Post distorce entrevista para sugerir que médico Roberto Kalil Filho apoia uso amplo da cloroquina

Tratado com o remédio sem eficácia comprovada contra a Covid, médico atribuiu recuperação à combinação de medicamentos

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São Paulo

É enganoso o post que usa afirmações do cardiologista Roberto Kalil Filho sobre a cloroquina para sugerir que ele apoia o uso indiscriminado do medicamento em casos de Covid. A publicação, que foi feita no ano passado e voltou a circular agora, traz uma fotomontagem com o título alterado de uma reportagem da rádio Jovem Pan. No texto original, a chamada é “Recuperado, Dr. Roberto Kalil revela que tomou hidroxicloroquina e defende uso em casos graves” e, no post, “Recuperado, Dr. Roberto Kalil revela que tomou hidroxicloroquina e defende: ‘Tem que ser utilizada'”.

Na entrevista à Jovem Pan, o médico contava como foi sua recuperação da doença e afirmava ter tomado hidroxicloroquina e outros remédios. Já naquela entrevista o diretor-geral do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês dizia: “Minha opinião é que, independentemente das ideologias, devemos procurar minimizar o dano à população e evitar mortes. Se existe medicação com evidências que pode haver benefícios, aliada a outras medicações, numa situação desta, tem que ser utilizada e pronto. Não tem conversa”. Em nenhum momento ele defende a hidroxicloroquina como a única ou principal responsável por sua recuperação.

Retrato mostra o médico, homem branco, de óculos, de camisa branca com o último botão da camisa branca, o mais acima, aberto; ao fundo, parede de madeiras e quadro com diploma emoldurado (não dá para ler, está distante)
O médico Roberto Kalil Filho, que teve Covid no ano passado - Reinaldo Canato - 11.mai.2018/Folhapress

Em 10 de abril, dois dias depois da entrevista, Kalil afirmou para a Folha que não era “garoto-propaganda de nada” e que seu tratamento incluiu uma combinação de remédios, não apenas a cloroquina.

O post tira as afirmações de Kalil de contexto e utiliza-as um ano depois, quando o conhecimento sobre o uso da cloroquina contra a Covid já está mais avançado. Em outubro de 2020, a OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou que o tratamento é ineficaz e, em março deste ano, passou a contraindicá-lo em casos de Covid. No mesmo mês, quatro das seis fabricantes de cloroquina no Brasil já não recomendavam o remédio contra o coronavírus.

O Comprova tentou falar com Kalil, mas sua equipe informou que ele não poderia responder às perguntas.

Quanto ao autor da postagem no Facebook, a rede social não permitiu o contato direto com o perfil.

Como verificamos?

Buscamos as reportagens da rádio Jovem Pan sobre as declarações do médico Roberto Kalil Filho, e o vídeo completo da entrevista concedida por ele ao veículo, no ano passado.

As assessorias de imprensa do médico e do Hospital Sírio Libanês, onde ele atua profissionalmente, foram procuradas, mas disseram à nossa reportagem que o cardiologista não teria disponibilidade para uma entrevista.

O Comprova não encontrou declarações diretas do cardiologista sobre o uso da hidroxicloroquina em pacientes da Covid-19 após a publicação de diversos estudos que atestam a ineficácia do medicamento nesses casos. Por isso, buscamos em entrevistas e colunas assinadas por ele, em diferentes veículos, declarações recentes que dessem pistas sobre a visão dele sobre o assunto.

Também buscamos os posicionamentos da OMS e de fabricantes da cloroquina e verificações nossas para averiguar o que mudou sobre o conhecimento científico que se havia em maio de 2020 e no mesmo mês deste ano.

Caixa de remédio hidroxicloroquina azul, com uma faixa amarela e uma vermelha, com mulher de camisa branca e máscara ao fundo, desfocada; parece um ambiente de farmácia, com uma prateleira de remédios ao fundo
A cloroquina, e seu derivado, a hidroxicloroquina, não têm eficácia comprovada contra a Covid - Fernando Moreno - 20.mai.2020/AGIF

Por que investigamos?

Em sua 4ª fase, o Comprova verifica conteúdos de redes sociais ligados à pandemia e a ações do governo federal. Priorizamos informações suspeitas que têm grande alcance, como o post analisado nesta checagem.

Embora não tenha eficácia comprovada, a cloroquina vem sendo amplamente defendida pelo presidente e seus apoiadores. Isso pode significar um risco para a população já que as medidas eficazes conhecidas até agora, além da vacina, são o distanciamento social, restrição de circulação, uso de máscaras e higienização das mãos. Só assim o país vai diminuir os índices de contaminação e morte pela doença.

No ano passado, quando o post com Kalil foi publicado, houve 183 mil compartilhamentos no Facebook. Desde 8 de maio de 2021, quando ele voltou a circular, já foram 6,6 mil compartilhamentos e 12 mil interações.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; aquele que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações disponíveis no dia 12 de maio de 2021.

  A investigação desse conteúdo foi feita por Folha e BandNews FM e publicada na quarta-feira (12) pelo Projeto Comprova, coalizão que reúne 28 veículos na checagem de conteúdos sobre coronavírus e políticas públicas. Foi verificada por UOL, Estadão, Correio, SBT e Poder360.

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