Descrição de chapéu São Paulo Copa do Mundo

Pai de novo presidente da CBF brigou por Telê e pôs lâmpadas no Morumbi

Carlos Caboclo, 80, foi cartola no futebol, marketing, comunicação e nas relações institucionais

Com as mãos espalmadas e juntas, Carlos Caboclo está sentado enquanto concede entrevista para a Folha
Carlos Caboclo é ex-dirigente do São Paulo e pai de Rogério Caboclo, futuro presidente da CBF - Jorge Araujo/Folhapress
Alex Sabino
São Paulo

Rogério Caboclo, 45, cresceu observando o pai, dirigente de futebol. Aprendeu como os cartolas se comportam, o que dizem, quando dizem e como dizem as coisas. Percebeu que é preciso ter cuidado com a imprensa. 

Rogério será o novo presidente da CBF em eleição marcada para abril. Vai ser candidato único, abençoado por Marco Polo Del Nero, suspenso pela Fifa por suspeita de corrupção. O pai é Carlos Caboclo, 80, dirigente histórico do São Paulo, clube também do coração de Rogério.

“Conversamos duas ou três vezes por semana. É bom você ver o filho crescer. Somos parecidos em algumas coisas. Ele é alguém que escuta as pessoas e resolve problemas. Se não resolve na hora, estuda e depois aparece com a solução”, elogia o pai.

Em 50 anos no São Paulo, Carlos Caboclo foi diretor de futebol amador, futebol profissional, comunicação, marketing e relações institucionais. Afirma ainda ter sala no Morumbi, mas aparece lá uma vez a cada 15 dias. 

Acho que é isso. Sempre tive memória prodigiosa. Hoje não tenho mais”, afirma.

Não é verdade. Se tem problemas em lembrar datas, é capaz de contar histórias por horas, interrompendo uma para relatar outra antes de voltar ao causo original, retomando de onde parou.

Carlos Caboclo alisa o cabelo com a mão esquerda enquanto concede entrevista para a Folha
Carlos Caboclo concede entrevista à Folha em seu apartamento, em Moema - Jorge Araujo/Folhapress

Começa falando de quando tinha cinco anos de idade na Vila Maria (zona norte de São Paulo) e ficou fascinado com o broche do escudo do São Paulo na lapela do terno de um tio, e vai até as palestras dadas na China para popularizar o futebol.

Rogério, o caçula de três filhos, nunca foi cartola de clube algum. Trabalhou na Federação Paulista de Futebol, no comitê organizador da Copa-2014 e, depois, na CBF.

O pai se manteve fiel ao primeiro amor. Clube pelo qual confessa ter desviado dinheiro da própria loja, sem a mulher saber, para ajudar a pagar salários dos garotos das categorias de base. 

O mesmo São Paulo que o fazia tirar o terno na calçada da avenida Marquês de São Vicente (zona oeste da capital), durante as obras do Centro de Treinamento da Barra Funda para que caminhões despejassem areia e o aterramento do local fosse feito. 

“Eu fiz de tudo lá”, completa, antes de contar como instalou lâmpadas no estádio quando o Morumbi já estava pronto ou convenceu Telê Santana a ser o novo técnico do São Paulo, em 1990.

Amizade

Foi a contratação que mudou a história do clube. Com o treinador no comando, foram dois títulos mundiais, duas Libertadores, um brasileiro e dois paulistas. 

“Havia muita gente no São Paulo que não queria o Telê. Tive de brigar para que ele fosse contratado.”

Caboclo se diverte com as histórias de ranhetice e avareza de Telê Santana, incapaz de pagar qualquer conta no restaurante ou no bar. Os dois foram amigos até a morte do treinador, em 2006.

Rogério Caboclo posa para foto de braços cruzados. Ele é filho de Carlos Caboclo, era diretor executivo de gestão da CBF e será presidente
Rogério Caboclo, filho de Carlos Caboclo, era diretor executivo de gestão da CBF e será presidente - Divulgação CBF

Em recuperação de cirurgia para retirada de um tumor no pé esquerdo, o dirigente (ele não se considera aposentado) abre pasta para mostrar fotos, artigos escritos para a Folha e imagens de malsucedida candidatura ao Senado pelo PDT (Partido Democrático Trabalhista) em 1994. 

Orgulha-se de ter sido chamado de “a cara do São Paulo”. A mesma exposição que o fez ser acusado de querer aparecer demais na mídia.

Ele não acredita que o filho Rogério, avesso aos holofotes, terá o mesmo problema quando assumir a CBF.
Carlos Caboclo, prestes a ser o pai do homem mais poderoso do futebol brasileiro, não dá bola para isso. Preocupa-se de verdade com a situação do São Paulo. 

“Era só contratar um goleiro e um artilheiro que estava bom”, se queixa.

Dono de empresas de distribuição de doces, está afastado dos negócios, mas não das histórias do futebol. 

Antes de a reportagem sair do confortável apartamento em Moema (zona sul da capital), onde Caboclo mora, ele pede licença e volta com a mão cheia de chicletes. 

“Eu distribuo essas coisas. Dou caixas para o Muricy [Ramalho]. Também entregava para o Telê e ele parou de ficar com palito de dentes na boca. Ele era tão pão-duro que era doença”, se diverte. 

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