Órgão fiscal do Palmeiras quer anular novo acordo com a Crefisa

Dona da patrocinadora, Leila Pereira pede para ir ao órgão esclarecer mudanças

Leila Pereira, dona da Crefisa, e Mauricio Galiotte, presidente do Palmeiras, em apresentação de novo uniforme
Leila Pereira, dona da Crefisa, e Mauricio Galiotte, presidente do Palmeiras - Cesar Greco/ Ag. Palmeiras / Divulgação
 
Diego Garcia
São Paulo

O COF (Conselho de Orientação e Fiscalização) do Palmeiras quer que os novos contratos do clube com a Crefisa, que vão fazer a agremiação alviverde quitar os cerca de R$ 120 milhões pagos pela patrocinadora por reforços, sejam desfeitos pelo presidente Mauricio Galiotte.

Em reunião no dia 26 de março, em decisão unânime, o órgão fez recomendações a Galiotte e orientou o mandatário a procurar a empresa e renegociar os acordos. A dona da Crefisa, Leila Pereira, se adiantou e protocolou no clube uma carta pedindo para ir ao Conselho de Orientação e Fiscalização esclarecer os novos aditivos contratuais.

Em relatório apresentado ao presidente, uma comissão montada pelo COF havia dado 15 dias para a diretoria saber se vai conseguir mudar os termos do novo contrato. O órgão fiscal aguarda uma resposta de Galiotte sobre as alterações até a próxima terça-feira (10). 

As alterações contratuais mudaram a forma como a Crefisa contabiliza os aportes que faz no clube para a contratação dos jogadores. Antes, os gastos eram registrados pela financeira como despesas de marketing. Com isso, o valor era descontado do lucro da empresa, reduzindo também os impostos a serem recolhidos.

RECEITA FEDERAL

A prática foi condenada pela Receita Federal, que determinou a restituição dos impostos referentes aos valores declarados de forma equivocada e fez a empresa pagar, entre multa e tributos atrasados, um valor que supera os R$ 45 milhões até o momento.

Para não correr o risco de novas punições, em dezembro do ano passado, os contratos de aquisições de reforços pagos pela Crefisa para o Palmeiras foram alterados, e os gastos com contratações de jogadores passaram a ser registrados como empréstimos.

A mudança resultou em uma dívida para o clube de cerca de R$ 120 milhões —valor aproximado gasto pela patrocinadora em reforços. Pelo contrato, o débito será quitado à medida que o clube negociar os jogadores.

Caso o Palmeiras venda um atleta pelo mesmo preço pago pela Crefisa, o valor será repassado para a patrocinadora e o empréstimo será considerado quitado. Já se o valor de venda for inferior ao gasto pela empresa, o clube terá de depositar em até 24 meses a diferença na conta da Crefisa.

Porém, se uma venda futura ultrapassar o valor pago pela financeira inicialmente, a diferença será usada para quitar os débitos com a Crefisa referentes a jogadores negociados anteriormente por valor inferior ao de compra. Se não houver nenhum caso assim, o dinheiro vai para o cofre do clube.

Membros do COF ouvidos pela reportagem entendem que Galiotte desrespeitou o estatuto do clube ao alterar o contrato com a Crefisa e assumir a dívida com a patrocinadora. O órgão é responsável por fiscalizar as finanças do Palmeiras e pode denunciar ao Conselho Deliberativo dirigentes que cometam erros administrativos e desrespeitem o estatuto do clube.

Por esse motivo, conselheiros de oposição veem a possibilidade de abertura de sindicância interna, que na visão deles poderia até resultar na destituição do presidente do cargo, caso o mandatário não consiga renegociar os aditamentos contratuais. Eles afirmam que pedirão para o Conselho Deliberativo abrir uma sindicância em cima de Galiote.

Pelo estatuto do Palmeiras, o presidente precisa de autorização do COF para realizar operações de crédito de qualquer natureza que envolvam de 10% a 30% do valor da receita do clube registrada no último balanço financeiro. Em 2017, o clube registrou receita de R$ 531 milhões. O que significa que Galiotte precisaria consultar o COF para assumir dívidas entre R$ 53,1 milhões e R$ 159,3 milhões. 

Conselheiros de oposição também levantam a questão que o demonstrativo financeiro de 2017 do Palmeiras não levou em consideração o endividamento assumido isoladamente pelo presidente, pelo fato de os aditamentos iniciais terem sido firmados com data de 26 de dezembro do ano passado.

Nessa ocasião, Mauricio Galiotte estava de licença, e o presidente em exercício era o vice Genaro Marino. Para os opositores, portanto, os demonstrativos contábeis aprovados no Conselho e referentes ao exercício fiscal de 2017 também estão irregulares.

BRIGA POLÍTICA

Aliados do atual presidente Maurício Galiotte afirmaram à reportagem que as alterações realizadas no acordo em dezembro não mudaram a natureza dos contratos que já havia sido aprovado pelo COF. As mudanças discutidas pelo conselho só teriam acontecido em janeiro.

Pessoas próximas ao presidente dizem que ele também discorda da interpretação do caso feita pelo COF.  Para ele, a dívida contraída com a Crefisa não alcançaria a marca de 10% a 30% da receita anterior por tratarem-se de contratos celebrados com a financeira que não são cumulativos.

São, segundo sua visão, vários empréstimos pequenos, cada um referente a um jogador diferente, fechados em períodos distintos e com escopos distintos, apesar de a fonte que emprestou o dinheiro ser a mesma.

Tanto o presidente quanto o Palmeiras afirmaram que não vão se manifestar oficialmente sobre a reportagem. No fim de janeiro, Mauricio Galiotte se pronunciou sobre os novos contratos com a Crefisa. "É um compromisso futuro. Temos como ativos de garantia da operação os jogadores. O que foi investido pelo patrocinador gira em torno de R$ 120 milhões", afirmou Galiotte

Pessoas ligadas à situação veem motivação política na contestação dos acordos, já que a relação da dona da patrocinadora com o ex-presidente Mustafá Contursi, que possui muitos aliados no COF, está rompida. A briga começou após a denúncia da suposta venda ilegal de ingressos dados pela financeira ao cartola. As entradas eram revendidas a organizadas, o que configuraria o crime de cambismo

Em 27 de março de 2018, no dia seguinte à última reunião do COF, Leila protocolou junto ao órgão uma carta pedindo para comparecer pessoalmente ao conselho para fazer a defesa dos novos contratos. 

"Em virtude dos questionamentos que estão feitos com relação aos aditivos aos contratos de patrocínio, levando em conta que estes questionamentos atingem diretamente o patrocinador e com a preocupação de que este assunto não crie desgaste no excelente relacionamento que o patrocinador vivencia com o Palmeiras, gostaria de solicitar, respeitosamente, na qualidade de conselheira do Palmeiras e presidente da Crefisa, o meu comparecimento na próxima reunião do COF para que eu possa esclarecer e relatar todos os fatos envolvendo tais aditivos", escreveu Leila no documento.

Nessa carta, a empresária se colocou à disposição e agora aguarda um chamado do COF para eventuais esclarecimentos. “Sendo-me concedida a honra de participar da reunião, levarei toda a documentação e estarei à disposição para o esclarecimento de qualquer dúvida”, continuou a empresária no documento. 

“Acredito ser uma oportunidade para os senhores ouvirem os esclarecimentos e a verdade da pessoa diretamente envolvida. Lembrando que minha preocupação é sempre zelar pela transparência e de que nada e nem ninguém conturbe a parceria de sucesso entre Palmeiras e Crefisa”, finaliza Leila na carta. 

O atual contrato patrocínio da Crefisa com o Palmeiras vence em dezembro de 2018. Leila Pereira foi eleita membro do Conselho Deliberativo no ano passado.

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