Insulina, responsável por salvar milhões de vidas, faz cem anos

Leonard Thompson, de 14 anos, foi o primeiro a receber o medicamento

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Antônio Roberto Chacra

Médico endocrinologista do Hospital Sírio-Libanês

Com o diagnóstico de coma diabético e sem nenhuma expectativa de sobrevida, o menino Leonard Thompson, de 14 anos, estava internado num hospital em Toronto, no Canadá. Era 1921, há exatos cem anos. Nessa época, ainda não havia nenhum tratamento para diabetes. O cenário se tornava ainda mais grave para os portadores do que chamamos hoje de diabetes tipo 1.

A única medida para tratamento consistia na restrição de alimentos. Os pacientes entravam em um quadro de caquexia (emagrecimento acentuado) tanto pelo diabetes como pela dieta extrema. Sem medicamentos para essa condição, a sobrevida de um portador de diabetes podia atingir de seis meses a um ano no máximo.

Thompson, no entanto, conseguiria sobreviver ao diabetes tipo 1, algo inédito em toda a história da humanidade. Podia haver eletricidade e até mesmo a capacidade de criar veículos voadores como os aviões, mas não existia uma solução para evitar que pais e mães vissem os filhos definharem até a morte diante dessa doença.

Não foi um milagre que salvou Thompson. Foi a ciência. A melhora dele se deveu à insulina, que salvaria a vida de milhões de pessoas ao longo do século seguinte, numa das maiores descobertas da história da medicina. Mas, para chegar até a aquele dia em 1921 em Toronto, foi necessário um processo cumulativo de conquistas científicas ao longo de milênios.

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Caixas de insulina - Reprodução/Novo Nordisk Farmacêuica

Ser diagnosticado com diabetes, ainda que sem esse nome, remonta pelo menos ao antigo Egito. O papiro Ebers, datado aproximadamente do ano 1550 a.C., descrevia uma condição na qual o paciente bebia água e urinava em quantidades excessivas.

Séculos mais tarde, já no ano 120 da era cristã, o grande médico Arateus da Capadócia descreveu em detalhes a descompensação do diabetes e o coma diabético. Durante o apogeu da medicina árabe no século 10, o médico Avicena delineou as complicações do diabetes, incluindo a gangrena diabética e o “colapso da função sexual”, atualmente denominada disfunção erétil.

O advento do cristianismo, no entanto, impediu até certo ponto a evolução da medicina no Ocidente, especialmente na era medieval, uma vez que a cura ou a melhora das doenças só podiam acontecer pelos milagres. A intervenção médica era desestimulada.

Esse cenário somente começaria a mudar a partir do século 18, quando a metodologia científica foi introduzida na medicina. Médicos passaram a investigar como e por quais causas as doenças ocorriam. O termo fisiopatologia passou a ser utilizado para uma melhor compreensão das doenças em geral e para o desenvolvimento de tratamentos mais adequados.

A descoberta da insulina tem origem justamente nessa evolução científica e resulta da soma de vários trabalhos científicos que culminaram no isolamento desse hormônio. Os médicos alemães Joseph Von Mering (1849-1908) e Oskar Minkowski (1858-1931), através da pancreatectomia (retirada do pâncreas), induziram o aparecimento de diabetes em animais de experimentação.

Um outro pesquisador alemão chamado Paul Langerhans (1847-1888) descreveu através da microscopia as assim chamadas ilhotas de Langerhans, que constituem grupamentos de células esparsas pelo pâncreas —daí o nome ilhotas. O diabetes seria, portanto, uma doença do pâncreas.

Houve várias tentativas de se isolar uma substância cuja falta seria responsável pelo surgimento do diabetes, e a história da descoberta da insulina é fascinante. O americano-canadense Charles Best (1899-1978), então estudante de medicina, sobrinho de uma noviça morta aos 17 anos de coma diabético, decidiu então procurar o médico canadense Frederich Banting (1891-1941), na Universidade de Toronto, solicitando permissão para trabalhar no seu laboratório. Junto com o escocês John MacLeod (1876-1935) e o canadense James Collip (1892-1965), iniciou trabalhos experimentais para isolar um extrato pancreático, o qual, injetado no paciente com diabetes, “curaria” a doença.

A insulina inalável Afrezza, que chegou ao mercado brasileiro
Insulina inalável - Divulgação

Através de uma metodologia científica bem estabelecida, os extratos obtidos eram injetados em animais de experimentação portadores de diabetes após retiradas do pâncreas e medindo a redução da glicose no sangue (ensaio biológico). Após várias tentativas, conseguem extrair numa solução de álcool ácido um extrato pancreático mais purificado. Acreditavam que, se injetado num paciente portador de diabetes, reverteria o estado de coma. E assim foi que Leonard Thompson, citado no início deste artigo, recebeu o primeiro extrato de insulina, após autorização de sua família.

O resultado benéfico foi parcial e novas tentativas de purificação levaram finalmente a um extrato que, injetado em Leonard Thompson, reverteria o coma. Posteriormente, com o tratamento, o paciente ganhou peso e passou a ter uma vida normal com injeções de insulina, até morrer anos mais tarde de pneumonia. Nesta mesma época, Elizabeth Hughes, filha do então secretário de Estado dos EUA, Charles Hughes, pesava apenas 27 kg em decorrência do diabetes. Diante deste cenário, foi levada a Toronto para receber as primeiras doses de insulina. Com o ultrabem-sucedido tratamento, viveu até 1981, chegando aos 74 anos.

Best e Banting foram premiados em 1923 com o prêmio Nobel e o dividiram com MacLeod e Collip. Apesar deste grande sucesso, houve controvérsias a respeito do descobridor da insulina —o cientista romeno Nicolai Paulescu (1869-1931) tinha anteriormente publicado um trabalho sobre o isolamento deste extrato pancreático.

A patente dessa descoberta foi vendida pela Universidade de Toronto pelo valor simbólico de um dólar canadense. A única condição era de que a produção de insulina teria de ser supervisionada pela própria instituição canadense. Nos Estados Unidos, o empresário Eli Lilly, em Indianápolis, começou a produção industrial da insulina e assim inicia-se a "marcha triunfal” que salvaria milhões de pessoas.

A insulina passou também a ser produzida por outros laboratórios, como Novo Nordisk e Sanofi. No Brasil, a produção inicial foi bastante artesanal com a professora Eline Prado, bioquímica da Escola Paulista de Medicina. Esta pesquisadora chegou a receber a visita de Charles Best para supervisionar a produção. No Brasil, já há vários anos a insulina é distribuída pelo governo, assim como glicosímetros, fitas reagentes e medicações orais para o diabetes.

Após a descoberta da insulina obtida de extrato pancreático animal, a mesma passou a ser produzida por técnicas de bioengenharia genética. Novas preparações mais modernas têm sido introduzidas, assim como também tem avançado bastante o uso da tecnologia no tratamento.

No Brasil, são 17 milhões de pacientes portadores de diabetes, sendo essencial o controle glicêmico para evitar as complicações da moléstia, que oneram tremendamente qualquer que seja o sistema de saúde utilizado. Muitos deles, se tivessem nascido mais de um século atrás, não teriam sobrevivido. Foram salvos pela insulina.

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