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Coronavírus

Governo disponibiliza informações sobre imunizantes, mas não as garante

Faltam curadoria de dados e gerenciamento da qualidade das informações públicas

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Paulo Lotufo

Epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP

Reportagem publicada pela Folha na sexta-feira (2) revelou que havia um número significativo de vacinas aplicadas no Brasil depois do prazo de validade. Horas depois, notei um dilúvio de desmentidos por parte das secretarias municipais e estaduais envolvidas e acusações aos autores pela precipitação, além de aulas sobre como lidar com banco de dados vindas de “cientistas e jornalistas de dados”. Naquele momento, voltei quatro décadas no tempo para lembrar um incidente relativo a números e indicadores.

Em 1977, o então ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen —que, em matéria de educação, polidez e conhecimento sólido de economia, era o oposto do atual responsável pelas nossas finanças—, ficou chateado com o aumento dos índices de inflação e afirmou: “E o diabo é que não se trata de inflação de demanda ou de custo. É inflação de chuchu mesmo”.

A singela hortaliça, cujo preço se elevou acima do esperado, seria a responsável pela inflação porque havia um erro na ponderação do chuchu no indicador oficial. Simonsen foi motivo de avacalhação geral.

Por que misturar vacinas com chuchu? Porque os indicadores de vacinação utilizados abertamente por todas as esferas de governo e divulgadas diariamente são as mesmas que mostraram que, em milhares de casos, a aplicação do imunizante teria ocorrido após o vencimento. Em outros termos: disponibilizam-se informações que não são garantidas por quem as divulga.

Reside aí um dos problemas básicos na gerência pública de dados, para ficarmos no âmbito da saúde: a ausência de uma curadoria de dados públicos e do gerenciamento da qualidade das informações públicas.

A curadoria implica ação coordenada para indicar quais são as informações prioritárias necessárias, suas limitações, as correções obrigatórias antes da divulgação e os riscos de uso impróprio dos dados. A gerência pública dos dados deve zelar pela qualidade dos dados divulgados no dia a dia.

Uma ação de curadoria seria identificar informações que são de interesse público que deveriam divulgadas. Um exemplo de dado que não é de conhecimento público, mas deveria ser por interesse epidemiológico e administrativo, são os diagnósticos de internação na rede de hospitais por meio de convênios e planos de saúde.

As limitações próprias de um banco de dados devem ser sempre explicitadas, como no exemplo do Sistema de Informação de Mortalidade. Nele, o item “ocupação habitual” solicita que se anote se a pessoa for “aposentada” ou “desempregada”, mas essa advertência raramente consegue ser cumprida. Assim, os dados de ocupação não conseguem ser qualificados no sistema de mortalidade.

As correções necessárias na análise de um banco ocorre quando há problemas repetidos de correção difícil do dado primário na origem. Um exemplo é quando uma Unidade da Federação, repetidamente, declara uma proporção de mortes violentas sem identificar a causa em valor três vezes acima da média nacional. O sistema não consegue alterar esse dado, mas precisa advertir que há um problema primário da informação sobre mortes violentas naquele estado —ou seja, as taxas de homicídio podem ser maiores do que realmente aparentam em uma primeira análise.

A gerência do banco de dados deve verificar a qualidade de toda informação disponibilizada, advertindo, por exemplo, sobre o retardo de alimentação dos sistemas, como aconteceu com a mortalidade e, agora, com a vacinação. Uma gerência de dados ativa evitaria confusões como as causadas na pandemia, como a confusão entre data de ocorrência e data de notificação, novamente seja de mortes ou de vacinas aplicada.

A pergunta que resta é: onde ficariam essa curadoria e essa gerência de dados? Seria um novo organismo de Estado dedicado à vigilância epidemiológica, a nível federal, nos moldes da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), e abarcaria as funções da atual Secretaria de Vigilância de Saúde, nos moldes do Centro de Controle de Doenças e Prevenção americano. Uma tarefa para um novo governo.

Em tempo: Simonsen depois assumiu que mereceu as críticas pela “inflação do chuchu”, porque ele somente apresentou a inconsistência desse item quando a inflação subiu, mas não quando esteve em queda.

Isso vale para o atual debate sobre o sistema de vacinação contra a Covid-19.

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