EDUARDO GERAQUE
DE SÃO PAULO

A estreia do skate em Jogos Olímpicos, em Tóquio-2020, fez cintilar sonhos inéditos na mente de Letícia Bufoni, 24. Não que faltem medalhas na casa dela em Los Angeles, na Califórnia, lugar que a paulistana da Vila Matilde escolheu para viver, longe da família, há uma década.

"O esporte [no Brasil] vai crescer muito mais com a Olimpíada. Vamos ser muito mais reconhecidos. Mas ainda precisamos ter um circuito nacional bacana, o que pode ocorrer, se tivermos investidores, neste ou no próximo ano", afirma Bufoni.

Uma das mulheres mais premiadas do skate de rua da história –são três medalhas de ouro, duas de prata e três de bronze nos X Games, maior competição de esportes radicais do mundo–, sabe muito bem o que é brigar por um ideal desde pequena.

Quando começou no esporte, aos 9 anos, ainda em São Paulo, ouvia pessoas a chamarem de "sapatão". Preconceito que, segundo ela, vinha da sociedade e não dos praticantes do esporte.

Passou a ganhar campeonatos importantes no Brasil, quando, aos 14 anos, viajou para uma competição de skate de rua nos Estados Unidos.

Venceu a resistência do pai, que desconhecia o esporte, obteve patrocinadores americanos e não voltou mais a morar em seu país natal, pelo menos de maneira oficial.

"Sou brasileira roxa. Cresci nos Estados Unidos, tenho um carinho por lá, mas todos os meus amigos são brasileiros. Em casa só tem comida e música do Brasil", diz Letícia em entrevista à Folha.

A skatista não tem dúvida de que hoje as meninas brasileiras que quiserem encarar a vida profissionalmente sobre uma prancha com rodas não precisam mais seguir o caminho que ela seguiu.

"Se fosse começar hoje, viveria de skate no Brasil. Mas, nos Estados Unidos, tem várias questões, até como a segurança, que também são importantes", diz a atleta.

IMAGEM

Em um típico dia de verão carioca, Letícia usa um shorts jeans, camiseta regata, boné e maquiagem. Sua marca registrada, depois de muito xingada na adolescência, quando saía para andar de skate com os meninos, é exibir sua feminilidade e seu corpo sempre em forma de maneira natural, sem embaraços.

Para conseguir ficar de duas a cinco horas sobre um skate, melhorando cada vez mais as manobras, de forma repetitiva e sozinha, já que no esporte não há a figura do treinador, Letícia diz que tem muito cuidado com as lesões e, por isso, precisa sempre estar em boa forma física.

Condicionamento que também é feito em outros esportes, como no surfe.

Fora das competições, são constantes as sessões de fotos, esportivas ou sensuais, os programas de televisão e a exibição em redes sociais, para mais de um milhão de seguidores. Os contratos de patrocínio, com grandes marcas internacionais, também fazem parte da vida dela.

Situação confortável que vai permitir a ela se concentrar no que tornou-se seu principal objetivo. "Tudo o que penso é na Olimpíada. Minha alimentação, meu cuidado com o corpo, minhas manobras. Tudo está voltado para isso", afirma a atleta.

Até do ponto de vista político, agora, Letícia diz estar tranquila. Entre os atletas da modalidade, havia temor de que a Confederação Brasileira de Patinação cuidasse do projeto olímpico do skate brasileiro. Um boicote dos principais destaques do skate nacional chegou a ser cogitado.

"Agora que está definido que o processo vai ficar com a CBSK (Confederação Brasileira de Skate), que tem o Bob [Burnquist] e o Sandro Dias à frente, estou muito confiante. O Brasil terá muitas chances tanto no 'street' quanto no parque", diz ela, falando sobre as duas provas que serão disputadas em Tóquio.

Os critérios para distribuição das vagas brasileiras nos Jogos ainda serão definidos. Também não se sabe quantos atletas se classificarão.

O sonho olímpico da brasileira californiana se mistura com a sequência da carreira. "A certeza que tenho é que vou andar de skate pelo resto da vida. Quero fazer mais duas Olimpíadas, seis anos mais ou menos, e depois, talvez, continuar com o skate fora das competições", disse.

O repórter viajou ao Rio a convite da Oi

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