É mentira que resultado negativo em teste de anticorpos indique que Coronavac não funciona

Autor não identificado confunde conceitos e métodos de desenvolvimento de vacina, indica remédio sem eficácia para Covid e mente sobre vacina do Butantan

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Circula em grupos de WhatsApp um áudio em que um suposto médico mente ao dizer que eventuais resultados negativos em testes de anticorpos realizados pelos laboratórios do grupo Fleury indicam que a Coronavac não funciona contra o coronavírus.

O próprio grupo Fleury esclarece em nota enviada à Folha que o resultado negativo no exame de pesquisa de anticorpos neutralizantes contra o Sars-CoV-2 não quer dizer que o paciente não tenha apresentado resposta imune.

O Grupo Fleury indica que em 70% dos casos o teste dá positivo em pessoas que se declaram vacinadas, o que deixa, por tabela, 30% de casos de fora desse grupo, de maneira que pode haver um resultado negativo no teste mesmo tendo havido resposta imune do paciente.

Além disso, resultados negativos mesmo em pessoas imunizadas são esperados neste exame. Isso porque o organismo tem imunidade celular, ou seja, mais difícil de se aferir, podendo intervir no teste causando resultados negativos mesmo em pessoas que tiveram resposta imune.

Uma nota técnica da Sociedade Brasileira de Imunizações contraindica a realização de testes de anticorpos, pois “a complexidade da imunidade pós-vacinal ou mesmo após doença natural não corrobora a realização dos testes, pois os resultados não traduzem a situação individual de proteção”, diz o texto.

O Instituto Butantan afirma que resultados obtidos nos testes clínicos de fase 3 realizados no Brasil confirmam a segurança e resposta imune produzida pela vacina em pessoas com mais de 60 anos. “O que sustenta a extensão de indicação de uso do imunizante em idosos, prevista em bula e aprovada pela Anvisa”, diz nota enviada à Folha.

É mentira que a vacina tem baixíssima ‘eficiência’

Um estudo inédito promovido pelo Instituto Butantan na cidade de Serrana, no interior de São Paulo, mostrou que oito semanas após o início da vacinação em massa da população com a Coronavac, o número de mortes por Covid-19 caiu 95%. Foram vacinados (com duas doses) 27.160 adultos de Serrana —95,7% da população com 18 anos ou mais.

A queda significativa no número de mortes foi percebida quando 75% da população adulta recebeu as duas doses da Coronavac. "A queda de casos [sintomáticos] e mortes foi expressiva antes mesmo de termos concluído a aplicação da segunda dose no último grupo, o que nos mostra o efeito da imunidade indireta, ou seja, que uma ampla cobertura vacinal contribui para diminuir a transmissão do vírus", disse Ricardo Palacios, diretor médico de pesquisa clínica do Instituto Butantan à Folha em 31 de maio.

Esse dado corresponde ao conceito de efetividade —como a vacina se sai no mundo real, com variáveis como pessoas imunodeprimidas e com comorbidades, por exemplo.

Além disso, o suposto médico erra ao confundir os conceitos de eficácia, efetividade e eficiência de vacinas.

O dado que usa é, na verdade, da eficácia, ou seja, de quantas pessoas foram imunizadas contra o coronavírus em um estudo controlado sem variáveis externas, e não de eficiência.

A eficiência, erroneamente citada pelo suposto médico, trata do cruzamento entre mundo real (efetividade) e mundo ideal (eficácia). Na prática, a eficiência mediria o benefício em adotar o imunizante em uma sociedade plural, levando em consideração índices de saúde da população, a taxa de infecção do vírus, o preço do fármaco, etc.

No caso do coronavírus, sua taxa de infecção, o alto número de mortes e o ainda mais alto número de casos suprimem, por exemplo, eventuais dúvidas sobre a viabilidade de recusar comprar vacinas por causa do preço. Um aspecto moral, mas também econômico, uma vez que cada morte representa não somente a perda de um cidadão.

É mentira que metade das pessoas que tomarem Coronavac não vão produzir ‘nada’ de anticorpos

Na verdade, a taxa de eficácia da Coronavac indica que cada pessoa que tomar a vacina terá 50% de chance de não ser infectada pela Covid-19, além de 78% de chance de manifestar a doença de forma leve caso seja infectada e 100% de proteção contra agravamento da doença. Na prática, isso quer dizer que a vacina não só protege do vírus, mas aumenta drasticamente as chances de recuperação em caso de infecção.

Um outro bom exemplo: dados já submetidos para revisão por pares sobre a eficácia da Coronavac indicam que, de cada cem pessoas que receberam a vacina e forem infectadas pelo coronavírus, 84 estarão protegidas contra a evolução da doença. Para dizer que a vacina protege todas as cem contra casos graves e mortes, no entanto, ainda é preciso ter confirmação.

É mentira que não é possível avaliar a segurança da Coronavac

Um novo estudo divulgado na condição de pré-print, ou seja, ainda não revisado por pares, indica que a ocorrência de efeitos adversos graves foi de menos de 0,5% e se distribui de maneira igual no grupo placebo (que não tomou a vacina) e no grupo experimental (que tomou a vacina).

Pelo menos 73% das pessoas que tomaram a vacina manifestaram efeitos adversos leves, a maior parte relatou dor no local da injeção e dor no corpo.

Além de pôr em dúvida a segurança da vacina, o autor do áudio diz ainda que não é possível que vacinas sejam criadas tão rapidamente quanto as disponíveis para a Covid-19. Como justificativa, cita brevemente a vacina contra caxumba, que foi criada em apenas quatro anos na década de 1960.

É verdade que a vacina contra caxumba foi a mais rápida já criada antes das vacinas contra a Covid-19, no entanto, não é possível afirmar que por causa disso as vacinas contra Covid não funcionam por terem levado menos tempo.

A vacina contra caxumba foi criada há mais de 50 anos por Maurice Hilleman, quando a tecnologia era menos potente e menos difundida do que é atualmente.

Além disso, as vacinas contra o coronavírus foram desenvolvidas em parcerias milionárias e por centenas dos melhores pesquisadores do mundo, além de usarem diferentes métodos de produção e representarem a esperança de impedir ainda mais mortes.

Estudos como o da região de Serrana indicam que mesmo a vacina com a menor eficácia global têm êxito em proteger cidadãos contra a Covid-19 e suas manifestações leves e graves.

É mentira que vacinas alteram o código genético

O suposto médico confunde novamente os conceitos e até mesmo os tipos de vacina.

No áudio, ele sugere que as vacinas alteram o código genético de uma pessoa –o que é mentira. A Coronavac, alvo principal do áudio, utiliza o método de vírus inativado para incentivar organismo humano a produzir anticorpos contra o vírus. A técnica é igual à utilizada pela vacina da gripe, em que o vírus influenza inativado por procedimentos laboratoriais é injetado no paciente.

A vacina da Pfizer, que é produzida com a técnica do RNA mensageiro, também não altera o DNA.

Isso porque o RNA não é lido e muito menos assimilado pelo núcleo das células (onde fica o DNA). O RNA é apenas lido no citoplasma, que, assim como o núcleo, fica dentro da membrana plasmática.

Portanto, não, as vacinas não alteram o código genético e não são assimiladas pelo DNA, nem mesmo se aproximando dele.

O suposto médico recomenda, por fim, o uso de ivermectina a cada 15 dias e vitamina D como tratamento precoce contra a Covid-19, medicamento e vitamina que são ineficazes contra Covid-19, segundo a literatura médica.

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior deste texto dizia que em Serrana foram vacinadas 28.830 pessoas, ou 95,7% da população adulta. Na verdade, foram vacinadas 27.160 pessoas com duas doses, representando 95,7% da população com mais de 18 anos, que compreende 28.830 adultos. O texto também informava incorretamente que a vacina Coronavac é produzida com vírus atenuado, quando na verdade ela utiliza a tecnologia de vírus inativado. O texto foi corrigido.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.