Desemprego assusta atletas experientes e jovens em busca de fama

Revelações lutam por chance em clubes pequenos e veteranos pelo sustento

O goleiro Kaique Rocha, 22, sem clube, tenta se recolocar no futebol profissional

O goleiro Kaique Rocha, 22, sem clube, tenta se recolocar no futebol profissional Bruno Santos/Folhapress

Alex Sabino
São Paulo

​Rodrigo Antonio de Oliveira Fornazier, 31, é empresário, marqueteiro e assessor de imprensa de si mesmo. É o único jeito de ir atrás de um novo clube cada vez que acaba um contrato. 

“Está ficando cada vez mais difícil arrumar clube. O tempo vai passando... É meio deprimente. Cansei de empresários. Meu empresário é Deus”, afirma o zagueiro. 

Ao seu lado, Sandro Ricardo Chagas de Lima, o meia Kaká, 29, balança a cabeça concordando. Os dois disputaram neste ano a Série A3 do Paulista (terceira divisão estadual) pelo Taboão da Serra, time da Grande São Paulo. 

Eles sabem que o tempo passa e o sonho de riqueza, fama e glória que tinham quando jovens não vai mais se materializar. O futebol virou uma questão de sobrevivência e luta para conseguir permanecer empregado na carreira na qual investiram a maior parte de sua juventude.

Por isso que Rodrigo pergunta se a Folha pode ceder as fotos feitas para acompanhar este texto. As imagens serviriam para ele se vender. 

É o mesmo pensamento que tem Kaique Rocha da Silva, 22, goleiro desempregado e que treina três vezes por semana no Expressão Paulista, projeto mantido pelo Sindicato dos Atletas Profissionais para jogadores que estão sem clube.

“No futebol, se você não está jogando, não tem valor nenhum”, constata Kaique.

Ele está no outro extremo. Ainda pode ser visto como alguém em começo de carreira. Ainda mais na posição de goleiro, na qual jogadores conseguem atuar até depois dos 40 anos de idade.

Mas alguém que afirma ser jogador profissional e está sem clube com 22 anos desperta suspeitas. Como isso aconteceu? Se passou sete anos na base do Corinthians, como aconteceu com ele, por que saiu? Por que não conseguiu outra equipe? 

“Quando você passa por um clube grande, sai e fica desempregado, cada vez mais as pessoas querem saber o porquê. Quando você sai da base e entra no profissional, o que você fez antes não vale nada. Tem de mostrar tudo de novo, a partir do zero”, afirma.

Veteranos e jovem, Rodrigo, Kaká e Kaique têm em comum a passagem por equipes de ponta do país e a busca diária por novas oportunidades que os levem de volta à elite do futebol nacional.

“Eu cheguei ao Santos aos 12 anos. Saí aos 21 e comecei a passar por clubes pequenos. Quando você está acostumado com a estrutura de time grande, a realidade do interior é um choque”, diz Rodrigo, que também passou por Fortaleza, América-RN, Francana, Monte Azul e São Carlos.

 

“Chega um momento em que você se cansa de tudo isso porque vê que cada vez vai ficando mais e mais difícil arrumar emprego. E a concorrência é cada vez maior”, opina Kaká, que passou pelo Necaxa, um dos principais clubes do México, em 2016.

Se é possível calcular a quantidade de jogadores empregados pelos dados do Ministério do Trabalho, a quantidade de profissionais desempregados é algo bem mais complexo.

A Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol) calcula que são 18 mil jogadores desempregados no Brasil. Mas não é um número aceito por todos.

A CBF informa não ser possível dar um dado preciso, mesma conclusão a que chega o Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo.

“Veja a Copa Paulista, por exemplo. É uma competição deficitária, que os clubes usam de laboratório para o ano seguinte. Oferecem salários baixos para fazer avaliações de atletas ainda em início de carreira e, logo depois, dispensam os garotos. São atletas que nunca haviam sido profissionais antes e dificilmente conseguirão outro clube. Você considera essas pessoas jogadores de futebol profissionais?”, questiona o presidente do Sindicato de Atletas de São Paulo, Rinaldo Martorelli.

A resposta dele é que não. Já para a Fenapaf, é sim.

COPA PREJUDICA

Os pequenos clubes são prejudicados por terem um calendário com poucos jogos ao longo do ano. No lado mais fraco da corda, está o jogador que busca emprego. 

O Taboão da Serra encerrou suas atividades de 2018 em abril. Deve jogar a Copa Paulista, mas apenas para fazer número, sem investimentos.

E, na atual temporada, a Copa do Mundo atrapalha um cenário que já é caótico.

“Quem não conseguir se empregar para torneios menores, como a Copa Paulista, só vai voltar a trabalhar em 2019. Se conseguir...”, diz Kaká.

O jeito é buscar ganhar algum dinheiro em jogos de várzea. É o que faz Kaique.

Mesmo assim, ele não aceita outra condição que não seja a de jogador de futebol profissional. Pode estar difícil, mas ele não tem a menor intenção de desistir do sonho.

“Para um goleiro, a minha idade não pesa tanto. Mas na vida, sim. Tenho amigos da minha idade que já terminaram a faculdade. Eu, não. Mas tenho esperança que vai melhorar. Fiz isso a minha vida toda. Não consigo me ver fazendo outra coisa”, diz ele.

É uma lógica que se compara ao vício em cocaína. O jogador vai da euforia de achar ser possível conseguir uma vaga em algum clube à tristeza de ver o quanto é difícil.

“Quando você vê como está o futebol, se chateia. E quando vê seus amigos com problemas, passando necessidade, se revolta”, afirma Kaká.

Rodrigo se acostumou à mesma cena. Ver antigos companheiros de campo desesperados à procura de trabalho.  Quando encontra jovens que sonham com fama e fortuna, toma cuidado para não ser pessimista demais, mas diz o que pensa, sem rodeios.

“Eu tenho responsabilidade como pai de família. Tenho uma filha de seis anos. Há muita gente desempregada, jogadores que querem apenas colocar um prato de comida dentro de casa. Pessoas da minha idade”, afirma.

Ao lado dele, Kaká apenas escuta. A sina de ser veterano da bola e pular de galho em galho vai fazê-lo ir em busca de uma nova camisa em breve.

“Às vezes dá vontade de parar. Mas aí você lembra que ama o futebol. A gente joga mais por amor do que por dinheiro. Não tem nem comparação. Quando você faz um gol, a sensação de dar felicidade para as pessoas é algo indescritível”, diz, no único momento em que seu olhar brilha ao falar da profissão.

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