Descrição de chapéu The New York Times

Regra da NFL sobre o hino americano só contentará a NFL

Clubes poderão punir os jogadores como preferirem, em casos de violações

Nova York | The New York Times

A National Football League (NFL), a principal federação de futebol americano dos Estados Unidos, decidiu que era hora de limpar a própria casa. Agora, vai descobrir se é possível viver nela.

Depois de quase dois anos de deliberações ansiosas, os 32 proprietários dos clubes da liga decidiram na quarta-feira que mudariam a regra da NFL quanto ao protocolo a ser seguido durante a execução do hino nacional.

Em uma reunião de dois dias em Atlanta, eles afirmaram que a NFL agora autorizará os jogadores a ficarem no vestiário durante a execução do hino nacional, na abertura das partidas, mas anunciaram que os times seriam multados se os jogadores "não se levantarem e demonstrarem respeito à bandeira e ao hino". E em seguida vem a bomba: os clubes poderão punir os jogadores da maneira que preferirem em caso de violações.

Colin Kaepernick (nº 7), então no San Francisco 49ers, ajoelhando-se durante o hino americano, em protesto pela brutalidade policial contra os negros nos Estados Unidos
Colin Kaepernick (nº 7), então no San Francisco 49ers, ajoelhando-se durante o hino americano, em protesto pela brutalidade policial contra os negros nos Estados Unidos - Thearon W. Henderson - 6.out.2016/AFP

"Foi uma infelicidade que os protestos em campo tivessem criado a percepção, para muita gente, de que falta patriotismo aos milhares de jogadores da NFL", disse Roger Goodell, o comissário da liga, ao explicar a necessidade da nova regra. "Acreditamos que a decisão de hoje manterá nosso foco no jogo e nos extraordinários atletas que o jogam - e em nossos torcedores que o apreciam".

Mas a mudança da regra provavelmente não satisfará a qualquer dos envolvidos. Em mensagem de texto enviada no momento em que os proprietários estavam votando, George Atallah, diretor executivo assistente de assuntos externos na Associação dos Jogadores da NFL, deixou claro que a nova regra "não era um compromisso".

"Não fomos consultados ou incluídos", ele escreveu.

A liga se colocou em uma posição que lhe valerá críticas tanto daqueles que querem que os jogadores obrigatoriamente se levantem durante a execução do hino nacional quanto daqueles que sentem que ela está tentando silenciar os jogadores que empregam aquele momento para protestar contra a injustiça social.

Em comunicado divulgado depois da votação, o sindicato dos jogadores disse que "a votação pelos presidentes dos clubes hoje contraria as declarações feitas à liderança dos jogadores pelo comissário Roger Goodell e por John Mara, o presidente do conselho de administração da NFL, sobre os princípios, valores e patriotismo de nossa liga".

A nova regra também pode resultar em muitas contestações e recriminações, se os jogadores decidirem testar os limites da norma e a tolerância de seus patrões.

Dar aos clubes autoridade para punir os jogadores cria uma situação na qual os jogadores de Seattle e Filadélfia, por exemplo, podem ter regras diferentes dos jogadores de Houston e Dallas.

Para uma liga que gosta de falar de unidade, essa regra cria uma dinâmica que pode permitir que alguns proprietários multem os jogadores que não se erguerem durante a execução do hino, enquanto outros clubes podem vir a ser considerados como portos seguros nos quais os jogadores têm direito de se pronunciar.

A regra atual, adotada uma década atrás, não é perfeita, Requer que os jogadores estejam na lateral do campo durante a execução do hino e afirma que eles devem assistir de pé à sua execução - mas não os compele a fazê-lo.

Pouca gente sabia da existência da regra até que Colin Kaepernick, ex-quarterback do San Francisco 49ers, tirou vantagem da linguagem imprecisa da norma, em 2016, e optou por ouvir ajoelhado o hino nacional, como protesto contra a brutalidade policial e outras injustiças sofridas pelos negros dos Estados Unidos.

Quando outros jogadores - quase todos negros - se uniram a Kaepernick ou realizaram outras formas de protesto silencioso, isso criou uma cisão que os proprietários vinham tentando reparar desde então.

O jogador do Kansas City Chiefs, Tanoh Kpassagnon, permanece sentado durante a execução do hino americano, antes de uma partida da última temporada da NFL, em protesto pela violência da polícia contra os negros dos Estados Unidos
O jogador do Kansas City Chiefs, Tanoh Kpassagnon, permanece sentado durante a execução do hino americano, antes de uma partida da última temporada da NFL, em protesto pela violência da polícia contra os negros dos Estados Unidos - David J. Phillip - 8.out.2017/Associated Press

A liga tentou contornar o problema durante toda a temporada de 2016, na esperança de que a mídia passasse a ignorar os poucos jogadores envolvidos em protestos, e que essas manifestações cessassem. No começo da temporada de 2017, o número de jogadores que continuavam a protestar tinha caído a pouco mais de uma dúzia.

Mas quando o presidente Donald Trump criticou os proprietários dos clubes por permitirem até mesmo esses protestos modestos, e usou um palavrão para definir os jogadores que continuavam a protestar, tudo mudou.

Em um domingo de setembro de 2017, proprietários, executivos e atletas da NFL se posicionaram de braços entrelaçados na lateral dos gramados, para protestar contra as críticas do presidente.

 Depois disso, os protestos dos jogadores passaram a ser responsabilizados pela queda dos índices de audiência da NFL na televisão, o indicador mais precioso para a liga.

E a NFL só pode culpar a si mesma. Há muito tempo ela emprega o patriotismo como ferramenta de marketing. Nenhum grande jogo estaria completo sem uma revoada de aviões militares ou uma bandeira nacional que cubra todo o campo.

Como muitas organizações esportivas, a NFL intensificou seu uso de imagens patrióticas depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

A organização aceitou centenas de milhares de dólares em verbas do Departamento de Defesa para organizar tributos aos membros das forças armadas, durante as partidas.

O governo também paga pela presença de guardas cerimoniais de militares e por cerimônias nas quais soldados se alistam ou renovam seu alistamento diante de milhares de torcedores.

Mas o problema não se limita à NFL. A Major League Baseball, a National Hockey League e outras ligas esportivas também aceitaram dinheiro público para ajudar na organização de eventos patrióticos.

Mas o futebol americano é o esporte mais popular dos Estados Unidos, por larga margem, e o mais associado às forças armadas.

A divisão quanto ao hino causou uma cisão racial. Cerca de 70% dos jogadores da liga são negros, e proporção parecida dos torcedores são brancos. Muitos torcedores negros dizem apoiar os jogadores que protestam, enquanto muitos dos torcedores brancos os criticam por falta de patriotismo.

Essas divisões se tornam ainda mais aparentes em certas áreas geográficas. Os proprietários de clubes em estados como o Texas, de inclinação conservadora e com forte presença de bases militares, estão entre os mais vigorosos defensores de uma regra que force todos os jogadores a ouvirem ao hino em pé.

Os proprietários em estados da região nordeste, ou em Seattle e San Francisco, mais progressistas, adotaram posições mais tolerantes.

Os proprietários tentaram criar uma regra que leve em conta essas diferenças. Mas, ao fazê-lo, podem ter acentuado ainda mais o problema. Os treinadores sempre falam sobre a necessidade de união entre os jogadores.

Agora, eles terão de decidir se o time todo ficará no vestiário, para demonstrar união, ou se alguns jogadores serão autorizados a ficar no vestiário enquanto os demais assistem à execução do hino.

E quanto à promessa da NFL de que doaria milhões de dólares a organizações que combatem a injustiça social? Os proprietários trombetearam essa promessa no ano passado como sinal de que apoiavam de fato os seus jogadores.

Agora estão dizendo aos atletas que eles podem ser multados caso tentem promover iniciativas quanto a isso por meio de suas ações.

Penalizar os times cujos jogadores não respeitem o hino parece ser ainda mais problemático. Quem decide qual é o nível de respeito requerido? Os proprietários pressionarão os jogadores para que assistam de pé à execução do hino?

Os jogadores estão muito atentos à queixa formal apresentada por Kaepernick à NFL. Ele acusou os proprietários de clubes de conspiração para mantê-lo fora da liga por conta de seus protestos.

Será que os proprietários só contratarão jogadores que assistam em pé ao hino?

É justo reconhecer que que seria difícil para a NFL criar uma regra que satisfaça a todos. Mas uma regra que satisfará apenas aos 32 proprietários dificilmente pode ser descrita como uma solução esclarecida.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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