Eagles acabou com esperanças de anfitriões do Super Bowl

Torcedores do Minnesota Vikings esperavam voltar à final após 41 anos

Jogadores do Philadelphia Eagles se preparam para caminhada no US Stadium, em Minneapolis, onde acontecerá o 52º Super Bowl
Jogadores do Philadelphia Eagles se preparam para caminhada no US Stadium, em Minneapolis, onde acontecerá o 52º Super Bowl - Eric Gay/AP
Ben Shpigel

Tim Mahoney, pobrezinho, acreditava que seu querido mas sempre atormentado Minnesota Vikings voltaria ao Super  Bowl, depois de 41 anos de seca. E o Super  Bowl desta temporada será em Minneapolis. Dá para imaginar?

"Eu mesmo acreditava", disse Mahoney. "Achei que era o destino".

Não era. O Philadelphia  Eagles massacrou o Minnesota Vikings na final da conferência nacional da National  Football  League (NFL), destruindo as esperanças de milhares e milhares de torcedores de Minnesota. E Minnesota esta semana receberá legiões de fervorosos torcedores do Eagles, que ocuparão os estabelecimentos, casas e espaços públicos de Minneapolis, mesmo que a dorzinha da derrota ainda não tenha desaparecido.

Saia justa.

"Se não fosse a oportunidade empresarial que isso representa, eu com certeza não gostaria que o time que acabou de nos derrotar viesse à nossa casa, especialmente porque a torcida deles é mais arruaceira que a média", disse Tyler Olson, 32, que administra imóveis de locação curta para seus proprietários e hóspedes. "Mas reconheço que isso é parte do negócio. Pode haver quem discorde, mas minha escolha é essa".

Olson tinha seis anos de idade da última vez que Minnesota recebeu o Super  Bowl, em 1992, quando o Vikings evitou desconfortos desse tipo ao nem mesmo chegar aos playoffs. Em 2017, o Vikings facilitou seu caminho para o título da divisão norte da conferência nacional ao causar uma contusão que afastou Aaron  Rodgers, o quarterback do rival divisional Green  Bay, por diversas rodadas, e em sua primeira partida de playoff eliminou o New Orleans Saints com um touchdown de 61 jardas marcado na última jogada da partida. Na semana passada, contra o Eagles, as bolsas de apostas conferiam vantagem de três pontos ao Vikings. O time perdeu por 38 a 7.

"Não seria certo guardar rancor dos Eagles", disse Mahoney, 56, dono do Loon  Cafe, um bar popular entre os torcedores do Vikings no centro de Minneapolis. "Não há nada de errado com uma troca amistosa de provocações, e minha esperança é que as coisas não vão além disso. É algo que acontece entre nós e a torcida do Packers há anos. No final, trocamos um aperto de mão, tomamos uma cerveja juntos e assunto encerrado".

Isso pode ser verdade, mas as circunstâncias são diferentes, agora. Nenhum time havia chegado tão perto quanto o Vikings de jogar um SuperBowl em seu estádio. Imagine passar meses planejando uma festa e aí ser barrado na porta.

"Minha esperança é que a passagem do tempo melhore as coisas", disse Brad Christopherson, 42, corretor de imóveis e torcedor do Vikings. Ele nasceu em Fargo, no Dakota do Norte, mas mora em Minneapolis há duas décadas. "O pessoal aqui gosta de uma agressão passiva. Talvez só um pouquinho de grosseria, quem sabe. Olhar feio para eles, fazer uma carranca, coisas assim".

Case Keenum, do Minnesota Vikings, segura a bola em partida que teve vitória do Philadelphia Eagles, no dia 21 de janeiro
Case Keenum, do Minnesota Vikings, segura a bola em partida que teve vitória do Philadelphia Eagles, no dia 21 de janeiro - Patrick Smith/Getty Images/AFP

Quanto aos torcedores do Eagles, Christopherson acrescenta: "Mas se eles vierem muito arrogantes, ainda falando do jogo passado, não sei dizer o que acontecerá. A esperança é de que eles tenham seguido em frente e que seu foco esteja mais no Super Bowl do que na partida passada".

A partida em questão, uma surra, ainda amarga os torcedores do Vikings, e não só pela margem de vitória ou pelo resultado. Christopherson e muitos outros torcedores do Vikings ouviram falar sobre os dedos médios erguidos como insulto, as ameaças proferidas e a linguagem grosseira usada pelos torcedores do Eagles no jogo realizado em Filadélfia. Na terra dos Vikings, há quem se preocupe com aquilo que veem como um bando itinerante de arruaceiros —os torcedores do Eagles, cuja reputação, merecida ou não, sempre os precede.

Ainda que o Lincoln Financial Field, o estádio do Eagles, em geral não seja um local acolhedor para as torcidas rivais, apenas uma pequena parcela dos torcedores de Filadélfia costuma se envolver em comportamento repreensível. E é claro que os moradores de Filadélfia não são os únicos que agem mal quando esporte, álcool e talvez certa dose de estupidez se misturam.

Com base em conversas que teve com amigos, Laura Conley, 31, que está tentando alugar sua casa no final de semana do Super  Bowl, diz que imagina que o pessoal de Minnesota presente ao estádio escolherá torcer pelo New  England  Patriots, por conta do tratamento que alguns torcedores do Eagles deram à torcida do Vikings em Filadélfia. Jim Fehrenkamp, 41, é um dos donos do Mac's Industrial Sports Bar, em Minneapolis, e disse que vai torcer pelo Patriots por esse motivo, mas acrescentou que não imagina que surja muita fricção entre os moradores locais e a torcida do Eagles, ao longo da semana. Para ele, deve haver mais trocas de olhares insultuosos que quebra-paus no Nicollet  Mall.

"Tenho fé na minha cidade", disse Fehrenkamp, rindo. "Ao mesmo tempo, sei que, quando você está em sua cidade, as pessoas podem se sentir mais defensivas quanto a algumas coisas. Mas acho que as pessoas que agem dessa forma não estarão no estádio para o Super Bowl".

Chad Babcock, de Mauston, Wisconsin, torcedor do Green Bay Packers, se inclui entre aqueles que ficaram contentes —ou pelo menos não ficaram tristes— com a derrota do Vikings. Depois da derrota, amigos aconselharam que ele deveria pensar duas vezes antes de alugar sua casa na região de Uptown, Minneapolis, para torcedores do Eagles.

Carson Wentz, do Philadelphia Eagles, cumprimenta Case Keenum, do Minnesota Vikings, após vitória que levou os Eagles ao Super Bowl
Carson Wentz, do Philadelphia Eagles, cumprimenta Case Keenum, do Minnesota Vikings, após vitória que levou os Eagles ao Super Bowl - Rob Carr/Getty Images/AFP

Babcock agradece a preocupação, mas acrescenta que um grande grupo de torcedores do Vikings pareceu ter instigado ao menos parte dos insultos ao decorar com as cores de seu time a famosa estátua do boxeador Rocky, no Museu de Arte da Filadélfia, e ao entoar um grito de guerra viking na escadaria do museu. Ele não seguiu os conselhos dos amigos.

Babcock foi apresentado por um amigo comum a Jeff Gottesman, de Huntingdon  Valley, uma cidade vizinha à Filadélfia. Gottesman, como ele, é corretor de seguros da State  Farm, e eles trocaram provocações bem-humoradas por e-mail e mensagens de texto, enquanto negociavam a locação para o final de semana do Super  Bowl. Babcock e sua mulher Beth, que torce para osVikings, esperam que o hóspede respeite algumas normas básicas.

"Nada de gestos insultuosos para os vizinhos, nada de palavrões, nada de jogar latas de cerveja nos outros, esse tipo de coisa", disse Babcock, rindo. Ele está pensando em encomendar artigos para festas e decoração com as cores do Eagles, para receber Gottesman e os seis amigos que virão com ele. "Eu meio que avisei que os torcedores do Vikings estão zangados com a maneira pela qual foram tratados, e aconselhei que eles ficassem atentos".

A cerimônia de abertura da semana do Super  Bowl, segunda-feira no Xcel  Energy  Center, em St. Paul, estava repleta de torcedores com camisas do Vikings, que vaiavam sempre que o nome do Eagles era mencionado. Quando um pequeno grupo de torcedores do Eagles zombou do grito de guerra da torcida dos Vikings dizendo "Foles" —em referência a Nick Foles, o quarterback de seu time— em lugar de "skol", eles receberam uma forte vaia.

De sua parte, Gottesman disse que não estava apreensivo quanto à viagem para Minnesota. Ele assistiu à decisão da conferência nacional, onde viu alguns torcedores se comportando de modo repulsivo, mas disse esperar que o pessoal de Minnesota o trate com o mesmo respeito que ele demonstrou por quatro torcedores do Vikings que se sentaram atrás dele no estádio. Ele lhes deu conselhos sobre como "ficar longe do reino dos bêbados lunáticos", e eles até trocaram telefones.

"A coisa foi tirada de qualquer proporção", disse Gottesman, 49, sobre o estereótipo quanto ao comportamento da torcida do Eagles. "A vasta maioria dos torcedores não é assim".

As Cidades Gêmeas (Minneapolis e St. Paul) logo saberão. Conley disse que, se alguém precisa se preocupar, é a torcida do Eagles. Quando perguntada por quê, ela riu.

"Aqui somos maioria", disse.

The New York Times

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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