Ex-médico de equipe de ginástica dos EUA é condenado por abuso sexual

Crédito: Brendan McDermid/Reuters O ex-médico da seleção americana feminina de ginástica Larry Nassar durante seu julgamento
O ex-médico da seleção americana feminina de ginástica Larry Nassar durante seu julgamento

DE SÃO PAULO
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Larry Nassar, ex-médico da seleção americana de ginástica, foi condenado a cumprir pena de 40 a até 175 anos de prisão por abusar sexualmente de atletas que ficaram a seus cuidados. A decisão foi anunciada nesta quarta-feira (24) pela juíza Rosemarie Aquilina, da Corte do Condado de Ingham, na cidade de Lansing (Michigan), após sete dias de julgamento.

"É minha honra sentenciá-lo porque o senhor não merece sair de uma prisão nunca mais. Em qualquer lugar por onde você andasse, a destruição ocorreria para os mais vulneráveis", disse a magistrada, que ainda acrescentou: "Acabei de assinar sua sentença de morte".

Nassar, de 54 anos, foi acusado de cometer seguidos abusos de meninas (a partir de seis anos de idade) e adolescentes, sob o pretexto de dar-lhes tratamento médico. Em novembro, durante o processo, ele chegou a admitir que cometeu o crime contra sete atletas.

No entanto, um total de 156 mulheres, incluindo campeãs olímpicas como Aly Raisman, Jordyn Wieber, Gabby Douglas e Simone Biles, deram depoimentos de como foram abusadas, algumas de forma anônima, outras enviando cartas e vídeos para a corte, mas a maioria comparecendo pessoalmente ao tribunal para encarar Nassar frente a frente.

Ao ter a última oportunidade de falar antes do anúncio da sentença, Nassar virou-se em direção a algumas de suas vítimas e declarou ser "impossível" pedir desculpas: "Suas palavras nos últimos dias tiveram um efeito significativo sobre mim e sacudiram o meu coração. Vou levar suas palavras comigo para o resto dos meus dias", afirmou. Muitas mulheres presentes choraram durante a fala.

A punição desta quarta se soma à condenação de 60 anos que o ex-médico cumpre atualmente em uma prisão federal por posse de pornografia infantil.

Ramificações do caso

A sentença de Nassar não deve significar o fim das investigações sobre seus recorrentes abusos sexuais. Na última segunda, em meio à comoção pelos depoimentos das vítimas, três executivos da Federação de Ginástica dos Estados Unidos (USA Gymnastics) renunciaram aos cargos - muitas atletas acusaram a entidade de encobrir os crimes dos médicos.

A Federação também decidiu encerrar o acordo com o Rancho Karolyi, centro de treinamento localizado numa região remota do Texas em que muitos dos casos aconteceram.

A pressão também recai sobre a Universidade Estadual de Michigan, onde Nassar trabalhou por décadas com atletas universitários. A NCAA (National Collegiate Athletic Association), entidade máxima do esporte universitário americano, instaurou um processo independente, enquanto um movimento pede a renúncia do presidente da universidade.

"É necessário ser feita uma investigação massiva sobre por que houve silêncio e inatividade contra os abusos de Nassar em um quarto de século", declarou a juíza Rosemarie Aquilina durante o julgamento.

"Ginástica está podre"

A medalhista de ouro olímpica Aly Raisman foi uma das principais vozes em culpar as entidades por falharem em proteger ela e outras mulheres de anos de abuso sexual de Larry Nassar, dizendo inclusive que a federação de ginástica americana está "podre por dentro".

Raisman, co-capitã do time de ginástica artística dos EUA que disputou os Jogos Olímpicos do Rio-2016 e Londres-2012, defende que tanto a entidade do seu esporte como oficiais do Comitê Olímpico dos Estados Unidos (USOC) tinham o poder de parar Nassar.

"Para este esporte continuar indo em frente, precisamos reivindicar uma mudança real, e nós precisamos continuar desejando lutar por isso", disse a atleta em seu pronunciamento no tribunal. "Agora está claro que se nós deixarmos isso nas mãos dessas organizações, a história vai se repetir".

Outro trecho que gerou comoção foi quando ela se direcionou ao acusado em tom desafiador. "Nós temos nossa voz e não vamos ser caladas", disse. "Eu não sou mais aquela garotinha que você conheceu na Austrália, que você começou a acariciar e manipular."

Sensação dos Jogos do Rio, com quatro medalhas de ouro e uma de bronze, Simone Biles escreveu uma carta que também se disse vítima de abuso do ex-médico.

"Por favor acreditem quando eu digo que foi muito mais difícil falar estas palavras em voz alta do que está sendo agora colocar no papel", relatou. "Não é normal receber qualquer tipo de tratamento de um médico e se referir a ele horrivelmente como tratamento 'especial'. Este comportamento é totalmente inaceitável, abominável e abusivo, especialmente vindo de alguém em quem diziam que você devia confiar".

Dor dos pais

"Eu voluntariamente levei o meu presente mais precioso neste mundo para você e você a machucou fisicamente, mentalmente e emocionalmente. Ela tinha apenas oito anos". Relatos como este de Anne Swinehart, mãe de Jillian Swinehart, uma das vítimas, também serviram para escancarar durante o julgamento o trauma que os abusos do ex-médico causaram nas famílias dos atletas.

Muitos dos pais souberam nos tribunais que estavam presentes quando Nassar abusou de seus filhos - o médico usava o próprio corpo para bloquear a visão deles enquanto se inclinava sobre a mesa de exame. Uma mãe afirmou que estava olhando para o telefone durante uma consulta, enquanto outros pais admitiram que nem se preocupavam, dada a reputação do profissional no meio da ginástica.

"Como eu interpretei sua má intenção de modo tão errado? Eu queria que minha filha melhorasse, alcançasse seus sonhos, participasse e tivesse sucesso em um esporte que ela amava", prosseguiu Anne Swinehart, revelando ainda que chegou a ver a filha com uma expressão de dor durante uma consulta, mas achou que fosse reflexo de um problema físico.

Rosemarie Aquilina, juíza responsável pelo caso, pediu que as vítimas e seus familiares não sentissem culpa pelos crimes cometidos por Nassar. "Deixe a culpa para lá. Isso não merece mais tempo da sua família. Ele é uma mente brilhante em esconder abusos".

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