Descrição de chapéu Coronavírus

É seguro se vacinar com imunizantes diferentes? A ciência ainda não sabe responder

Falta de doses, passaporte da vacina e desejo por imunizantes mais eficazes levam à mistura vacinal, mas dados sobre segurança e proteção são quase inexistentes

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São Paulo

Com a chegada das primeiras doses da vacina da Pfizer/BioNTech no país, cresce a procura dos brasileiros, mesmo os já completamente vacinados, por uma dose do imunizante.

Entre os principais motivos estão a taxa mais alta de eficácia do imunizante e o chamado “passaporte da vacina”, que permitirá aos viajantes entrar nos países da Europa ou nos Estados Unidos —a Coronavac ainda não teve seu uso emergencial avaliado pelas agências sanitárias desses destinos.

Além disso, diante da escassez de doses da Coronavac, sem insumos para ser fabricada no país nos próximos dias, podem surgir dúvidas: posso tomar a segunda dose de uma vacina diferente? Ou, ainda, devo me imunizar novamente com outra vacina?

Cartaz informando que posto de vacinação contra a Covid-19 na avenida Dr. Arnaldo, no Sumaré, na zona oeste de São Paulo, não tinha vacinas da Pfizer - Rubens Cavallari - 7.mai.21/Folhapress

A Folha buscou especialistas e informações dos órgãos oficiais de saúde sobre a chamada mistura vacinal.

Primeiro, é preciso considerar a combinação de tecnologias distintas em estudos controlados e randomizados.

Embora no Brasil tenham sido administradas doses de vacinas diferentes em mais de 16 mil pessoas —as duas vacinas misturadas no regime de imunização foram a Oxford/AstraZeneca e a Coronavac—, esses casos foram registrados como erros. O Ministério da Saúde informou que cabe aos estados e municípios onde ocorreram as notificações acompanhar e monitorar possíveis eventos adversos.

Tampouco há informações na literatura científica sobre o uso dessas duas vacinas, uma composta a partir do vírus inativado (Coronavac) e outra contendo um adenovírus modificado de chimpanzé com a informação genética do Sars-CoV-2 e incapaz de se replicar no organismo (AstraZeneca).

Para a imunologista Cristina Bonorino, se existe uma escassez de doses e a necessidade em aplicar vacinas diferentes nos brasileiros é preciso uma pesquisa por parte do Ministério da Saúde. Por serem tecnologias diferentes, "uma não vale como reforço da outra", explica. "Se existir alguma intercambialidade precisa ser estudado."

Porém, mesmo plataformas semelhantes podem funcionar na teoria, e não na prática, diz ela. Vacinas que contêm a proteína S, como a Sputnik V e a da Janssen, por exemplo, poderiam ser uma mistura válida em termos de desenho do estudo. "Mas além do estudo existe um protocolo para aplicar em humanos e não recomendamos o uso sem que haja dados”, afirma.

Ela lembra ainda que as vacinas podem conter na formulação substâncias que gerem incompatibilidade entre a primeira dose e a de reforço.

Na última quinta (13) foram divulgados resultados preliminares do estudo Com-COV, feito no Reino Unido. Nele, 830 participantes receberam a primeira dose da AstraZeneca e a segunda da Pfizer ou vice-versa, e os dados apontaram uma maior incidência de efeitos colaterais após a segunda dose.

A maior reação adversa veio quando a vacina da Oxford/AstraZeneca era usada como reforço após a imunização com a Pfizer: 47 (41%) de 114 pessoas reportaram febre. No caso oposto, com Pfizer como segunda dose, foram 37 (34%) de 110 indivíduos a ter o efeito.

Em ambos os esquemas mistos de vacinação, a taxa de efeitos adversos sistêmicos e locais esperados —como dor no corpo, fadiga, calafrios, febre e dor de cabeça— foi maior do que quando as duas doses eram da mesma farmacêutica (aumento de 21% a 24%). Não foi reportado nenhum efeito adverso grave até sete dias após a segunda dose.

Embora os dados apontem para a maior incidência de efeitos colaterais com a mistura, eles não bastam para avaliar a segurança da vacina em um intervalo maior do que o observado. Mas os autores do estudo alertam para uma possível desvantagem na mistura vacinal.

Resultados sobre a resposta imune gerada após a vacinação mista devem ser apresentados em breve.

Além do teste da Oxford/AstraZeneca com a Pfizer, existe também o registro de um estudo clínico para avaliar a segurança e imunogenicidade ao combinar a vacina britânica com a russa Sputnik V, com previsão de conclusão até outubro de 2021.

A China também busca a combinação de duas de suas vacinas, Coronavac e Sinopharm, para aumentar a eficácia na proteção.

Por mais incompletos que sejam os dados sobre o esquema vacinal misto, especialistas e autoridades de saúde no mundo têm debatido a possibilidade de fazer a combinação.

No Brasil, devido à suspensão temporária da vacina AstraZeneca em gestantes e puérperas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), alguns médicos têm sugerido que as grávidas com o esquema vacinal incompleto recebam a segunda dose da Coronavac ou Pfizer.

Renato Kfouri, pediatra e presidente do departamento de imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria afirma que, embora os casos de coágulos na Europa tenham ocorrido após a primeira dose, pode ser sugerida uma troca da vacina.

“Na minha opinião o mais prudente seria aplicar a segunda dose de outra vacina, mesmo ainda sem evidências científicas a respeito da mistura de fabricantes diferentes.”

Essa decisão seria baseada no fato de que a chance de desenvolver complicações e morrer por Covid é maior do que a ocorrência de efeitos colaterais. No entanto, mesmo o estudo que gerou dados da mistura da Pfizer com AstraZeneca não envolveu grávidas.

Nos Estados Unidos, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) já havia autorizado a mistura das vacinas de mRNA aplicadas no país (Pfizer e Moderna) se, e somente se, não houver a segunda dose da mesma fabricante aplicada num primeiro momento.

Ainda, se nenhuma das vacinas de RNA estiver disponível, a aplicação da vacina da Janssen de dose única poderia ser considerada como reforço, mas o CDC deixou claro que não há estudos de segurança e eficácia da mistura dos dois tipos.

E quanto àqueles que desejem se imunizar com vacinas que são aceitas fora do Brasil?

O CDC afirma que qualquer pessoa é considerada como totalmente vacinada nos EUA se tiver recebido as duas doses da Pfizer, Moderna ou a dose única da Janssen.

O país aceita, além das três, as duas outras vacinas aprovadas pela OMS –a de Oxford/AstraZeneca e a chinesa Sinopharm.

Caso a pessoa tenha sido vacinada total ou parcialmente com outra vacina, ela pode ser imunizada em solo americano. Para isso, já há um turismo da vacina, motivado não apenas pela demora no andamento da fila de vacinação no país, mas também como uma possibilidade de viajar num futuro próximo.

A imunologista Cristina Bonorino, no entanto, pondera que as pessoas que optarem viajar para se vacinar após terem recebido as duas doses da Coronavac estão fazendo isso por sua conta em risco.

“Não temos nenhuma informação ainda sobre essa mistura de vacinas. Além disso, a pessoa que tem recurso e pega um avião para se imunizar porque está preocupada se a vacina que recebeu não a protegeu mostra um profundo desconhecimento do processo científico como um todo”, diz.

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