Descrição de chapéu Dias Melhores

Economia solidária gera renda e autonomia a doentes psiquiátricos

Atividades presenciais em SP são retomadas após 16 meses de suspensão devido à pandemia de Covid

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Após depressão severa, surtos de esquizofrenia, várias internações e licença médica de cinco anos, Luciana, 45, retornou ao trabalho em uma fábrica de cintos em São Paulo pronta para recomeçar. Mas a volta só durou poucas horas.

"Quando me viu, a dona do lugar me disse: ‘olha, apareceu a funcionária-fantasma’. Aquilo me doeu muito, foi de uma insensibilidade sem tamanho. Comecei a chorar, fiquei mal e fui embora de vez."

Ela precisou de mais um ano de tratamento no Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Butantã, na zona oeste de São Paulo, para se estabilizar de novo. No período, conheceu um projeto de economia solidária e começou a ser preparada para atuar como garçonete de um restaurante ligado à iniciativa, a Comedoria Quiririm.

"No início não foi fácil ter contato com as pessoas. Via as pessoas felizes, dando risada e tinha vontade de sumir. Mas as psicólogas diziam: ‘você consegue, você consegue’. Fui me acostumando, ganhando confiança para recomeçar. Gosto muito do que faço, tenho amor na comida que eu preparo, que eu sirvo. As pessoas gostam de mim, me respeitam."

Paciente psiquiátrica inserida em projeto de economia solidária ligado Caps Butantã, zona oeste de SP - Secretaria Municipal da Saúde

Com Risonete, 49, aconteceu o mesmo. Após diagnóstico de depressão, várias tentativas de suicídio e 11 internações em hospitais psiquiátricos, ela fez um curso de agroecologia e hoje é auxiliar da gerência no Orgânicos no Ponto.

O empreendimento comercializa 120 de cestas de produtos orgânicos por semana, entre hortifruti, ovos, pães, sucos e outros. Tudo em parceria com pequenos produtores da região. "O paciente de saúde mental é estigmatizado pelo uso de remédio. Começar a produzir o alimento do outro acaba quebrando esse estigma", diz ela.

Luciana e Risonete fazem parte de um projeto de economia solidária ligado à Secretaria Municipal da Saúde e que integra a Rede de Atenção Psicossocial (Raps). A iniciativa envolve empreendimentos de geração de trabalho e de renda, além de cooperativas sociais destinadas à reabilitação de pessoas com transtornos mentais.

As atividades presenciais estavam suspensas havia 16 meses devido à pandemia de Covid e foram retomadas recentemente.

"Sentia muita falta do trabalho presencial, de ver a carinha as pessoas. Aparece lá para comer com a gente. Convida as pessoas. A comida é uma delícia", diz Luciana. Ela ainda convive com crises de crises de ansiedade, mas afirma que, com o uso de remédios e o trabalho, consegue lidar melhor com elas.

Segundo Adriana Oliveira, assessora técnica na divisão de saúde mental da Secretaria Municipal da Saúde, os pontos de economia solidária ligados à reabilitação psicossocial começaram em 2016.

O Ponto Butantã já teve 54 trabalhadores e, atualmente, conta com 25. Além da suspensão de algumas atividades, durante a pandemia muitos pacientes acabaram descompesando suas doenças psiquiátricas e passam por cuidados mentais para voltar ao trabalho.

No Butantã, há um restaurante, uma horta, uma loja de orgânicos, uma livraria, uma loja de artesanato e ateliê de costura. Já no Ponto Benedito Calixto, gerido por 11 pessoas, tem loja social com produtos de cerca de 45 projetos e uma oficina que cria oportunidades e condições para que usuários do programa desenvolvam habilidades em produtos artesanais.

Ponto de venda de produtos orgânicos em projeto de economia solidária gerido por doentes psiquiátricos, no Butantã, zona oeste de SP - Secretaria Municipal da Saúde

Oliveira explica que muitos pacientes vinculados ao Caps já têm alguma atividade produtiva (de artesanato, por exemplo), mas ainda muito mais ligada ao tratamento do que de fato a uma reinserção socioeconômica, que é o objetivo dos pontos de economia solidária.

"Eles saem daquele lugar de uma pessoa doente, sem autonomia, para um papel social diferente, como alguém que trabalha, que consegue se organizar no coletivo, que tem renda."

Embora a maioria dos empreendimentos tenham começado dentro de serviços de saúde mental, como os Caps e Centros de Convivência e Cooperativa (Ceccos), a meta é que sejam vistos fora desse contexto.

"Eles fazem parte do projeto de reabilitação, mas são lugares de trabalho, não o lugar em que a pessoa está em tratamento. Esse formato de autogestão possibilita que a pessoa construa a sua autonomia", explica a psicóloga Alessandra Rosini Carrasco, facilitadora do Ponto de Economia Solidária e Cultura do Butantã.

Carrasco diz que um dos grandes desafios do projeto é que as decisões sejam horizontalizadas, ou seja, que as pessoas possam participar do processo decisório e de gestão dos empreendimentos, ganhando mais autonomia, sem depender tanto da interferência dos profissionais de saúde.

"Algumas pessoas tiveram adoecimento mental muito grave, então não é fácil. A gente propõe um outro tipo de trabalho, que não seja só um ponto de comercialização de produtos, mas sim um polo cultural, que integre meio ambiente, sustentabilidade, saúde mental", diz a psicóloga.

Ela explica que os projetos contam também com a parceria da comunidade, como uma incubadora da USP e com ajuda de uma equipe do Sesc na qualificação dos profissionais para que as iniciativas tenham de fato viabilidade econômica e sustentabilidade.


Serviço:

Ponto de Economia Solidária e Cultura do Butantã
De segunda a sexta-feira, das 8h às 17h
Aos sábados e domingos, aberto quando houver eventos
Av. Corifeu de Azevedo Marques, 250, Butantã, São Paulo - SP

Ponto Benedito Economia Solidária e Cultura
De quarta a sexta-feira, das 11h às 18h
Sábado, das 11h às 19h
Ponto também segue agenda da feira e da praça.
A partir de março de 2022, sextas e sábados das 11h às 18h
Praça Benedito Calixto, 112, Pinheiros, São Paulo – SP

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.