cinco pacientes fossem transferidos para o Espírito Santo. Em 1º de março, havia 4.831 pessoas sendo monitoradas por conta da doença no município.

Nesta segunda (7), o número de casos ativos em Chapecó caiu 87,4%, passando para 606. Porém, as UTIs continuam operando no limite. No HRO (Hospital Regional do Oeste) a ocupação é de 96,06%, com 122 dos 127 leitos preenchidos, segundo acompanhamento do governo estadual. Já a lista de espera de leitos foi zerada na região oeste de Santa Catarina.

O médico Robson Alexandre Vieira de Souza acompanhou de perto o pior momento da pandemia na cidade, ao trabalhar como socorrista no Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) em Chapecó.

No final de fevereiro, ele esteve no comboio de ambulâncias que atravessou o estado levando pacientes com Covid para onde havia leitos. Agora, ele atua na linha de frente em um hospital na cidade vizinha de Maravilha.

Leitos de pacientes com Covid-19 no Centro de Eventos de Chapecó, no início de março de 2021 - Ministério Público Federal/Reprodução

"Hoje, estamos em situação grave controlada. No final de fevereiro, estávamos em situação grave, mas sem controle. Ainda estamos em estado crítico", observou o médico. No "boom" de casos, lembra ele, havia 380 internados com Covid na cidade, o que corresponde ao total de leitos necessários para atender toda a região oeste.

Souza, que também é presidente do Simesc (Sindicato Médico de Santa Catarina) em Chapecó, não descarta um novo pico da pandemia no município.

"Se a população facilitar, isso pode acontecer. Na metade de fevereiro, a população não se cuidou e teve número excessivo de pacientes e evoluindo muito mal, rapidamente. Hoje o que funciona é vacina, isolamento social e cuidados com a higiene", avaliou.

A enfermeira e professora aposentada Maria Elisabeth Kleba concorda. Conselheira do Coren-SC (Conselho Regional de Enfermagem de Santa Catarina), ela recebe diariamente relatos de colegas da linha de frente.

Ao monitorar os dados divulgados pela prefeitura, Kleba percebeu que 78% dos óbitos registrados na cidade ocorreram entre 1º de fevereiro e 6 de abril – foram 403 óbitos no período, contra 541 desde o início da pandemia até 31 de janeiro.

"Ainda temos um número significativo de pessoas na UTI. Por isso, entendo que a situação ainda está muito preocupante. Não é só a questão de ter número de leitos suficiente, mas os profissionais estão no pico da exaustão. Tu imagina a condição psicológica e física dessas pessoas? Hoje, em Santa Catarina, onze profissionais morreram de Covid, a maioria foi nessa época", explicou.

Uma médica do hospital privado da cidade, que pediu para não ser identificada, reconheceu que houve diminuição nas internações em leitos clínicos, o que não foi seguido na UTI. "A enfermaria está mais folgada, mas a UTI ainda tem 100% de leitos ocupados."

Já uma enfermeira de um dos ambulatórios de campanha, onde a população recebe o primeiro atendimento, afirmou que a procura nas últimas duas semanas está no mesmo patamar de antes da explosão de internações. A profissional também pediu para não ser identificada.

Em entrevista à Folha, o prefeito João Rodrigues reiterou sua declaração de que houve redução a quase zero nas internações e classificou a situação atual como "satisfatória".

O prefeito de Chapecó João Rodrigues (PSD), que defende o uso do chamado "tratamento precoce", contra a Covid-19 - Tarla Wolski/Futura Press/Folhapress

"Saímos de 30 dias do caos para uma calmaria vigiada. Eu não diria que isso aqui é o melhor dos mundos, mas é melhor se comparado com que tínhamos há 30 dias."

A reportagem observou a Rodrigues que, segundo o boletim da própria prefeitura de segunda-feira, havia 187 pessoas internadas internadas nos dois hospitais - 121 em UTI, 63 em enfermaria e três em outros setores.

Rodrigues respondeu que os dados estavam errados pois estariam contabilizando pacientes que não são de Chapecó, já que o hospital é regional.

Após a conversa, a assessoria de imprensa da prefeitura revisou o dado para 123 hospitalizados no HRO, sendo 82 de Chapecó. Já no hospital particular havia 30 pacientes internados por Covid –oito a menos em relação ao boletim divulgado pela manhã. Desses, 14 são de Chapecó, segundo a prefeitura.

No vídeo divulgado no domingo, Rodrigues atribui a redução nos números a uma série de fatores, entre eles o tratamento precoce, que não tem eficácia contra a Covid-19. Porém, os dados mostram que a redução nas taxas ocorreu após o lockdown realizado entre 22 de fevereiro e 8 de março.

O prefeito nega que tenha havido um lockdown na cidade, e sim uma "paralisação parcial".

"Não houve lockdown pois havia 40 mil pessoas trabalhando [a cidade tem cerca de 224 mil habitantes]. Nós paralisamos atividades, não tivemos aulas, mas o transporte público seguiu funcionando, a agroindústria e a indústria metal-mecânica continuaram funcionando", disse.

Em seguida, negou que a medida tenha contribuído para a queda nos indicadores. "O lockdown não resolveu em nada. Só parou parcialmente a cidade."

A reportagem tentou contato com os dois hospitais –o HRO e o da Unimed–, que informaram que não iriam se manifestar. As duas unidades salientaram que seguem orientação de centralizar as informações da Covid na prefeitura.

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