Patrocinadora se sente discriminada no Palmeiras por ser mulher

Leila Pereira afirma que machismo vem de conselheiros de oposição: 'Inveja'

Diego Garcia
São Paulo

Dona da Crefisa, principal patrocinadora do Palmeiras, e conselheira mais votada no clube, Leila Pereira, 54, afirmou que vem se sentindo perseguida politicamente por membros da oposição do clube pelo fato de ser mulher. É a primeira vez que a empresária diz sofrer uma discriminação desse tipo desde que passou a frequentar os bastidores da agremiação alviverde.

No ano passado, a empresária havia dito ao programa Bola da Vez, da ESPN, que nunca havia sofrido machismo no futebol. Agora, após ter ganho força política na agremiação alviverde, ela afirma que passou a perceber o machismo de alguns conselheiros, especialmente os oposicionistas.

 

"Antes, eu não sentia [machismo], quando entrei no Palmeiras não tinha esse problema, essa discriminação. Eu pago três vezes mais do que outro patrocinador pagaria por um clube da grandeza do Palmeiras. Isso causa muita inveja. [Questionam] como pode uma mulher chegar, conselheira de primeiro mandato, e ter essa exposição, querer esse poder? É por causa da visibilidade que eu consegui e também por ser mulher", disse.

As empresas de Leila pagam R$ 82 milhões por ano para estampar suas marcas –além da Crefisa, a FAM (Faculdade das Américas)– nos uniformes do clube.

Atualmente, ela defende uma mudança no estatuto do Palmeiras que, além de aumentar de dois para três anos o mandato de presidente do clube, possibilitaria que ela concorresse ao cargo em 2021–pela regra atual ela teria de esperar até 2022. A votação será no dia 21 de maio.

A empresária também defendeu o novo modelo de contrato da Crefisa com o Palmeiras, que acrescentou aditivos que transformaram em empréstimos os gastos da patrocinadora em reforços, originando uma dívida na casa dos R$ 120 milhões que gerou críticas do Conselho de Orientação Fiscal do clube.

 

Reforma estatutária
Eu apoio e sempre apoiei os três anos [de mandato para presidente]. Colocaram na cabeça que essa mudança seria um casuísmo para beneficiar a Leila [com a mudança, ela poderia adiantar em um ano uma possível candidatura à presidência do clube]. Como casuísmo se esse projeto é de 2013, quando eu nem sonhava em ser conselheira? Colocaram até um nome dessa emenda de "Emenda Leila", e não é para me beneficiar. Isso é uma mentira. O que eu vejo, com muita dor, é que tem pessoas que defendiam e não defendem mais [a mudança no estatuto] por minha causa.

Oposição à reforma
São pessoas retrógradas que defendem os dois anos [de mandato] para que o Palmeiras nunca tenha paz. Para que sempre o candidato tenha que sentar com eles para negociar. É uma boa para esse pessoal mais antigo, que é encabeçado pelo ex-presidente Mustafá Contursi. Então eu acho que esse tipo de gente no Palmeiras, que antes era favorável aos três anos [de mandato do presidente] e agora são contra, é por causa dessa visibilidade que eu consegui por causa do meu patrocínio, pela colaboração que eu dei ao Palmeiras e eu acho também por eu ser mulher. [Procurado pela Folha, o assessor de Mustafá afirmou que seu grupo defende o mandato de dois anos por ser uma tradição no clube e por considerar que a mudança dessa regra em um ano de eleição é inconstitucional].

Machismo no Palmeiras
Antes, eu não sentia [machismo]. Quando entrei no Palmeiras, não tinha esse problema, essa discriminação. Mas hoje eu tenho uma visibilidade muito grande em virtude desse patrocínio. Eu pago três vezes mais do que um patrocínio normal pagaria por um clube da grandeza do Palmeiras. Isso causa muita inveja. [Questionam] como pode uma mulher chegar, conselheira de primeiro mandato, e ter essa exposição, querer esse poder? 

Machismo no futebol
Eu não tenha essa percepção porque eu não transito em federação, eu não transito na CBF ou em outros clubes, eu não ando fora do meu clube. Meu mundo é o Palmeiras. E dentro do conselho são só sete ou oito mulheres, de um total de 280. É muito pouco. No Palmeiras eu sinto essa rejeição por uma mulher ter tanta visibilidade. Tento ignorar.

Candidatura em 2021
É complicado dizer o que vou fazer daqui três anos e meio, sabe? Eu vou poder concorrer, se for aprovado esse projeto. Se eu puder, se os meus negócios permitirem, será uma grande honra para mim. Tenho completa capacidade de tocar o Palmeiras como eu toco minhas empresas. Eu sei administrar uma empresa, e eu acho que um clube de futebol deve ser administrado como uma empresa.

Relação com Mustafá
Não cumprimento. Eu tinha um respeito por ele, mas ele não teve nenhum respeito para com a minha pessoa a partir do momento daquele problema dos ingressos [o Ministério Público investiga repasse de ingressos que Leila dava para Mustafá a torcidas organizadas]. A partir daquele momento rompemos completamente. Aqueles ingressos eram para serem distribuídos para conselheiros, sócios, e não para serem vendidos. Isso está sendo investigado pela polícia e espero que os culpados sejam condenados.

Novo contrato
É uma questão puramente política, para desestabilizar o patrocinador com o clube e com o presidente. Tudo aconteceu por causa de uma denúncia à Receita Federal que uma pessoa de dentro do clube fez. Todo mundo sabe quem foi. Nós fomos fiscalizados e a Receita entendeu que aqueles contratos não se tratavam de patrocínio, e sim, de empréstimos porque tinha a possibilidade de devolução do valor. Então nós fomos autuados. Pagamos essa autuação e refizemos toda nossa contabilidade. Chamamos o presidente do Palmeiras, os advogados e o financeiro do Palmeiras, mostramos a situação. Ele entendeu.

Mudanças no contrato
Os termos são praticamente os mesmos, sempre houve o compromisso de devolver esse valor. Esse foi o combinado. Mas tinha realmente uma cláusula dizendo que se o jogador sair de forma gratuita, a gente deixa esse escape para o Palmeiras não precisar reembolsar. Às vezes o jogador se machuca, o jogador fica inutilizado. Tudo bem, Mas nesse caso está no contrato que se ocorresse esse fato do jogador sair gratuitamente, o Palmeiras teria de comprovar documentalmente que não houve nenhum benefício financeiro. E foi assim. Mas as cláusulas permanecem as mesmas. Vendeu, devolve o valor. Prazo do contrato é o prazo do contrato do jogador. Vendeu o jogador, paga. Vendeu com prejuízo, o Palmeiras tem dois anos para me pagar. Porém, as garantias são compartilhadas. Então eu não sei o por quê dessa balbúrdia do conselho fiscal [o órgão questiona as mudanças, que fez com que os gastos da Crefisa com contratação de jogadores fossem contabilizados como dívidas do clube]. É uma balela. 

Prejuízo ao Palmeiras 
O Palmeiras não teve um centavo de prejuízo com o patrocínio. É ridículo ficar discutindo sobre aditivos que podem dar prejuízo para o Palmeiras. Como um patrocinador que já botou meio bilhão de reais dentro do clube pode dar algum prejuízo? O que eu vejo ali é um jogo político capitaneado pelo Mustafá Contursi. Não estou nem dizendo de membros do conselho fiscal, estou falando do Mustafá Contursi. [Procurado pela Folha, o assessor de Mustafá disse o ex-presidente do clube acha Leila "uma excelente patrocinadora"]. 

Retirada do patrocínio
Eu deixei bem claro na reunião do conselho fiscal que eu, como presidente da Crefisa, não mudo uma vírgula daqueles aditivos [ao contrato de patrocínio]. Não mudo absolutamente nada. Não penso nisso [retirar o patrocínio do clube]. Está fora de cogitação. E é isso que eles querem, que o patrocinador saia e que o Palmeiras volte ao caos que era em 2014. E isso a gente não vai deixar.

Cláusulas fiscais
Não, nenhuma. Essa autuação a Crefisa pagou e para mim esse assunto está morto, está debitado. Mas quem não deixa esse assunto ser enterrado é essas duas, três pessoas que ficam criando problemas antigos, e não tem problema absolutamente nenhum. E se não aprovar logo, eu acredito que isso vá ser levado ao Conselho Deliberativo, e acho que lá as pessoas têm a consciência de que está tudo correto e que vão ser aprovados. Outra coisa: quem tem o poder de assinar o contrato é o presidente, não o COF. O COF dá apenas a sugestão, o poder de assinar é do presidente.

Juros do novo contrato
CDI  [Certificado de Depósito Interbancário], só. O que acontece: foram feitos contratos de empréstimo distintos, e a cada pagamento vai cobrando o CDI do período. Os prazos são dos contratos dos jogadores. Se vender, devolve o valor. O Palmeiras recebe hoje, tem 10 dias para me pagar. Se vender com prejuízo, por exemplo, o Palmeiras tem que pagar 15, vendeu por 10. Esses R$ 5 milhões ele tem dois anos para me pagar. As garantias são compartilhadas. Se vender outro jogador com lucro, esse outro jogador paga o prejuízo que tive. Por exemplo, um jogador é vendido por um valor menor, devolve o valor, e esse valor que ficou faltando se outro jogador for vendido por um valor maior, esse valor abate.

Aumento da dívida 
Quanto à contabilidade do Palmeiras, por favor, vá pergunta para o Palmeiras, porque eu não tenho condição de responder sobre a contabilidade do Palmeiras. Nenhuma.

Opinião dos torcedores 
Torcedor não está nem aí para contrato. Sabe o que o torcedor quer? Título. Ele quer alguém que colabore, alguém que ponha craque dentro do clube para ganhar título. E outra coisa, quem disser que eu não colaboro pagando três vezes mais de patrocínio, quer maior doação que essa? É claro que eu estou doando, não é? Torcedor não quer saber do balanço do Palmeiras, a verdade nua e crua é essa. Claro que a gente tem que ter um clube saudável. Nós, como conselheiros, nos preocupamos com isso, mas o torcedor que não está na política, que não é conselheiro, que não vive esse dia a dia político do Palmeiras, não quer saber disso. E é isso que eles [torcedores] veem em mim. Uma pessoa que colabora para títulos. Eu acho que se eu tirasse esse recurso que coloco no clube, o Palmeiras não estaria onde está hoje.

Flamengo tem mais visibilidade que o Palmeiras
Nossa, de jeito nenhum. Nem lembro que falei isso, em hipótese nenhuma [ela disse que o clube carioca daria mais visibilidade para sua marca em entrevista ao jornal Lance!, em novembro de 2015]. Eu não saio do Palmeiras. Se eu sair do Palmeiras, eu saio do futebol. [O Palmeiras dá uma visibilidade] enorme. [No nível de] Justin Bieber [cantor se apresentou no Allianz e usou camisa do clube]... A visibilidade de um clube como o Palmeiras para as minhas marcas é internacional. Eu vou a Portugal, França, Itália, e as pessoas me reconhecem lá como a patrocinadora e parceira do Palmeiras. Me dá um extremo orgulho.

Interferência em final do Paulista
Eu não queria me meter nessa celeuma, mas eu apoio integralmente todas as atitudes do presidente do Palmeiras. Ele tem o meu apoio integral

Comparação com outros clubes
[O patrocínio do Palmeiras é] R$ 82 milhões. Quando eu falo que pago quase R$ 100 milhões, tem parte em prêmio, salário de jogador, então juntando tudo dá quase R$ 100 milhões por ano. Eu tenho absoluta certeza que o mercado paga bem menos. Temos os grandes clubes, você vê quanto pagam… Corinthians R$ 22 milhões, Flamengo acho que R$ 25 milhões, e eu pago quase R$ 100 milhões. Eu pago bem acima do que os outros grandes clubes pagam. Então o quanto eu acho que vale é o que o mercado paga, e o quanto eu pago a mais é pelo amor e a contribuição que eu quero dar para o clube.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.