Descrição de chapéu Coronavírus STF

Templo oferece saúde espiritual, e direito a culto é constitucional, diz líder da Bola de Neve

Para apóstolo Rina, igrejas sérias seguiriam protocolos da Covid e não deveriam ser chamadas de negacionistas

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Rio de Janeiro

O STF (Supremo Tribunal Federal) abriu um perigoso precedente quando mandou às favas o artigo 5º da Constituição, que preserva a liberdade religiosa, e deu sinal verde para que estados e municípios barrem atividades religiosas presenciais na pandemia, diz Rinaldo Seixas Pereira, o apóstolo Rina.

Fundador da Bola de Neve, igreja que tem como marca uma prancha de surfe no púlpito, ele afirma que líderes religiosos sérios não se recusam a seguir o protocolo sanitário contra a Covid-19, então não faria sentido tachá-los de negacionistas.

Rina questiona qual seria a diferença entre uma igreja que ofereça "saúde espiritual em tempos de desesperança" e entrevistas dadas por governadores sobre a crise do coronavírus, com "muito mais aglomeração do que veríamos em qualquer templo religioso".

Rinaldo Luiz de Seixas Pereira veste camisa escura de manga arregaçada. Ele parece estar em um púlpito, falando para os fiéis (que não aparecem na imagem). Segura o microfone na mão direita e olha para algo que parece estar lendo. Uma luz refletida faz um efeito especial na foto, que tem fundo preto
O apóstolo Rina em foto em sua página no Instagram - Reprodução/Instagram

Pastor alinhado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), ele conversou com a Folha na segunda (12), quando o Brasil acumulava mais de 350 mil vítimas da doença.

O STF decidiu que governadores e prefeitos podem fechar templos na pandemia. O que acha disso?
É interessante como esse debate tem sido conduzido. De repente, líderes religiosos estão no centro da discussão, com claro objetivo de tachá-los de negacionistas, como se em algum momento eles tivessem se negado a cumprir as medidas restritivas.

Agora, uma coisa é uma ação coordenada com o governo, seja ele federal, estadual ou municipal. Outra, absurdamente diferente, é o fechamento compulsório de templos, impedindo o livre exercício da fé, o que é totalmente inconstitucional. Numa democracia, tem que haver garantias de liberdade religiosa.

A pauta não é sobre não contribuir com o combate à pandemia. A Constituição é específica ao afirmar ser “inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos". Ainda assim, o STF julgou esse direito violável. Que precedentes são abertos quando aqueles que deveriam ser os guardiões da Constituição a desconsideram, sem ao menos comprovação científica de que o fechamento dos templos religiosos reduzem os riscos de contaminação?

A maioria dos cientistas compreende que reduz.
Que diferença há entre os cultos que respeitam todas as normas de restrição e a movimentação que se tem em supermercados, no dia a dia de empresas e serviços essenciais, nos lotadíssimos ônibus e metrôs? Foram cerceados os direitos dos partidos políticos ou dos sindicatos se reunirem? Em quantas entrevistas dadas pelos governadores vemos muito mais aglomeração do que veríamos em qualquer templo?

Por que a discussão não considerou a já comprovada importância da fé para tempos de desesperança? Por que se desprezou as obras humanitárias realizadas pelas igrejas, que chegam onde o Estado não chega? E se os templos serão fechados, por quanto tempo?

Epidemiologistas dizem que, mesmo seguindo o protocolo sanitário, reunir-se num templo fechado é arriscado.
É uma doença nova, os epidemiologistas divergem entre si. Ninguém tem certeza do que está dizendo, ou a pandemia já estaria controlada. O governador de Nova York declarou que estranhamente 70% das pessoas que pegaram Covid no estado se contaminaram em casa [em maio de 2020, o democrata Andrew Cuomo afirmou que 66% dos hospitalizados diziam ficar em casa quase sempre].

Ainda que a opinião deles representasse uma verdade absoluta, um culto que respeita limite de ocupação, uso de máscaras e álcool em gel, distanciamento entre os assentos, seria esse um ambiente mais arriscado do que supermercados, bancos, aviões?

A ministra Carmen Lúcia disse que seria até falta de fé manter um templo funcionando nesta fase da pandemia.
Com o respeito que lhe é devido, o que a ministra entende sobre a fé? Poderia ela ter mais propriedade no assunto do que aqueles que entregaram suas vidas para viver e ensinar a fé? O papel dela não é esse, é garantir que a Constituição, e não opiniões pessoais, seja o fundamento para a tomada de decisões tão importantes como essa.

O senhor acredita que cristãos precisam se reunir presencialmente para cultuar Deus?
Mais importante do que minha opinião é o que a própria Bíblia diz sobre o assunto. O cristianismo é talvez a única religião do mundo em que, além de olhar para o alto, você precisa olhar para os lados. Além de comunhão com Deus, você precisa de comunhão com outros cristãos. Além de amar Deus, você precisa amar o próximo.

É possível adorar Deus mesmo sem ir à igreja?
É possível cultuar Deus em quaisquer lugar e situação. Porém, congregar é uma das disciplinas para se garantir saúde espiritual. A igreja é tão importante para cristãos como as sinagogas para judeus e as mesquitas para muçulmanos.

Como a Bola de Neve está tocando atividades religiosas na pandemia?
Estamos transmitindo as pregações online, fazendo as células [encontro nos lares] e as reuniões menores pelo Zoom. A igreja como um todo precisou se flexibilizar para se adaptar à nova realidade.

O reverendo Augustus Nicodemus Lopes disse que muitas igrejas não querem fechar por temer queda nos dízimos. Vê isso?
Nicodemus sabe que as igrejas, como qualquer outra instituição, podem receber suas doações até por aplicativos. Não há necessidade de cultos presencias para haver arrecadação. O que me parece é que ele esqueceu a ética e aproveitou a oportunidade para fazer o que já faz há muitos anos: atacar aqueles que pensam teologicamente diferente, principalmente pentecostais e neopentecostais, como se fossem um subproduto do Evangelho, e ele, um guardião da verdade. Infelizmente, sobrou prepotência, faltou humildade e senso de unidade.

O pastor Antonio Carlos Costa disse que é infantilismo espiritual defender cultos presenciais no auge da crise.
Como poderia uma disciplina essencial para ajudar tantos que perderam fonte de renda, entes queridos, perspectiva de futuro, e que se sentem depressivos, ser um infantilismo espiritual? Diria a esse colega que os momentos de crise são quando os pastores fazem a diferença na vida das ovelhas. Convidaria-o a dar uma volta na cracolândia, para entender as reais mazelas da sociedade. Diria a ele que preferiria também usar as restrições para ficar em casa assistindo à Netflix, mas minha vocação não me permite.

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