Prodígio, mesa-tenista brasileiro diz que já joga no nível dos 'top 10' da categoria

Hugo Calderano, 21, aposta em dieta vegetariana e treinos na Alemanha para brigar por medalha na Olimpíada de 2020

Marcelo Laguna
São Paulo

Ao ficar com o vice-campeonato do Aberto do Qatar de tênis de mesa no início de março, o brasileiro Hugo Calderano mudou de patamar na modalidade. Para chegar à final do torneio (equivalente a um Grand Slam no tênis), bateu dois rivais entre os quatro melhores do mundo, um deles da China, país que há anos domina a modalidade.


Por isso, não chegou a ser uma surpresa sua presença na 12ª posição na mais recente atualização do ranking mundial da ITTF (Federação Internacional de Tênis de Mesa), divulgada no último dia 1º. É a melhor já alcançada por um brasileiro na história. E isso com apenas 21 anos.


Considerado um prodígio do tênis de mesa do país —vem sendo convocado para seleções brasileiras desde os 14 anos—, Calderano tem a convicção de que logo estará figurando entre as principais estrelas da modalidade.


“Sei que quanto mais cedo subir no ranking, estarei preparado para encarar os melhores do mundo. Mas, honestamente, já jogo no nível dos top 10”, afirmou.


Para ajudar a tornar seu plano real, resolveu alterar até sua dieta. Desde agosto do ano passado, Calderano tornou-se vegetariano.


“Vi um documentário explicando várias coisas sobre o vegetarianismo e decidi mudar. Passei a me sentir mais disposto nos treinos”, afirma o brasileiro.


Mesmo para quem vive em um país onde há uma forte culinária baseada em carne de porco, a mudança não foi tão traumática assim. “O importante é saber como consumir os nutrientes necessários, como as proteínas. Opções sempre existem”, diz Calderano, que ainda não viu os efeitos da nova dieta nas competições.


“Já ouvi alguns atletas veganos dizendo que se sentem com a mente mais clara, mas ainda não afetou diretamente no meu desempenho”, explica o mesa-tenista.


Além da dieta, Hugo Calderano também tem um hobby diferente para poder relaxar das tensões das partidas. Por influência do pai, aprendeu a montar cubos mágicos (quebra-cabeças coloridos que foram febre nos anos 80) aos dez anos de idade. Ele curtiu tanto o brinquedo que se especializou em montá-lo, ou seja, deixar todos os lados da mesma cor, no menor tempo possível.


“Hoje consigo fazer em cerca de 10s, mas meu recorde é de 6s”, revela, sem valorizar tanto o feito. “Se você treina bastante, vira algo automático”, explica Calderano, que já viu viralizar na internet alguns vídeos seus montando cubos dos mais variados tamanhos. Nem por isso ele se acha um “atleta nerd”.


“Sempre fui bom aluno, tinha facilidade para aprender idiomas e na área de exatas. Mas não ficava estudando o tempo todo. Praticava vários esportes na escola”, ressalta. 

LONGE DE CASA

Com uma dose de confiança que não deve ser confundida com arrogância, o carioca Hugo Calderano foge dos padrões para um atleta de sua idade. Uma prova disso foi abrir mão da zona de conforto da família e escolher a Alemanha como base para seus treinos e competições.


Desde 2014, Calderano vive na pequena cidade alemã de Ochsenhausen, com menos de dez mil habitantes e localizada no sul do país, onde defende o Liebherr Ochsenhausen na liga alemã e nas competições europeias. 


A Alemanha é considerada, abaixo da China e ao lado de alguns países da Ásia (Japão e Coreia do Sul, por exemplo),  uma das potências do tênis de mesa.


“No início, foi uma adaptação complicada, mas o fato de eu já ter morado três anos antes longe de casa [defendeu o São Caetano entre 2011 e 14], ajudou”, relembra.


Para atingir um nível jamais alcançado por outro brasileiro em sua modalidade —até então, o melhor jogador do país havia sido Ubiraci da Costa, o Biriba, 19º no mundo nos anos 60—, Hugo Calderano não contou apenas com seu talento. 


Ele reconhece a importância do trabalho do treinador francês Jean-René Mounier na evolução de seu jogo. Uma convivência iniciada em 2009, na seleção brasileira, e que após a Olimpíada Rio-2016 seguiu com ele, desta vez de forma individual.


“Melhorei muito desde que começamos a trabalhar juntos. Acredito que ele me colocou no caminho certo. O Mounier trouxe uma mentalidade diferente para o Brasil, uma mentalidade de alto nível”, afirma Calderano.


Ao menos para ele, vem dando certo.


Após ficar em nono lugar na Olimpíada Rio-2016, igualando o melhor resultado do Brasil na competição (que pertencia ao xará Hugo Hoyama, em Atlanta-1996), Calderano vem tendo uma ascensão constante no ranking mundial, especialmente neste ano. Foram cinco posições conquistadas em apenas quatro meses, após ter iniciado a temporada em 17º lugar.


Se as projeções se confirmarem, a expectativa é de chegar em condições de brigar por medalha na Olimpíada de Tóquio, em 2020.


“Tenho ainda um longo caminho pela frente, preciso focar para evoluir aos poucos. De qualquer forma, tenho confiança de que terei chances reais de buscar um lugar no pódio”, diz o brasileiro.


O candidato a novo ídolo do esporte brasileiro diz ter como sonho tornar o tênis de mesa mais popular no país. “Lembro bem das imagens do ginásio lotado na Olimpíada no Rio, com a galera torcendo bastante. Eles viram que o tênis de mesa pode ser emocionante”, afirma Calderano. 


*RAIO-X*

Nome
Hugo Calderano

Nascimento e local
22.jun.96 (21 anos), no Rio de Janeiro (RJ)

Altura e peso 
1,82 m e 74 kg

Principais conquistas na carreira
9º lugar na Olimpíada Rio-2016; ouro (individual e equipe) no Pan-Americano de Toronto-2015; bronze (individual) na Olimpíada da Juventude de Nanquim-2014

Ranking atual
12º lugar na lista da ITTF (abril/2018)

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